Algumas coisas sobre mulher e sexo

Em seu primeiro longa-metragem, Euclydes Marinho mistura documentário e ficção para investigar a sexualidade feminina

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

12 de janeiro de 2008 | 00h00

Euclydes Marinho viveu o que se pode definir como uma situação bizarra. Por economia, ele filmou Mulheres Sexo Verdades Mentiras na própria casa. De manhã, chegavam os atores e técnicos, mas a parafernália do equipamento já estava lá dentro. Por um bom número de dias (semanas), ele vivia num cenário montado que ocorria ser também sua casa. Euclydes colocou dinheiro do próprio bolso - mais de R$ 600 mil - na realização de Mulheres. Era um filme que ele queria realizar. Se a gente conta o filme - uma mistura de documentário e ficção, investigando a sexualidade feminina -, você pode até achar que o diretor fez, de alguma forma, o seu Jogo de Cena. Não tem nada a ver - seria um Jogo de Cena puramente ficcional, por mais que existam entrevistas com personagens reais ali dentro -, mas Euclydes sabe que a aproximação é possível e até brinca. ''''Quando soube que estavam fazendo o Jogo de Cena, pensei - Pô, mas tinha de ser o (Eduardo) Coutinho?'''' Ele sabe que Coutinho é grande demais e qualquer comparação será destrutiva para suas Mulheres.Mas Euclydes também sabe outra coisa. No Festival do Rio do ano passado, Mulheres, ao integrar a programação da Première Brasil, levou algumas lambadas dos críticos. Ele não se surpreendeu - ''''Este não é um filme para críticos'''', avalia. Se tiver sorte - e o boca a boca funcionar -, ele espera conquistar o público. ''''Tenho umas amigas intelectuais que viram o filme e foram logo dizendo que não gostavam.'''' Não é um filme fácil de definir. Por sua mistura de gêneros e estilos, Euclydes diz que é ''''uma zorra''''. Mas Júlia Lemmertz, que participa com ele da entrevista - realizada terça-feira à tarde, no anexo do Espaço Unibanco -, acha que essa ''''zorra'''' termina por dizer algumas coisas sérias sobre a mulher e o sexo.Júlia comemora o sucesso de Meu Nome Não É Johnny, no qual faz a mãe do personagem de Selton Mello - 200 mil espectadores de terça, dia 1º, a domingo, 6, em cem salas de todo o País. Júlia salta diretamente de uma mãe sofredora para essa mulher abandonada pelo marido e que - dinâmica - tenta dar a volta por cima fazendo um documentário sobre as mulheres e o sexo. Ela filmou Johnny depois de Mulheres e lembra que, durante a filmagem deste último, ainda estava ligada à peça Um Rastro de Luz, na qual fazia uma cega. Muitas transformações na cabeça de uma atriz só, mas ela acha que o barato de sua profissão está justamente nessa diversidade. Não a preocupa ter saltado uma etapa, fazendo a mãe precocemente envelhecida de Johnny. Outra atriz, mais preocupada com ''''a imagem'''', talvez se preocupasse, mas não ela. Júlia sabe que não é a documentarista de Mulheres, mas a personagem, por seu humor e vontade de viver, está mais próxima dela. ''''Sou uma pessoa divertida; adoro contar piada.''''Sua porção espectadora ficou satisfeita com o filme de Euclydes Marinho. Machão, ele brinca que as mulheres, incluindo sua sexualidade, são um material pelo qual se interessa não apenas na arte, mas na vida. ''''As mulheres são uma fonte permanente de indagação e interesse. Já coloquei mulher num monte de trabalhos - Malu Mulher (a série com Malu Mader), Mulher (com Patrícia Pillar). Coloquei no filme tudo o que sei sobre elas e mais o que gostaria de saber, e descobri nas sucessivas entrevistas preparatórias.'''' O sucesso de Johnny anima Euclydes. ''''Seria pior, se a gente estivesse estreando após um grande fracasso do cinema brasileiro'''', ele diz. Conhecido mais como homem de TV, ele tomou gosto pelo cinema e já tem dois projetos engatilhados. Antes, precisa fazer caixa para pagar as contas de Mulheres. Euclydes assina a adaptação de Dom Casmurro, de Machado de Assis, que Luiz Fernando Carvalho vai transformar em episódio de seu Quadrante (após A Pedra do Reino) e reescreve atualmente o roteiro da seqüência de Se Eu Fosse Você, que Daniel Filho deve começar a filmar em março. Ele também deve escrever uma novela na Globo, mas o cinema está agora, cada vez mais, em seus planos.

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