Aleijadinho, um mito?

Livro mostra como a história adotou uma falsa imagem do escultor, ícone da brasilidade

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

03 de janeiro de 2009 | 00h00

Polegares na mesma posição dos outros dedos, olhos amendoados, furo no queixo, nariz afilado, maçãs salientes, bigodes bem delineados e barba partida no queixo. Para o historiador francês Germain Bazin (1901- 1990), essas seriam as características que identificariam o estilo de Aleijadinho entre tantos mestres esquecidos do barroco mineiro. O próprio Bazin atribuiu a ele a autoria do Cristo Flagelado, hoje pertencente ao acervo do Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. Errou feio, justo quando se fixava o padrão estilístico do "Michelangelo mineiro". Esse Cristo não tem furinho no queixo e os fios de sua barba não são tão certinhos quanto gostaria Bazin, que depois reconheceu a falha. Ele, contudo, não foi o primeiro nem será o último a errar. Guiomar de Grammont, a autora do livro O Aleijadinho e o Aeroplano (Editora Civilização Brasileira, 322 págs., R$ 45), defende que não só os métodos de análise atributiva são equivocados como as provas documentais a respeito do escultor são insuficientes para atestar a autenticidade de qualquer uma de suas obras. Todo esse esforço para sobrevalorizar Aleijadinho é inútil, diz ela. Aleijadinho não foi um. Foram vários.A tese da escritora caiu como uma bomba em território mineiro. Ela passou o último mês enfrentando olhares oblíquos de críticos e colecionadores que, de uma hora para outra, viram cair por terra seu herói colonial disforme. A imprensa mineira viu com antipatia o estudo da acadêmica, professora de Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto, sobre esse ícone da brasilidade, a ponto de um jornal de Belo Horizonte estampar na manchete "Ela quer matar Aleijadinho". Exagero, claro. Orientada pelo francês Roger Chartier, do Collège de France, e pelo professor João Adolfo Hansen, da USP, Guiomar de Grammont só queria estudar a construção de Aleijadinho como mito brasileiro. Acabou comprando uma briga dos diabos ao dizer que Antônio Francisco Lisboa (1730-1814), o herói cultural barroco, pode não ter sido o artífice que o Brasil conhece, mas um mito inventado pela astúcia do Império, instrumentalizado pela ditadura do Estado Novo e saudado pelos primeiros modernistas, sobretudo por Mário de Andrade, como o herói miscigenado, o gênio da raça, o mulato genial que desafiou os padrões europeus e transgrediu as normas para criar uma arte autenticamente brasileira.O protótipo do brasileiro mestiço, doente, que supera suas limitações para mostrar ao mundo sua genialidade sempre serviu aos governos e à construção da chamada identidade nacional, especialmente depois do golpe de Estado de 1937. Não se deve esquecer que o Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan) foi criado duas semanas depois e investiu com tudo na busca de documentos relacionados à figura de Aleijadinho, que teve sua primeira biografia oficial assinada em 1858, 44 anos após sua morte, por Rodrigo José Ferreira Bretas. É a mesma biografia que a professora mineira dissecou para provar que seu autor "incorporou" dados da vida de Michelangelo contada por Vasari em sua fantasiosa obra. A professora questiona desde a paternidade do artista - atribuída ao arquiteto português Manuel Francisco Lisboa para que ele fosse aceito pelo Segundo Reinado -, até a doença contagiosa (sífilis, lepra?) do "Quasímodo brasileiro", por falta de provas documentais. "O que se pode concluir é que a biografia de Bretas foi feita para receber o prêmio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, outorgado pelo próprio imperador Pedro 2º, e que os documentos posteriormente reunidos pelo Sphan são apêndices da biografia", diz a autora. "Não dá para afirmar que Aleijadinho era filho de Lisboa ou que ele tenha sido arquiteto." O escultor é uma invenção romântica e nacionalista de Bretas, defende a autora. Como um Victor Hugo dos trópicos, o biógrafo forjou a imagem desse Quasímodo tropical, que supera sua deformação física para atingir a dimensão espiritual do gênio, uma imagem construída para servir aos interesses políticos de distintas épocas, de Pedro 2º a Vargas. O próprio título do livro brinca com o anacronismo ao associar o Aleijadinho à figura do aeroplano, a exemplo do que fez há um século o conde Affonso Celso, definindo o artista como um visionário capaz de saltar no espaço, à maneira de Santos Dumont, em busca do novo, um Da Vinci pronto para realizar o sonho renascentista em Vila Rica, ao construir igrejas, esculpir profetas em pedra sabão, santos em madeira e miniaturas (com as mãos deformadas?) de madonas.O Aleijadinho que todos conhecem seria, portanto, um personagem de ficção criado por Bretas na biografia adotada por outros historiadores. Se os modernistas viram nele o signo da diversidade, o herói étnico fundador da nacionalidade e que canibalizou a arte européia para criar uma cultura híbrida, o Estado Novo Novo fez dele o protótipo do brasileiro que superou as diferenças raciais e culturais. Para Guiomar, no entanto, ele não foi um, mas vários brasileiros. A professora rejeita o conceito de autoria - típico do século 19. O escultor simplesmente teria de viver dez vidas para esculpir todas as obras a ele atribuídas. Ou dividir com outros artífices a tarefa, hipótese mais provável. Aleijadinhos há muitos, diz ela. E não apenas nos museus e nas casas dos colecionadores. Ela só "desconstruiu" sua história.

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