Ainda falta a ela o papel de ''''vilãzona''''

Letícia Sabatella fala de carreira, desafios e da estréia na direção de documentário

Entrevista com

Leila Reis, leilareis@terra.com.br, O Estadao de S.Paulo

14 de novembro de 2007 | 00h00

Na novela das seis, Desejo Proibido, Letícia Sabatella faz uma mulher oprimida pelo marido que se apaixona pelo jovem médico da cidade. Nesta entrevista, Letícia reconhece que tem tido a sorte de ganhar papéis densos nesses seus 17 anos de carreira na TV, mas que ainda lhe falta uma ''''vilãzona clássica'''' no currículo. Estreando no papel de produtora e diretora do documentário Houxá, sobre a tribo kraô, Letícia diz que depois dos 35 anos (ela tem 36) não quer mais repetir papéis e que seu grande projeto é se dedicar a ''''trabalhos que tenham a ver com a brasilidade''''.Em Desejo Proibido você interpreta uma mulher reprimida que se torna adúltera. Você já fez um papel assim na TV, não é?A outra Ana, da minissérie A Muralha, era meio parecida, porque tinha um casamento arranjado, que entrou para fugir da fogueira. Tenho tido a sorte de ganhar papéis densos. Se bem que Latifa (de ''''O Clone'''') era mais puxado para o humor. Sempre acho que tenho de aprender alguma coisa nova em cada trabalho, não dá para estar nessa profissão sem desafios. A Ana, de Desejo Proibido, é uma mulher inteira, que vive o dilema de escolher ser ela própria ou se enquadrar na fôrma machista que o marido impõe. Acho que ela é louca.A novela não começou com uma audiência muito boa. Você sente a repercussão dessa performance no estúdio?Não deu para sentir porque a novela ainda está muito no começo. Mas acho que os tipos cômicos, personagens do Luiz Carlos Tourinho, Pedro Paulo Rangel e Júlia Lemmertz, vão agradar muito. Ângelo Antônio (ator e ex-marido) acabou de me ligar para dizer que estão gostando muito da novela. Achei muito legal.Como você procura informações sobre o trabalho que está fazendo?Eu leio algumas coisas e pergunto para as pessoas o que elas acham.Como você recebe críticas?Depende de como elas vêm. Quando ela se restringe ao meu trabalho é normal, mas quando entra no âmbito pessoal, dói. Se bem que tive a sorte de não sofrer até hoje nenhuma crítica devastadora. Quando fiz O Clone houve uma crítica negativa à minha personagem, mas depois até a pessoa que escreveu mudou de opinião a respeito de Latifa. Foi duro quando Irmãos Coragem passou por muitas mudanças, porque se concluiu que ela tinha mais o perfil do horário das oito do que das seis.A segunda jornada de Hoje É Dia de Maria foi o seu melhor trabalho na TV?Gostei muito das minisséries Agosto, A Muralha, JK, Um Só Coração. Tenho uma identificação muito grande com Luiz Fernando Carvalho (diretor de ''''Hoje É Dia de Maria''''), ele é um mestre que busca uma outra linguagem, experimenta na TV. O primeiro trabalho que fiz na TV foi com ele: o especial Os Homens Querem Paz, em 1990. Nunca fiz nada tão bom na TV como Hoje É Dia de Maria, em que fiz vários personagens e tínhamos uma relação íntima com a produção.Onde Carvalho descobriu você? Em Minas Gerais?Eu nasci em Belo Horizonte, mas fui criada em Curitiba. Fazia faculdade de teatro e trabalhava com Marcelo Marchioro no repertório de Shakespeare quando Emílio de Biasi (diretor) me viu em um espetáculo, levou um vídeo de meu trabalho e o Luiz Fernando me chamou.Qual trabalho lhe deu mais popularidade? E o que deu maior prestígio?A personagem Taís, de O Dono do Mundo (91), me deu visibilidade. A partir dessa novela todo mundo começou a me procurar. As minisséries me deram prestígio, Irmãos Coragem, onde fiz duas personagens, também. Mas Hoje É Dia de Maria renovou minhas possibilidades, porque agregou mais para a minha imagem.E qual o que mais a frustrou?Todos os trabalhos acabam trazendo uma carga de frustração. Já em O Dono do Mundo eu percebia que não tinha a agilidade que a novela exige. Nem conseguia me ver na novela. Estou sempre sentindo frustração como atriz. Em Páginas da Vida (em que fez a freira Lavínia), meu trabalho não foi desafiador. Depois dos 35 anos (ela tem 36) quero fazer coisas novas.Por que nunca fez uma vilã?Não sei, mas acho que daqui um pouco vou dar um toque e ver se alguém me chama para fazer uma vilãzona clássica.Você tem sido muito requisitada pelo cinema?Fiz sete filmes, Não por Acaso, de Felipe Barcinski, estreou agora e ainda vai estrear Romance, de Guel Arraes. Estou sempre recebendo convites, mas muitas vezes não dá para conciliar a agenda.O que a levou a se tornar uma documentarista?Conheço os índios kraôs há 12 anos, quando eu e o Ângelo Antônio fomos à aldeia, no Tocantins, fazer uma pesquisa que gerou até um espetáculo teatral, Zé. Desenvolvi uma relação profunda com eles, fui até batizada e me tornei parte de uma das famílias. Há quatro anos, eles me pediram ajuda para resgatar as sementes ancestrais, foi quando resolvi fazer o documentário sobre o palhaço sagrado que existe na aldeia, que traz a alegria e o equilíbrio. Chamei Gringo Cardia para ser o diretor de arte, porque eu tinha o conteúdo pronto, mas não a experiência de direção. O documentário que se chama Hoxuá, está pronto. Toda renda que ele gerar vai reverter para os kraôs.Ele vai para o cinema?Não sei, primeiro estamos inscrevendo o filme nos festivais que se interessam pelo tema.Qual é o seu grande projeto profissional?É o trabalho que estou fazendo agora. Quero poder prestar um bom serviço às pessoas, aos indígenas. Fazer trabalhos que tenham a ver com a brasilidade, como Hoje É Dia de Maria, por exemplo.Qual a vantagem e o problema de trabalhar com ex-marido?A gente fez Um Só Coração e Páginas da Vida. É bom trabalhar com o Angelo porque ele é o melhor ator que conheço. Aprendi muito com ele.Você está casada?Não, só namorando com Miguel Lunardi (ator, que atuou no filme ''''Jenipapo'''', de Monique Gardenberg).Qual é a avaliação que você faz da TV hoje?Há uma variedade na TV paga muito grande. Na rede aberta há bons e maus programas. Acho que não deveria ter tanto programas de vendas, que as outras emissoras fizessem como a Globo e investissem mais na brasilidade. Se houvesse mais programas como Castelo Rá-Tim-Bum, Hoje É Dia de Maria e A Pedra do Reino (também de Luiz Fernando Carvalho), a nossa TV seria melhor.

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