Abrindo o caminho

Como é que a gente puxa conversa com um desconhecido? Com aquele outro que atrai e causa nervosismo, medo ou aversão? Os triviais e inseguros "como vai?", "bom dia" ou "que calor...", um tanto confrangedores são aberturas frequentemente infalíveis, ao lado de comentários vagos sobre o tempo e o último jogo de futebol. É a partir dessas trivialidades que fazemos do estrangeiro um amigo, às vezes, íntimo, quando não o descobrimos - ora vejam só! - como um parente distante.Nos Estados Unidos, os bares são espaços de abertura para as mais variadas sociabilidades. Como os velhos portos, cujas pedras tem testemunhado a morte e as mais agradecidas ressurreições daqueles que, um dia, partiram e retornaram mais velhos, mais experientes e mais amorosos. A oferta de um drinque para quem está ao lado é legítima em qualquer bar, mas é acentuadamente positiva e irrecusável nos balcões americanos, onde o paralelismo dos bancos que nos obrigam a olhar para nós mesmos nos espelhos das prateleiras entupidas de garrafas coloridas pode ser rompido quando alguém diz: "Posso lhe pagar uma bebida?" E, logo depois, você retribui, o que conduz a uma cadeia de reciprocidade instantânea com a consequente perda do seu voo, como ocorreu comigo uma vez em Los Angeles.O problema é como começar. Como abrir o caminho. O que dizer de positivo neste início de ano, quando todo mundo está empanturrado de fatos, de festas, e de um período de transição que, como todo limiar, nos coloca um tanto tontos "entre" espaços e sentimentos. De um lado, o ritual de passagem é realizado para assegurar um feliz ano-novo; por outro, porém, tudo o que vemos - mais uma guerra! - é brutalmente negativo. Mesmo quando jornais e governantes ainda estão de ressaca.Um bom comentário para qualquer começo é asseverar a sua negação. Descobrimos, no Brasil, anos que jamais terminaram o que é equivalente a dizer que os velhos problemas continuam, mesmo depois que alcançamos a maior idade. Quando fiz 18 anos, no meio da comemoração, na qual, aliás, tomei um estúpido porre, uma burrice jamais repetida, descobri, logo depois, que era o mesmo rapazinho inseguro. Pode uma entidade viva engavetar, em compartimentos estanques, etapas de sua vida? A Idade Média terminou definitivamente com a descoberta da América, ou ela continua em algumas instituições e na boca de religiosos, filósofos e políticos? De onde vêm a concepção dos "pobres de Deus? que, tão bem prezamos, no Brasil? De onde vêm a ideia, pouquíssimo discutida, de que o País tem mesmo um responsável maior e exclusivo na figura de um presidente da República? Um sujeito que, supomos, pode mesmo afundar ou salvar a Pátria? De que etapa histórica vêm a ideia de que não temos preconceito racial? Ou que as mulheres são mesmo inferiores e as crianças não têm vontade? Que os americanos tem todos parte com o Demônio? Ou que todo alemão é nazista e todo argentino é um "gringo": um sujeito metido a sebo? Diz Thomas Mann que demarcar o tempo é como passar uma faca na água. Ademais, como é que conseguiríamos dar conta desse "o ano que não terminou" se não tivéssemos vivido a passagem para o outro ano? Afinal, só há consciência de mudança a partir de um ponto situado relativamente fora do fluxo de transformação.Se você não acredita nisso, pergunte a si mesmo, com Shakespeare: "Quando eu me pergunto quem sou; eu sou aquele que pergunta, ou aquele que não sabe a resposta?" Quando transitamos de 2008 para 2009, o que mudou? Os impostos, certamente; o quadro político-institucional, sem dúvida, pois há coisas que não fazíamos (e pagávamos) em 2008 e que vamos ter de fazer (e pagar) em 2009. Mas é preciso não confundir mudanças legais, no papel, com transformações no comportamento que, pelo visto, quando chegam, vêm a passo de tartaruga. Aprendi que existem grandes transformações. Os movimentos "revolucionários" (de direita e esquerda) são definidos por mudanças, nas quais tudo é colocado de ponta-cabeça, mas - note bem - no plano do chamado desenho do Estado que, até hoje, é - para muitos - o centro exclusivo de progresso, justiça e bem-estar social. O problema maior é quando mudamos tudo, mas continuamos na mesma. A proclamação da República não mudou o nosso comportamento aristocrático, hierárquico e fundado na desigualdade. Abolimos a escravatura, mas não o sistema cultural por ela engendrado, conforme percebeu Joaquim Nabuco.O presidente Lula produziu uma frase lapidar nesta entrada de 2009. Ao se deparar com a beleza de Fernando de Noronha, ele declarou com aquele seu radical e lúcido realismo: "Isto aqui é mais que o paraíso. Você não precisa morrer para vir ao paraíso, você vem vivo." Do mesmo modo e pela mesma lógica, não se precisa matar ou destruir uma sociedade ou uma etapa do tempo para mudá-la ou ultrapassá-lo. Basta estar vivo. Mas consciente de que o desejo de mudar está com você e dentro de você. De nada adianta mudar as leis ou virar a folhinha se não os preparamos para assumir a mudança que, afinal, não cai do céu. Amém.

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