Foto da série "Tríptico", do fotógrafo carioca Alair Gomes (1921-1992), homenageado com a exposição "Percursos", na Caixa Cultural
Foto da série "Tríptico", do fotógrafo carioca Alair Gomes (1921-1992), homenageado com a exposição "Percursos", na Caixa Cultural

Fotógrafo Alair Gomes ganha retrospectiva em SP e entra no MoMA

Expoente da fotografia homoerótica, artista carioca morreu sob circunstâncias ainda não esclarecidas, como Pier Paolo Pasolini

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

24 Julho 2015 | 03h00

Alair Gomes (1921-1992), fotógrafo carioca que desperta o interesse dos museus estrangeiros desde sua bem-sucedida mostra na Fundação Cartier, em 2001, não foi o primeiro a projetar nos corpos de jovens atletas o ideal da escultura clássica greco-romana. A lista de seus predecessores é enorme: vai do barão alemão Wilhelm von Gloeden (1856-1931), que registrou imagens de adolescentes nus em Taormina (2.500 delas confiscadas pela polícia de Mussolini) ao fotógrafo de moda norte-americano George Platt Lynes (1907-1955), que destruiu parte de seu acervo antes de morrer. Entre aqueles que o precederam na fotografia homoerótica é preciso citar ainda o alemão Herbert List (1903-1975), fotógrafo da agência Magnum que igualmente viu os corpos de jovens atletas como o de deuses gregos.

Uma das séries que o fotógrafo Eder Chiodetto destaca como curador da exposição Alair Gomes: Percursos, a partir de sábado, 25, na Caixa Cultural, trata inclusive desse universo mítico que tanto interessou aos três fotógrafos anteriormente citados. Em Symphony of Erotic Icons, conjuntode 1.767 fotografias criadas entre 1966 e 1978 – algumas exibidas na mostra –, o fotógrafo carioca trata diretamente desse mundo criado pela imaginação artística, que transferiu para a estátuas greco-romanas atributos divinos. Em duas viagens pela Europa, em 1969 e 1983, ele registrou tanto esculturas renascentistas (o Davi de Michelangelo, entre elas) como de épocas anteriores, menos conhecidas e mais explícitas na relação homoerótica de seus autores com suas criações.

Alair Gomes se encaixava no último caso, como o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini (1922-1975), com quem dividiu, aliás, o trágico destino: ambos foram assassinados em circunstâncias até hoje não esclarecidas. Alair foi morto em seu apartamento em Ipanema pelo segurança de uma loja de discos, em 1992. Era pouco conhecido como fotógrafo, mas já presente em grandes acervos, como os dos colecionadores Gilberto Chateaubriand e Joaquim Paiva, pioneiros quando nem se falava em fotografia como arte colecionável. Presente em poucas mas seletas instituições (Fundação Cartier, MAM/RJ), Alair Gomes acaba de ser incorporado ao acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) graças ao interesse da curadora do Departamento de Fotografia do museu, Sarah Meister, uma entusiasta de sua arte, que o descobriu na Bienal de São Paulo em 2012.

A arte de Alair é francamente hedonista – e assumidamente produto de um voyeur. Enquanto os autores da bossa nova cantavam a beleza da garota de Ipanema, ele fotografava os garotos da mesma praia, onde, aliás, morava, num apartamento de fundos no sexto andar da rua Prudente de Moraes. Lá instalou sua câmera com uma objetiva de 200 milímetros e duplicador focal, capaz de captar imagens a distância como uma teleobjetiva, como o fotógrafo do filme Janela Indiscreta. Foi assim que criou uma das séries da mostra, The Course of the Sun (1967-1974), seguindo o itinerário dos rapazes em direção à praia em dias de sol. Flagrados em plongée, os garotos e suas sombras expressionistas lembram os exercícios estilísticos do húngaro Kertész em versão uranista – e ginga carioca.

Gomes começou a fotografar em 1965, em plena ditadura militar. O curador Eder Chiodetto, para situar sua obra no contexto histórico, selecionou 32 fotos de uma série inédita que mostra jovens representantes da contracultura deitados no piso da praça da República, em São Paulo, no ano de 1969. O fotógrafo, engenheiro e professor de Biofísica estava, então, de passagem por São Paulo para ver a polêmica décima edição da Bienal de São Paulo, boicotada por vários países, que cancelaram sua participação em protesto contra a censura no Brasil. Para não perder a viagem, fotografou o que viu na cidade – e, claro, seu interesse convergiu para os garotos paulistas.

“Ele faz quase fotojornalismo com essas imagens, seguindo alguns desses personagens”, observa o curador. “É como se desejasse dizer que o que acontecia de mais interessante não estava na Bienal, mas fora dela”, conclui. A série foge ao escopo erótico das 293 ampliações de pequeno formato integrantes da mostra, feitas com o acervo doado à Biblioteca Nacional pela irmã do artista, a tradutora, professora e ensaísta Aíla de Oliveira Gomes. A ditadura certamente não teria permitido exibir suas fotos, que só foram mostradas pela primeira vez fora do Brasil em 1984, quando o regime militar agonizava. Foi o crítico Roberto Pontual que levou as séries Sonatinas (1966-1986) e Trípticos (1967-1969) para o Mês da Fotografia em Paris, divulgando a obra do fotógrafo, que deixou registrado em diários suas experiências homoafetivas com os modelos.

Fotos dessas duas séries que estiveram em Paris foram escolhidas pelo curador Chiodetto para a mostra da Caixa. Trípticos é mais ousada, a partir do próprio título. “Ele tem uma conotação religiosa, pois toma como modelo os trípticos do altar renascentista, que tinham uma figura central e duas laterais, secundárias”, observa o curador. São registros de nus masculinos feitos com garotos de Ipanema no apartamento/estúdio do fotógrafo. Já Sonatina é uma série mais branda, uma interpretação homoerótica dos gestos de rapazes – nem tão inocentes – se exercitando à beira-mar.

ALAIR GOMES: PERCURSOS

Caixa Cultural. Praça da Sé, 111, tel. 3321-4400. 2ª a sáb., 9h/19h (fecha dom.). Abre sáb. (25), 11h. Grátis. Até 4/10.


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