Algemado - 2

Ouvindo minha altaneira recusa em assinar o ticket da multa, o guarda foi claro: "Você não vai assinar o ticket?" "Não! Não posso assinar algo que me incrimina quando sou inocente", reiterei, reafirmando minha arrogância e minha disposição de dar uma preleção de jurisprudência comparada naquele policial ignorante.Foi quando ouvi em alto e bom som o famoso e cinematográfico: "You are under arrest!" (você está preso), seguido de um rápido gesto do policial que, posicionando meus braços para trás do meu corpo, neles abotoou um liso, frio e duro par de algemas do mais puro aço inoxidável, made in USA. A imobilização dos braços para trás e o aperto que senti nos pulsos provocaram uma inesperada falta de ar. Uma sensação de pânico misturada a percepção de impotência, tudo isso temperado com a boa e velha indignação aristocrática brasileira - afinal, sou um homem de bem, branco, educado e culto. Aquilo tudo não passava de um insulto. Algemado com as mãos para trás, imediatamente percebi que não podia fazer as coisas mais simples, como coçar o nariz, tirar um lenço do bolso ou sequer andar com segurança...Com a calma conformada dos algemados, olhei o agente da lei. O uniforme era impecável: calças e camisa(!) vincadas, o cinto de segurança igual ao do Batman, com mais penduricalhos técnicos do que os salários dos nossos parlamentares. Os sapatos pretos brilhavam, refletindo as luzes da cidade. O sujeito não ria nem tinha pena da minha estupefação. A cara de jogador de pôquer revelava um cumpridor implacável da lei. Aliás, fui consolado quando me inteirei que os transeuntes olhavam a cena com indiferença e que não estava só, pois o mesmo policial repetia a dose com um outro sujeito. Desta feita, com um americano que, tão algemado como eu, reclamava alto dizendo que aquilo era autoritarismo e arbítrio comunista!Algemado como um bandido no centro de Los Angeles!, falou dentro de mim voz aristocrática da minha cultura, obrigando-me a reagir. Chamei o guarda e, controlando meu nervosismo, disse quem era. Não se tratava de pessoa comum, mas de um doutor e professor universitário convidado pela Organização dos Estados Americanos que ali estava para tomar parte da reunião da Associação Americana de Antropologia. Se a cidade tinha aquela norma, eu não sabia, pois se soubesse, não teria cometido a falta. Afinal, que papel era aquele que deveria assinar, etc...A tentativa de aplicar um "Você sabe com quem está falando?", em Los Angeles, falhou. O policial não me ouviu, ocupado que estava em multar o outro sujeito. Tocado por piedade muito mais do que pelos meus atributos hierárquicos, o parceiro do multador explicou que o papel era um reconhecimento da falta. Se quisesse, poderia ir a uma corte de Los Angeles para reclamar minha inocência com um juiz. Se era assim, falou a voz da conciliação nacional de dentro de mim, eu assinava.Livre das algemas, enchi os pulmões e assinei o tal papel que, dias depois, foi enviado à prefeitura de Los Angeles com uma carta explicando o evento. Após algum tempo, recebi uma polida resposta da prefeitura de Los Angeles, reafirmando que não havia perdão: eu tinha de pagar a multa!Voltei ao hotel da convenção e anunciei (não sem exagerados) o episódio aos colegas. Os latino-americanos e brasileiros ficaram horrorizados. Nenhum americano, além da simpatia, esboçou qualquer reação. Logo me dei conta que ainda estava para existir um americano que não tivesse tido alguma experiência com a polícia. A maioria deles havia sido multada; todos tinham sido parados em rodovias para averiguações, e alguns tinham tido a experiência da prisão temporária por faltas leves. Comparecer a delegacias de polícia, discutir com policiais e ser por eles multados era algo banal numa sociedade individualista e, sobretudo, igualitária, onde o direito a ser feliz obviamente tinha de ser balizado pela lei e seus agentes.Tudo isso me conduziu a um inventário de minhas experiências com a polícia no Brasil e nos Estados Unidos. No Brasil, só tive contatos com policiais rodoviários, conseguindo evitar as multas. Nos USA, tive uma dezena de experiências com agentes da lei. Elas vão de advertências por excesso de velocidade a multas com o devido sermão por estacionamento proibido. Uma vez, fiquei irritado com a bronca que levei de um policial em Madison, Wisconsin, ao dirigir sem identificação quando voltava de uma academia de ginástica. Mas, note bem, não fui ameaçado, nem tentaram piorar a situação para depois facilitá-la com um "jeitinho" na base de alguns trocados. Vivi, na íntegra, a observação de Alceu Amoroso Lima quando, no seu inteligente A Realidade Americana, ele comenta que, nos Estados Unidos, vai-se da confiança para a desconfiança e não ao contrário, como é geralmente o caso brasileiro.Isso sem esquecer a prisão dos meus filhos num estádio de beisebol, que me levou a visitar a delegacia de South Bend, Indiana, só para descobrir, surpreso, a fria polidez de um velho sargento que recebeu a fiança, advertiu os meninos e entregou-os aos seus atônitos e envergonhados genitores brasileiros.O que tudo isso revela? (Você vai descobrir na próxima semana).

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