Acertos e erros de um ano ambíguo

Apenas alguns momentos memoráveis destacam-se no período marcado por decepções e profundas crises financeiras

Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

29 de dezembro de 2007 | 00h00

Quando, no fim de 2006, as perspectivas para a vida musical do ano seguinte se anunciavam muito promissoras, a instabilidade crônica de uma cultura atrelada às flutuações políticas fez de 2007 um ano muito problemático. A mudança de governo alterou, em Belém, o curso de um festival que, aos poucos, ia solidificando seus resultados; e a tábula rasa nos fez encarar o problema endêmico de estar sempre voltando para o ponto de partida. Em Manaus, onde 2006 assinalara a comemoração de dez anos de festival, cortes bruscos de verba forçaram o cancelamento de grande parte da programação. Mas lá, ainda assim, assistimos à primeira audição brasileira da Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, de Dmitri Shostakóvitch, um belo trabalho do maestro Luiz Malheiro, muito valorizado pela interpretação de Eliane Coelho no papel-título - em que pesem aspectos muito discutíveis da encenação de Caetano Vilela.No Rio, assistimos ao agravamento da crise do Teatro Municipal e o ano se encerrou com interrogações quanto ao rumo que ela terá - intensificadas pela discussão em torno do nome de Roberto Minczuk como o escolhido para assumir a sua direção artística: com o acúmulo de funções que tem em Calgary, na OSB e no Festival de Campos do Jordão, será ele a pessoa indicada para o cargo, neste momento? A reportagem deste jornal não conseguiu falar, a esse respeito, com Carla Camurati, a nova diretora do TM. No Rio, em todo caso, registrou-se o megaevento da série de concertos intitulada La Folle Journée; e nosso colega João Luiz Sampaio, que lá esteve, chamou a atenção para as apresentações dos pianistas russos Boris Berezóvski e Andrei Korobeinikóv.Boas notícias vieram de Brasília. Nas mãos de seu novo diretor artístico, Ira Levin, a Sinfônica Nacional do Teatro Cláudio Santoro está passando por um processo de soerguimento, em termos de qualidade de execução e renovação de repertório, de que foi testemunha a sua apresentação no Festival de Inverno de Campos. Concertos como o que nos trouxeram a Sinfonia Fausto, de Liszt, ou o segundo ato do Parsifal, de Wagner, demonstraram que a OSNTCS deixou rapidamente para trás anos de estagnação e mesmice de repertório.Em São Paulo, o vaivém da não realizada reforma no Teatro Municipal tornou muito desigual a temporada do ano - e, ainda assim, houve realizações importantes. A Filha do Regimento, com uma original encenação de André Heller, e uma hilariante interpretação de Denise de Freitas; e a Italiana na Argélia, com uma boa atuação de Luisa Francesconi, merecem destaque. Ópera se fez, também, contra ventos e marés, no Teatro São Pedro. Foram muito boas as referências à montagem do Casamento Secreto (a que, infelizmente, não pude assistir); e, a despeito dos acertos e erros da encenação, é preciso que se lembre o Macbeth criado por Rodrigo Esteves, na ópera de Verdi.Mesmo agitada pelas turbulências de um ano em que voltou à tona a polêmica sobre a eventual sucessão de seu diretor artístico, a temporada da Osesp ainda foi a responsável pelos resultados de conjunto mais conseqüentes: o concerto dedicado a obras de John Corigliano (do qual ouvi maravilhas); a versão de concerto da Elektra, de Richard Strauss, com ótimas intérpretes de Clitemnestra e Crisótemis; a Missa em Si Menor, de Bach, regida por Claus-Peter Flor; o Sonho de Gerôncio, de Elgar; o Roméo et Juliette, de Berlioz; a versão de câmara do Canto da Terra, de Mahler/Schönberg; os concertos regidos por Skrowaczewski, Günther Herbig, Frank Shipway.Dentre as atrações internacionais, a apresentação de Thomas Hampson e Philippe Jordan parece ter sido uma unanimidade entre os freqüentadores de concertos. Mas houve momentos memoráveis com Yo-Yo Ma; o Elgar de Antônio Menezes e Antoni Witt; o Quarteto nº 8 de Shostakóvitch com o Quarteto Hagen; o recital do baixo holandês Robert Holl, sobretudo fazendo repertório russo. Momentos que compensaram pela profunda decepção que foi a Aida em forma de concerto, regida por Lorin Maazel (aliás, em São Paulo, a ópera egípcia de Verdi andou sotto maligna stella, pois dizem que foi um horror a encenação "monumental" do Credicard Hall).Cumpre ainda registrar, no setor editorial, a entrada no mercado da Algol Editora, dirigida por Heraldo Luiz Marins. Foram muito significativos os lançamentos da enciclopédica A Arte do Piano, de Sylvio Lago; de A Invenção da Ópera, fascinante passeio pela origem do gênero, que tem em Sérgio Casoy o seu cicerone; e de Shnittke: Música para Todos os Tempos, de Marco Aurélio Bueno, o segundo livro dedicado, no mundo, à analise da vida e obra desse compositor russo, o mais importante da fase pós-Shostakóvitch.Com todos os seus acertos e erros, portanto, o ano de 2007 encerra-se com um balanço ambíguo, deixando muitas incógnitas quanto ao que será este ano que se inicia.

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