Alex Viany, respeito ao filme popular

Cineasta, ensaísta, pesquisador, e muito mais, é lembrado em mostra que inclui documentos e produções no MAM do Rio

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

29 de janeiro de 2009 | 00h00

Buster Keaton escrevia-lhe cartas. Os irmãos Marx fizeram pilhérias com ele. Orson Welles discutia cinema consigo. Para Nelson Pereira dos Santos, ele foi uma espécie de compêndio da história do cinema. Glauber Rocha disse que seu livro Introdução ao Cinema Brasileiro (1959) era um marco divisório na cinematografia nacional (a primeira obra da filmografia nacional, segundo Paulo Emilio Salles Gomes). Era o único capaz de ter uma atitude crítica e ao mesmo tempo generosa para com o filme brasileiro, segundo Leon Hirszman. Cineasta, entrevistador, ensaísta, teórico, prático, historiador, polemista, pesquisador musical, nacionalista, universalista, referência cultural: o espectro de atuação de Alex Viany (1918-1992) é muito amplo para que sua importância permaneça desconhecida. Pois bem: a partir de amanhã, dia 30, uma série de eventos no Museu de Arte Moderna do Rio recupera parcela considerável desse espectro. Além do lançamento do Projeto Acervo Alex Viany (www.alexviany.com.br), que traz a catalogação e digitalização dos documentos do crítico, cineasta e historiador. Um ciclo com as obras do artista também está previsto na Cinemateca do MAM, começando hoje, às 18h30 com a exibição de Sol Sobre a Lama (Brasil, 1963), filme com Geraldo Del Rey, Gessy Gesse, Glauce Rocha.Será exibido o filme em curta-metragem Ana, de 1955, às 18h30, um dos mais raros do diretor de Agulha no Palheiro, longa que se tornou uma espécie de mergulho inicial no neorrealismo. "O filme popular não tem de ser malfeito e irresponsável, e o filme sério não tem de ser chato e incompreensível", escreveu Viany, a propósito de Moleque Tião (1943). Toda a sua vida ele se bateu por uma conjugação desses esforços, o da pesquisa de linguagem, da paixão pelo cinema, e da necessidade de fazer o filme chegar às classes populares.Viany iniciou sua carreira como jornalista, escrevendo para O Diário da Noite. Em 1945, mudou-se com a mulher, Elza Viany, para Los Angeles, para Hollywood, onde atuava como correspondente da revista O Cruzeiro, a mais influente publicação brasileira de então. Logo marcou a imprensa da época com seu texto coloquial e as ideias claras. Voltou ao Rio em 1948, e começava aí sua atuação mais decisiva como articulador teórico e agitador cultural."Meu pai sempre foi muito procurado por pesquisadores, estudantes e apaixonados por cinema. Seu acervo tinha uma organização anárquica na qual ele conseguia localizar qualquer informação que desejasse", diz a filha de Viany, a atriz e produtora Betina, que coletou e organizou mais de 94 mil folhas de anotações e documentos produzidos em 50 anos de atividade contínua do pai. Betina também foi personagem e protagonista de obra de seu pai. Ela participou como atriz do filme Noiva da Cidade, num papel que seu pai escreveu somente para ela - Lindalva, para quem Chico Buarque e Francis Hime fizeram uma música. Noiva da Cidade era uma comédia musical com que Viany sonhara durante anos."Depois que meu pai ficou doente, seu acervo foi depositado na Cinemateca do MAM, sem condições de consulta. As pessoas frequentemente recorriam a mim e encontrar o documento era uma questão de sorte. Documentos diversos, raros, muitos deles inéditos, originais, fotos, recortes, correspondência passiva e ativa, pois meu pai fazia cópia de tudo que escrevia, roteiros, argumentos. O interesse e a curiosidade das pessoas me deram a certeza de que naquelas gavetas estava guardado um tesouro, agora à disposição de todos", diz Betina."A paixão pelo cinema é a única coisa indispensável", disse Viany em depoimento ao jornal Cine Imaginário. Essa paixão se reflete também nas suas produções, como o mais celebrado longa, Agulha no Palheiro. "Talvez seja o filme de meu pai de que mais gosto. É um bom cruzamento da chanchada brasileira com o neorrealismo italiano, o que resulta num filme extremamente carioca e amoroso", diz Betina Viany.Nos últimos anos de vida, Alex Viany cultivou uma rotina de praia, caminhadas matinais e a ida aos cinemas da região do Flamengo e à Cinemateca, pertinho dali. Procurava mais rever do que ver filmes. Via velhos filmes americanos em 16 mm com os amigos e continuava ligado ao ambiente cultural carioca."Meu pai gostava de levar a família ao set, mas não tenho lembrança das idas às filmagens quando eu era muita pequena, mas as fotos estão aí para provar. Como aquela em que estou no colo da Glauce na filmagem de Rua Sem Sol", lembra a atriz. "A lembrança que tenho do meu pai é de um cara extremamente apaixonado, explosivo, ético, leal e, sobretudo, brasileiro."

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