''''Adolescentes são, hoje, muito mais filosóficos''''

Scott Westerfeld acredita que o jovem cria seu próprio espaço

O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2011 | 00h00

O americano Scott Westerfeld é um dos mais aclamados escritores de literatura jovem da atualidade. Em Tão Ontem, ele criou o personagem Hunter, um caçador de tendências, ou seja, um adolescente de Nova York que é pago pelas grandes corporações para detectar o que vai virar moda. Um assunto que muito interessa ao ávido público jovem, como comenta ele na seguinte entrevista, realizada por e-mail.Como você faz para escrever para os jovens?Acho que não perdi minha voz jovem. Na verdade, acho que ela está em todos, especialmente na esperança e temor em relação ao futuro. Também na insegurança e na crença não tão firme em todas as loucuras que os adultos aceitam com tanta facilidade. Talvez seja por isso que muitos adultos lêem ficção para jovens, atualmente.É fácil lidar com essa insegurança, além da linguagem, cada vez mais dinâmica?Jovens são muito envolvidos com linguagem. Diversos grupos teen criam suas próprias gírias, usam seus próprios apelidos e têm um estilo peculiar de ironia. Assim, sempre tento capturar algumas dessas criações em meus personagens. O que mais me fascina é a busca dos jovens em encontrar seu espaço, além de desenvolver sua própria linguagem.Os assuntos que te interessavam aos 14 anos ainda são importantes para você?Talvez as coisas pequenas são diferentes, mas as maiores ainda são as mesmas. Os adultos gostam de acreditar que os jovens são superficiais, mas os adolescentes são, na verdade, mais filosóficos. Eles se preocupam com injustiças e com as condições do planeta. Afinal, são eles que terão de viver aqui, no futuro.O que inspirou Tão Ontem?Eu voltei a morar em Nova York depois de um ano na Austrália e, de repente, constatei que a cidade estava cercada de luminosos. Decidi, então, escrever sobre esse mundo: marketing, fashion e a criação da Próxima Grande Coisa. Comecei a ler sobre os caçadores de talentos, que são contratados para descobrir o que vai ser moda, e pensei num sujeito assim para herói da minha história, alguém que se apaixona por uma inovadora, ou seja, aquela pessoa que cria as tendências sem ter nenhuma ligação com a grande indústria.Por que Hunter, o personagem principal, entra em conflito com sua profissão?Por um lado, ele acha excitante que alguém queira sua opinião, especialmente megacorporações - isso faz com que ele se sinta poderoso e importante. Mas, ao mesmo tempo, Hunter se desfaz de seus sonhos e aspirações, ou seja, ele está vendendo uma parte de si mesmo.Você acredita que os jovens sabem quem cria o que é moda?Aqueles leitores que se questionam sobre isso são, provavelmente, os que se preocupam com algo além das tendências da semana. Lembre-se, sempre há caprichos e maneiras que estão abaixo do radar, que nunca ''''explodem'''' no mundo mais amplo. Os verdadeiros inovadores não se preocupam com o que lhes é empurrado pelas grandes corporações, pois eles já estão preocupados com que vem em seguida.É possível mensurar o efeito Harry Potter no mercado jovem?Como leitor, eu me delicio com o fato de que, ao menos uma semana a cada dois anos, as crianças têm um livro em suas mãos. Durante aquela semana, um livro é o maior produto cultural do momento: não se fala de nenhum filme e até mesmo os escândalos políticos perdem um pouco de sua força. Isso é um grande feito não apenas no mercado editorial, mas em todas as manifestações culturais.TRECHONo topo da pirâmide estão os inovadores. O primeiro garoto a prender a carteira com uma corrente. O primeiro a usar calças grandes demais de propósito. A mergulhar um jeans em ácido, enfiar um alfinete em algo ou vestir um moletom por baixo de uma jaqueta de couro. O lendário primeiro cara a usar um boné virado para trás.À primeira vista, a maioria dos Inovadores não parece tão legal, pelo menos em relação a ser uma referência de estilo. Sempre existe algo de estranho neles. como se não sentissem à vontade no mundo. Na verdade, a maior parte dos Inovadores é composta de Exilados Sem Marca, que tentam se virar com uma dúzia de peças de vestuário, imunes às mudanças da moda.No entanto, como no caso dos cadarços de Jen, há sempre uma coisa que se destaca num Inovador. Algo novo.No nível seguinte da pirâmide estão os Criadores de Moda.A meta de um Criador de Moda é ser a segunda pessoa no mundo a embarcar na última febre. Está atento a inovações: sempre pronto para entrar na onda. Mais importante do que isso, porém, é que os outros ficam de olho nele. Diferentemente de um Inovador, ele é bacana; portanto, quando adere a uma novidade, ela se torna bacana. A função mais importante de um Criador de Moda é de controle, ou seja, ser o filtro que separa os Inovadores de verdade dos malucos que se vestem com sacos de lixo. (Fiquei sabendo, contudo, que nos anos 1980 alguns Criadores de Moda se vestiram mesmo com sacos de lixo. Sem comentários).Abaixo deles estão os Primeiros Compradores.Eles sempre têm o celular mais moderno, o MP3 player mais novo ligado ao ouvido. São os caras que baixam o trailer um ano antes do lançamento do filme. (À medida que os Primeiros Compradores envelhecem, seus armários enchem-se de mídia pré-histórica: vídeos em Betamax, discos laser e fitas de oito canais). Eles testam e adaptam as tendências, tornando-as mais palatáveis. Há uma diferença vital em relação aos Criadores de Moda: os Primeiros Compradores viram seus produtos pela primeira vez em revistas, e não nas ruas.Descendo mais um nível na pirâmide, encontram-se os Consumidores. São as pessoas que precisam ver um produto na TV, exibido em filmes, em quinze anúncios de revista e num pôster gigante no shopping, antes de dizer: ''''Ei, isso é bem legal''''.

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