TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Ai Weiwei faz sua primeira grande exposição no Brasil

Mostra será aberta neste sábado, 20, na Oca, com mais de 70 obras do artista chinês, entre elas 24 feitas no Brasil com a ajuda de artesãos

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

19 Outubro 2018 | 06h00

O artista dissidente chinês Ai Weiwei, de 61 anos, inaugura amanhã, dia 20, às 12 horas, sua primeira exposição no Brasil, Ai Weiwei Raiz, na Oca, no Ibirapuera. Pelos 8 mil metros quadrados do prédio estão espalhadas 70 obras de períodos diversos, 24 delas recentes e realizadas no Brasil com a ajuda de artesãos, como a série de 200 ex-votos talhados em Juazeiro do Norte, Ceará, que reproduzem peças do repertório de Weiwei, entre elas a mais popular, sua mão com o dedo médio rígido que esboça um gesto obsceno.

É uma exposição grande – e pesada. Pela primeira vez ele vai mostrar a obra Straight como foi originalmente concebida, uma instalação com 164 toneladas de vergalhões de diâmetro variado resgatados dos escombros das escolas de Sichuan, na China, destruídas pelo terremoto que abalou a cidade há dez anos. Contra a omissão das autoridades, que não divulgaram o número de vítimas, ele pesquisou e descobriu que 5 mil crianças foram mortas na tragédia. Na Bienal de Veneza de 2013, Straight foi parcialmente exibida ao lado de outra obra de Weiwei, S.A.C.R.E.D, série de dioramas com o registro da prisão do artista na China, em 2011.

Weiwei continua um ferrenho opositor do regime chinês. Ele autoproclama-se um defensor das liberdades individuais e dos direitos humanos. Uma das maiores obras da exposição é justamente um barco de refugiados à deriva, que flutuou sobre o lago do Ibirapuera antes de ser instalado no último andar da Oca. Ao lado dela o visitante poderá ver cenas tocantes e reais dos abrigos de refugiados na Europa gravadas em vídeo pelo artista.

Entre outros vídeos, Weiwei mostra como era o seu antigo ateliê em Xangai, que custou 1 milhão de euros e foi demolido por ordem das autoridades chinesas antes mesmo de ser ocupado. Ele não se nega a falar da perseguição que sofreu do governo chinês – em 2011, seu estúdio em Pequim foi invadido por 40 policiais, que confiscaram dezenas de obras.

Agora seria mais difícil esse confisco. Cada vez mais seus trabalhos assumem uma dimensão pantagruélica. A última stravanganza de Wei Wei foi decalcar milímetro por milímetro o tronco de um pequi com a altura de um prédio em Trancoso, Bahia, para moldar a árvore e fundi-la em ferro na China (o peso final será de 250 toneladas). Na Oca, o visitante poderá ver outros troncos de árvores que formam um conjunto escultórico semelhante aos do falecido escultor Frans Krajcberg (1921-2017).

Ele desconhece a obra de Krajcberg e outros brasileiros. Artista que não liga para pintura e muito menos considera-se autor de uma obra, Weiwei encara sua atividade como parte de uma experiência existencial na qual o culto religioso não é desprezado (ele instalou um Buda no interior do pequizeiro).

Ao mesmo tempo, Weiwei sentiu na Bahia uma intensidade corpórea inaudita que o fez ter sonhos eróticos pela primeira vez em anos, segundo revela o curador da mostra, Marcello Dantas. Submeteu-se, então, a oito horas de uma sessão de molde em gesso para registrar seu corpo nu e roliço que estará exposto na Oca, num colchão, ao lado da escultura de uma mulher de origem afro com dreadlocks. Detalhe: o naturalismo das figuras fica entre a sobriedade de George Segal (1924-2000) e o hiper-realismo do australiano Ron Mueck.

Essa atração por uma arte figurativa fácil de ser decodificada vem, segundo ele, da descoberta de veteranos da arte povera nos anos 1980, como o italiano Michelangelo Pistoletto, premiado na Bienal de São Paulo em 1967, com o qual vai conversar no domingo, 21, no Sesc Pinheiros. “Como Pistoletto, que vi pela primeira vez em 1988, no MoMA, acredito numa arte interativa, em que o espectador tenha um papel ativo, o que para mim é essencial”.

Weiwei preza sua individualidade antes de tudo e diz que faz uma obra militante em defesa da liberdade, “sem a qual a arte deixa de ter sentido”, segundo ele. “Mais que nunca, a questão das raízes é essencial, o que justifica o título da exposição, porque a verdadeira tragédia humana é a da solidão, sentir-se desgarrado num exílio permanente”, conclui. “Basicamente, a minha é uma exposição sobre como sobreviver num mundo de órfãos sem raízes”.

AI WEIWEI RAIZ

Oca. Pq. Ibirapuera. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, portões 1, 2 e 3, 5082-1777.

11h/20h (dom. e fer., 11h/19h; fecha 2ª), com visitas de hora em hora. R$ 20.

Vendas pelo site: eventim.com.br/exporaiz. Até 20/1. 

 

 

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