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Livro 'Aeroporto', de Cássio Vasconcellos, é um objeto de arte

Fotógrafo registrou até um cemitério de aeronaves no Arizona

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

26 de dezembro de 2015 | 04h00

Um livro que é também um múltiplo pela concepção de seu projeto gráfico, Aeroporto tem uma imagem única, fragmentada em 32 partes, cada página podendo ser destacada pelo leitor como uma foto autônoma. Não é o único toque de originalidade do sofisticado livro de Cássio Vasconcellos, fotógrafo paulistano que completou 50 anos em 2015, dos quais nada menos do que 34 dedicados à profissão.

Aeroporto, com coordenação editorial da fotógrafa Claudia Jaguaribe e projeto gráfico de Mariana Lara Resende, é parte integrante da série Coletivos, exibida na China (Today Art Museum, 2013), EUA (Princeton University Art Museum, 2013) e França (Maison Européenne de La Photographie, 2012). Trata-se de uma montagem lúdica, que brinca com as fronteiras entre o real e o imaginário, subvertendo a escala concreta ao fragmentar um gigantesco painel para construir um aeroporto liliputiano, repleto de aeronaves verdadeiras, fotografadas do alto em Guarulhos, Viracopos, Campo de Marte e até num insólito cemitério de aviões no deserto do Arizona.

Antes dos aviões, Vasconcellos, que é piloto – com brevê para dirigir helicópteros –, fez o mesmo com carros na série Coletivos, remontando um painel de 12 metros de extensão com 50 mil carros que parecem miniaturas. Essa ambiguidade, forçada pelo autor, tem um objetivo: deslocar a visão do espectador até confundir sua percepção. De longe, esse painel parece uma tapeçaria; de perto, nada leva a identificar a procedência da imagem. Em certo sentido, Vasconcellos faz na série o que a artista Jeanete Musatti fez em ‘collages’ quase arqueológicas: transmutar objetos cotidianos em peças de um arquivo onírico, pessoal, feito de miniaturas.

O pai de Cássio, Paulo Vasconcellos, morto no Natal de 2010, era um excepcional marchand e colecionador, o que explica o convívio do fotógrafo com o universo de artistas como Jeanete Musatti. “Cresci vendo seus trabalhos, e ela certamente me influenciou”, diz, apontando as semelhanças de procedimentos entre suas obras – Vasconcellos manipula imagens pelo computador e Jeanette arranja objetos numa plataforma física, mas ambos perseguem a poesia extraída de novas combinações, que provocam estranhamento.

Sutil, a série Coletivos, diz Vasconcellos, que trabalhou como fotojornalista nos anos 1980, traz embutida na aglomeração de carros, aviões e pessoas um alerta sobre a produção excessiva de bens de consumo no mundo globalizado, comprometendo o futuro do planeta. “Impressiona e dá o que pensar a imagem do cemitério de aviões no deserto do Arizona, em que centenas de aeronaves, 300 ou 400, são descartadas como sucata.”

Por vezes, até mesmo povos habituados a aglomerações demonstram estranhamento diante de fotografias dessa série. Vasconcellos foi convidado a proferir palestras na China e, ao projetar imagens de banhistas numa praia, que parecem formigas vistas do alto, ficou surpreso ao perceber que os asiáticos riam para valer. “Eles não têm o costume de ficar expostos ao sol, como os brasileiros, porque o bronzeamento é associado a pessoas de classe social mais baixa”, explica.

Após explorar na série outros padrões além do humano – como as frutas e legumes do Ceasa, o maior entreposto de alimentos da América Latina –, Vasconcellos partiu para outra série dedicada a investigar o modo como os chamados artistas viajantes retrataram o Brasil no século 19, como Debret, Rugendas e Taunay. A desconstrução da paisagem clássica por Vasconcellos segue, como na série Coletivos, a desmontagem ‘derridaniana’ para entender melhor os elementos da pinturas por meio da decomposição.

Não se trata, segundo Vasconcellos, de inverter o procedimento pictórico de um Gerhard Richter, que busca na pintura uma correspondência realista com a imagem fotográfica. Ele, ao contrário, não faz pintura com a câmera. Deixa o observador impressionado com as imagens de florestas reais que despertam dúvida se são ou não gravuras. Em síntese: é a reformulação do olhar, um olhar fenomenológico, que interessa ao premiado fotógrafo, presente em acervos internacionais (Museu de Houston, Biblioteca Nacional de Paris) e nacionais (Masp, MAM). 

AEROPORTO

Autor: Cássio Vasconcellos.

Editora: Madalena (74 págs., 32 fotos, R$ 240)

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