Aida de Alagna, em DVD, sem vaias

Edição da Decca traz récita anterior àquela em que o tenor foi vaiado, abandonando o palco do Scala e gerando polêmica

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2008 | 00h00

Foi em dezembro de 2006. Após a saída do maestro Riccardo Muti da direção do Scala de Milão, havia se criado uma enorme expectativa em torno do futuro de uma das mais tradicionais casas de ópera da Europa. O também italiano Riccardo Chailly, que se afastou do teatro por divergências com Muti, foi chamado para abrir a nova temporada da casa; no programa, uma nova produção de Aida, de Verdi, marcando a volta ao Scala do diretor Franco Zeffirelli; entre os destaques no elenco, a soprano Violeta Urmana fazendo sua estréia no papel-título. Motivos para expectativa, enfim, não faltavam. Mas a celebridade da produção acabou se dando por outro motivo: na segunda récita, logo após, a sua ária, o tenor Roberto Alagna foi vaiado sonoramente pela platéia - respondeu com uma banana e abandonou o palco, tendo de ser substituído às pressas. O caso ganhou repercussão mundial e ofuscou a produção, que pode ser avaliada agora com o lançamento em DVD da montagem (Decca, importado).É inevitável começar por Alagna. A gravação foi feita durante a primeira récita, então, não contém a cena da vaia, que ocorreu na segunda apresentação (mas, não se preocupe, você encontra o vídeo no YouTube). Não há nada de tão condenável na sua interpretação do soldado egípcio Radamés. Nada, pelo menos, que já não fosse previsível. A voz, lírica, leve, clara, não se presta adequadamente ao papel; e, por conta disso, é levada ao extremo pelo cantor, perdendo em alguns momentos o colorido, o brilho. Nos momentos de maior lirismo, como o dueto final, no entanto, Alagna se sai melhor, mas fica aquém da enorme variedade de tenores que deixaram interpretações do papel.Vocalmente, os destaques são mesmo as mulheres. Violeta Urmana, que esteve em São Paulo há dois anos cantando o primeiro ato da Valquíria, de Wagner, com a Osesp, começou a carreira como meio-soprano. Há algum tempo, mudou de registro e passou a atuar como soprano. O timbre é de uma beleza rara, a extensão é ampla, mas já perde um pouco do brilho nos graves, com um vibrato que começa a se pronunciar. Nada que a impeça de fazer a mais equilibrada e consistente interpretação do DVD, com um tratamento cuidadoso do texto e das linhas melódicas. Nisso, é seguida de perto pela meio-soprano Ildiko Komlosi, uma Amneris de voz poderosa, eficiente tanto nos registros mais altos como nos mais graves. Saem-se bem também os baixos Marco Spotti e Giogio Giuseppini como o Faraó e Ramfis. Como Amonasro, o barítono Carlo Guelfi decepciona; ele é um bom cantor, mas a voz é clara e tira o peso de um dos mais impressionantes papéis escritos por Verdi para vozes graves masculinas - e olha que não foram poucos.A produção de Zeffirelli é tudo aquilo que nos acostumamos a esperar de uma produção de Zeffirelli - cenários e figurinos grandiosos, centenas de figurantes e bailarinos sobre um palco já repleto de reproduções naturalistas de pirâmides, rios, templos e tudo o mais que se pode imaginar. Décadas depois de suas primeiras montagens - e perante a preocupação teatral cada vez mais latente no mundo da ópera -, o estilo de Zeffirelli já começa a parecer datado, fora de moda, repetição do que ele mesmo já fez no passado. O problema, porém, nem é esse. O que pega mesmo é a completa incoerência entre o que é feito no palco e no fosso da orquestra. E aqui entra o grande destaque da montagem, o maestro Riccardo Chailly.Com trechos célebres, tentativas musicais de recriar a grandiosidade da civilização egípcia, a música escrita por Verdi em Aida pode esbarrar facilmente no kitsch. Mas não quando está nas mãos certas, como as de Chailly. Sua regência é quase camerística, transparente. Ele constrói cada momento da partitura com cuidado de ourives, atento aos detalhes, à beleza das linhas melódicas, aos contrastes entre passagens de tom épico e outras mais íntimas, dualidade sobre a qual Verdi construiu boa parte dos conflitos de seus libretos e óperas. A Aida de Chailly corre solta, livre, nada tem de óbvia, de gratuito, servindo de contraponto aos exageros de Zeffirelli. Depois dessa Aida, e, mais recentemente, do Tristão e Isolda, de Wagner, regido em dezembro por Daniel Barenboim, vai demorar para o público milanês começar a sentir falta de Muti.Enfim, como situar essa Aida no contexto das produções históricas disponíveis em DVD e CD? Se a gente consegue abstrair os grandes intérpretes do passado, a montagem pode proporcionar prazer e momentos de lirismo e beleza. Agora, se não conseguimos, fica a sensação de que, nas suas mais intrincadas contradições, a produção está em perfeita sintonia com nosso tempo. E aí resta apenas o desejo: que venham outros melhores.O DVDDO JEITO QUE ACONTECEU: A decisão do tenor Roberto Alagna de abandonar o palco, encerrando sua participação na segunda récita e nas demais previstas para a temporada 2006/2007 do Scala, gerou um problema para os produtores do DVD. As edições, normalmente, trazem os melhores trechos gravados ao longo de diversas apresentações. Aqui, porém, não restou opção a não ser lançar a primeira récita na íntegra, do jeito que ocorreu, sem edições possíveis.

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