''Acho que venci pela inocência''

Sabine Lovatelli conta como, num país sem musica clássica, fez do Mozarteum um grande sucesso

Sonia Racy, O Estadao de S.Paulo

13 de abril de 2009 | 00h00

Nada como viver numa Europa rica e adiantada e ter por perto o que há de melhor em arte e música. Mas, vivendo a 10 mil quilômetros disso tudo, num País vazio das grandes alturas musicais, nada como ter ideia, coragem e competência para cruzar os mares, ir buscar esse mundo, trazê-lo "no braço" e recriar no deserto à sua volta a tão desejada paisagem. É coisa de prussiano. E foi o que fez, nas últimas três décadas, a alemã-brasileira Sabine Lovatelli, presidente, cabeça e coração do Mozarteum - que abre amanhã a sua 29ª temporada paulistana com noite de gala para os 250 anos de Haendel, na Sala São Paulo. A fala mansa, os belos olhos azuis e o sorriso simpático que termina cada frase de Sabine - na verdade, condessa Sabine, pois o marido, Carlo Lovatelli, herdou o título de conde de sua família italiana - combinam bem com sua persistência e até atrevimento para se meter no que não entende e conseguir o que precisa. Assim, devagarzinho, desde os anos 80, ela incluiu São Paulo no circuito musical erudito do Primeiro Mundo. Trouxe à cidade mais de 900 atrações, 600 delas do exterior. Produziu grandes noitadas para mais de 1,7 milhão de pessoas e tardes gratuitas nos parques, para 900 mil. Deu aos paulistanos o luxo de aplaudir filarmônicas como as de Berlim, Viena e Nova York, o Bolshoi e o New York Ballet. De ver de perto os feitos de Loren Maazel, Zubin Mehta, Claudio Abbado, para citar apenas algumas vacas sagradas. "Acho que venci pela inocência", diz ela da trabalheira dessa sua cruzada. Abaixo, trechos da entrevista que deu, em seu apartamento nos Jardins, à coluna.Como você lida, no Brasil, com música clássica, em tempos de crise econômica? Nessa área a gente faz tudo com muita antecedência. Hoje trabalhamos com decisões tomadas antes da crise. Fazemos 2009 com coisas acertadas em 2007, 2008. O que faremos em 2010 está montado. Já estou pensando em 2012 e 2013. Quanto a bilheteria dá para o seu orçamento? Uns 20%. O resto tem de sair de patrocinadores.Nos últimos tempos a iniciativa privada ficou mais generosa? Tem mais gente ajudando. A Lei Rouanet lhes permite tirar 4% do imposto de renda a pagar. E há mais empresas interessadas. Com o tempo, você já conhece melhor as empresas, as que querem ajudar. Geralmente é uma pessoa lá de dentro que gosta de música e faz da ajuda uma política da empresa.Já tinha trabalhado com música antes? Não, apenas gostava. Nasci em Iena - aquela cidade mais conhecida pela batalha vencida por Napoleão - e fui viver em Hannover. Passei um tempo em Paris e em Londres, e ao chegar ao Brasil senti falta de música clássica. Não tinha nada mesmo, só algumas atividades da Pro-Arte. Isso numa cidade de 8 ou 10 milhões de pessoas.De onde lhe apareceu a ideia de fazer isso no Brasil? É que, ao chegar aqui, a sra. não gostou de música sertaneja? Mas eu gosto! Gosto de tudo que é bem feito, quando a música tem qualidade pode-se admirar, sim. Bem, eu cheguei em 71, me casei com o Carlo e passei uns 10 anos conhecendo o Brasil. Depois, não querendo ficar parada, pensei em algo para me ocupar de algum modo inteligente. Foi isso. O governo quer mudar a Lei Rouanet, concentrando patrocínios em um fundo. O que a sra. tem a dizer sobre esta alteração? Não estou muito por dentro do assunto. Tenho um pessoal avaliando.Os contratos que a sra. faz incluem eventos no Rio ou Buenos Aires? Não. E o problema agora é que Buenos Aires não tem mais o Colón, que parou por uma reforma que não acaba nunca. A Sociedade de Cultura Artística, cuja atuação nada tem a ver com a nossa, trabalha com um Mozarteum que há na Argentina. Então há vários Mozarteums. Sim, o primeiro apareceu em Salzburg, na Áustria, e outros foram criados nos países de língua alemã. Havia um na Venezuela, que fechou quando o Hugo Chávez chegou ao poder.Quem mantém essas atividades? Grande parte é financiada pela Fundação Mozarteum. Creio que o governo da Áustria ajuda, além de muitas empresas. Por que os Mozarteums daqui e da Argentina não trabalham juntos? É uma longa história. Foi de lá que veio o nosso nome. Quando tive a ideia de criá-lo, em 1981, os argentinos procuravam um partner aqui, para viabilizar as turnês. Mas, com o tempo, acabei descobrindo que a gente estava "tomando conta" da Argentina. Decidi me desligar deles.Quem a ajudou? Um grande amigo, o Pepe Saavedra, me aconselhou a montar um board representativo - pois eu não conhecia ninguém. Passou-me uma lista de 39 empresários e eu fui atrás, um por um. Ninguém recusou. Eles me recebiam com uma atitude tipo "vamos ver até onde ela chega...". Comprei um ou dois eventos argentinos no começo, o primeiro era o Loren Maazel com a Cleveland Orchestra. Foi o primeiro programa? Espere, minha história não terminou. Eu não sabia que precisava antes fundar o Mozarteum como empresa. Imagine, eu tinha acertado tudo, anúncio em jornal, ingressos todos vendidos, filas e a empresa nem existia! Fui à Prefeitura, disse que ia trazer uma orquestra de Cleveland em três dias e eles avisaram: "Olha, isso é ilegal, eles nem podem entrar no País. Menos ainda com seis toneladas de instrumentos que valem milhões de dólares!"Como se resolveu? Fizeram todas as licenças em uma tarde. Ou seja, o Mozarteum começou com um milagre. Mais de um. Pois faltava a caução para os instrumentos, que valiam uns dois milhões de dólares. Mas no board estava o Mario Simonsen, que era ministro da Fazenda. Liguei pra ele: "Mario, temos um problema aqui." No telefone ele foi dizendo: pega a cópia rosa de um papel assim, preenche assim... E no mesmo dia arrumou uma autorização de importação. Enfim, foi milagre mesmo. Coisa de Forrest Gump... Acho que venci pela inocência. O público fazia fila de quarteirão para entrar, era um evento raro. Depois fui ajudada pelo Washington Olivetto e uma agência, a GGK. Me deram um ano de apoio, eu só fazia o que eles diziam para a gente fazer.Você falava bem o português? Não, e esse era outro problema. Quando tive de mandar as cartas aos empresários, um advogado me deu um dicionário, lápis e papel e eu fiquei num quarto ao lado, escrevendo. Ele arrumou o texto depois. O segundo evento já estava engatilhado? Antes de criar o Mozarteum eu organizei dois outros, que comprei do Mozarteum argentino. Com o Daniel Barenboim e a Orquestra de Paris e com o Mstislav Rostropovich e a National Simphony. Depois é que veio o Maazel, cuja estreia foi na Casa da Manchete.Qual seu balanço dessas três décadas? É que foi tudo muito positivo. Tivemos umas 600 atrações internacionais e mais de 300 brasileiras. A ideia inicial era de eventos esporádicos, música de câmara... Acabou ficando grande justamente por causa dessa demanda.O envolvimento da cidade foi o que você esperava? No início, entidades como a nossa atuavam sozinhas. Mas a cidade se interessou, fizeram a Sala São Paulo, criaram a Osesp, que é uma ótima orquestra. Há uma preparação do público nisso tudo. Como você compara o gosto do público brasileiro com o europeu? A grande maioria aqui prefere Chopin, Mozart, os românticos? Também na Europa todo mundo gosta do clássico e do romântico. Só que lá eles forçam um pouquinho, mas a música contemporânea também não tem um grande público.Você tem uma preocupação de popularizar a musica clássica? Eu quero fazer isso, e procuro fazer com as mais de 150 masterclasses que demos, as bolsas para alunos, os eventos grátis, o Clube do Ouvinte, o trabalho com o Instituto Baccarelli. E programas especiais. Este ano, por exemplo, traremos as irmãs Labéque, que vão tocar o Bolero do Ravel e vamos colocar junto um grupo de percussão tipicamente brasileiro para fazer o ritmo do Bolero. Na estreia, amanhã, além da Orquestra Elbipolis, de Hamburgo, teremos highlights da vida de Haendel, com Sergio Viotti vivendo o compositor e Daniel Warren o seu biógrafo. Os dois vão falar da vida dele, o que fez. Onde o Mozarteum vai levar a temporada 2009? Esse primeiro evento, nesta terça, será na Sala São Paulo. A maioria será lá, e temos dois pequenos espetáculos de câmara no Alfa-Real.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.