Adorável rabugento

Up, a décima animação da Pixar, que estreia hoje, sobre um velho que retoma o fio da própria vida, já nasce clássica

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

04 de setembro de 2009 | 00h00

Pete Docter parece um personagem de cartum. Alto, desengonçado, orelhas de abano, ele ri quando o repórter do Estado pergunta de que desenho fugiu. Docter e John Lasseter representam o topo da pirâmide criativa de Up, a animação da Pixar/Disney que inaugurou o Festival de Cannes, em maio. Com o acréscimo de Altas Aventuras no título, Up estreia hoje nos cinemas brasileiros. Docter dirige, Lasseter produz, mas como diz o primeiro - "John é a alma da Pixar, o farol que aponta o caminho." Está sendo um grande ano para a Pixar. Up, décimo filme produzido pelo estúdio, abriu o maior festival do mundo e, agora, quatro meses mais tarde, Lasseter está em Veneza, onde recebe por estes dias um Leão de Ouro especial.

Veja trailer do filme Up

Os homenageados do Lido costumam ser autores de obras consagradas (e extensas). A de Lasseter ainda é curta, mas ninguém discute que, assim como Walt Disney foi fundamental, há um ?antes e depois? da Pixar na história da animação. O próprio Lasseter, entrevistado pelo repórter do Estado em Cannes, falava da sua alegria pelo reconhecimento veneziano. "O convite para inaugurar o festival com Up nos pegou de surpresa, mas foi muito bem vindo. Agora, um prêmio em Veneza terá um sabor especial. Gosto de pensar, e talvez seja presunção minha, que a Pixar é um daqueles ateliês de artistas do Renascimento. Somos uma comunidade de autores. Eles gostam de pensar que sou o mestre, mas aprendo junto. Cada novo filme é uma aventura. Há sempre um responsável no leme, mas o processo é aberto para a colaboração do grupo."

Up começou a nascer há cinco anos. Pete Docter esclarece que não foi um processo muito fácil. "John (Lasseter) nos deu carta branca e Bob Peterson (roteirista e co-diretor) começou a desenvolver algumas ideias comigo. Uma das mais comuns entre animadores é justamente a de se perder no mundo, de fugir não se sabe para onde. Foi assim que chegamos à casa voadora." E como fazer a casa voar? Por meio de balões. Os personagens foram surgindo em função da história. O velho solitário e rabugento, o garoto que quer ser útil, o sonho de um paraíso distante. O curioso é que simultamente começaram a pipocar casos como o do padre que, no Brasil, desapareceu tentando voar amarrando-se a balões. Docter ouviu sobre essa e outras histórias. Filosofa. "A fantasia nos permite ir agora mais longe que o próprio Ícaro."

Lasseter gosta de dizer que, numa animação, a técnica não é o mais importante. Ela é consequência ou, mais exatamente, ferramenta (tool), como ele não se cansa de afirmar. Decisiva é a história, em torno da qual tudo deve girar. O próprio fato de Up ter sido produzido em 3-D não deve ser supervalorizado. "É uma tendência da indústria, até para inibir a pirataria, mas não pensamos a história em 3-D, naquele velho sentido de deixar o espectador de sobreaviso com os objetos lançados contra ele. O recurso nos interessou muito mais como uma janela para a amplidão e tessitura da imagem."

Se a história é o mais importante, cabe destacar que a de Up teve a colaboração, no roteiro, de um dos mais talentosos diretores indepententes dos EUA. Tom McCarthy não é ligado ao universo da animação, mas Docter explica como ele chegou ao projeto. "Bob (Peterson) definiu a história e o conceito, mas depois ele foi agregado à equipe de Ratatouille e eu senti que precisava de alguém para dar mais consistência dramática ao roteiro. Tom fez aqueles filmes maravilhosos, O Agente da Estação e O Visitante. Tom criou o garoto, Russell, mas, na essência, nossa história continua sendo a do velho, Cal, que lentamente retoma sua vida."

Serviço

UP - Altas Aventuras (UP, EUA/2009, 96 min.) - Animação. Direção de Pete Docter. Livre. Cotação: Ótimo

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