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Londres expõe obra de Georgiana Houghton que recebia manifestação de espíritos de artistas

Na primeira sessão espírita de que participou, Houghton sentiu-se impressionada e afirmou ter recebido manifestações, tendo inclusive se comunicado com a sua irmã

Dirce Waltrick do Amarante, ESPECIAL PARA O ESTADO

27 de junho de 2016 | 05h00

LONDRES - Uma das exposições mais instigantes do momento em Londres é a da médium Georgiana Houghton (1814-1884) na Courtauld Gallery, 145 anos depois de sua primeira e única exposição na capital inglesa.

Vale uma breve introdução à vida dessa artista que parece ter-se adiantado, com suas pinturas abstratas que flertam com o pontilhismo, em relação a pintores das gerações futuras – seu interesse pelo espiritismo surgiu após a morte de sua irmã mais nova e depois de ter sido apresentada ao vizinho de um primo que dizia poder se comunicar com os espíritos. Já na primeira sessão espírita de que participou, Houghton sentiu-se impressionada e afirmou ter recebido manifestações, tendo inclusive se comunicado com a sua irmã. Houghton começou a frequentar com assiduidade as sessões espíritas e logo passou também a transcrever mensagens dos mortos.

Após a morte da irmã, Houghton havia abandonado a pintura clássica, na qual havia se formado, mas, em 1861, depois de ter ouvido sobre os “desenhos automáticos” executados por espiritualistas londrinos sob a manifestações de espírito, sentiu-se instigada por esse novo tipo de pintura e não demorou muito para receber manifestações de espíritos de artistas e reproduzir suas obras em aquarelas.

Tendo produzido centenas de aquarelas, Houghton se preparou para exibi-las no ano de 1871 numa galeria na Old Bond Street, em Londres. A exposição causou comoção nos espectadores e boas críticas, apesar de a artista ter sido considerada por muitos como uma grande charlatã, pois, entre outras características, diziam que era uma mulher que assinava suas obras com nomes de homens. Essa exposição, paga totalmente por Houghton, levou-a à bancarrota.

A crítica atual afirma ter sido a exposição mais surpreendente de Londres à época, contudo, sua obra foi esquecida e parece ter ressuscitado na capital inglesa somente agora. A maioria de suas aquarelas está na Victorian Spiritualists’ Union, em Melbourne, Austrália, uma importante e antiga instituição espírita.

Na exposição na Courtauld Gallery, onde estão expostas obras-primas de artistas como Goya, Cézanne e Jasper Johns, o visitante tem acesso a uma pequena parte de sua coleção, mas, ainda assim, impactante e surpreendente. Na entrada da sala que acolhe suas aquarelas e o catálogo da primeira exposição, os visitantes devem pegar uma lupa – uma exigência da própria artista que a oferecia aos seus espectadores – para observar detalhes muitas vezes minúsculos de suas aquarelas: são centenas de pontinhos, rabiscos e cores variadas.

Atrás de cada aquarela, Houghton escreveu as informações sobre o espírito que havia se manifestado nela, seu nome, e o que cada detalhe do quadro significava para ele. Nessa exposição, pode-se ver o verso de algumas aquarelas, mas, ao lado de todas elas, há um breve resumo dos textos de Houghton.

Na terra do gótico, nada como uma exposição de “fantasmas”; mas, independentemente desse aspecto curioso, as obras de Houghton são de uma qualidade visual excepcional, como a crítica tem destacado e enfatizado. O crítico do jornal The Guardian, por exemplo, conferiu à exposição a nota máxima; e não é para menos: afinal, Houghton é considerada atualmente a precursora da pintura abstrata.

Diria ainda que os artistas que se manifestaram nela, embora tenham sido anteriores ao ano de 1871, parecem ter sido visionários e de alguma forma captado influências futuras de Kandinsky, Mondrian e Rothko. A exposição segue até o dia 11 de setembro de 2016.

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