Aboio resgata o canto dos vaqueiros

O poético documentário de Marília Rocha venceu o É Tudo Verdade

Crítica Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2014 | 00h00

Dois anos depois de ter sido exibido no Festival do Rio - e também de ser premiado no Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade -, estréia Aboio, da mineira Marília Rocha. Numa entrevista por telefone, de Belo Horizonte, Marília observa que é um longo tempo. Dá um pouco a idéia das dificuldades que o gênero enfrenta no mercado, mas ela não se queixa. Aboio ganhou prêmios no País e no exterior, teve ótimas críticas. E o documentáreio não tem feito feio num mercado que anda refratário às ficções brasileiras. Para o seu tamanho, e para o seu lançamento, Santiago, de João Moreira Salles, pode ser considerado um sucesso maior do que produções asmbiciosas como Antônia e Cidade dos Homens, sem que se pretenda com isso desqualificar os trabalhos de Tata Amaral e Paulo Morelli.   Veja trailer do documentário Aboio Aboio nasceu de uma pesquisa de Marília Rocha. Lendo João Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas) e a Missão de Pesquisas Folclóricas, de Mário de Andrade, ela encontrou repetidas referências ao aboio, ou seja, ao canto que os vaqueiros utilizam para chamar o gado. Atraída pela idéia, Marília percorreu o norte de Minas, entrou pela Bahia e chegou a Pernambuco, sempre em busca de aboiadores. Descobriu que o campo está mecanizado, a prática do aboio não sobrevive como trabalho, mas restam esses velhos aboiadores que, ao tomar uma pinga, não resistem a soltar a voz. O documentário que Marília imaginava foi mudando de forma, e de tom. Virou uma viagem a um mundo meio mágico de lembranças.Em Pernambuco, o vaqueiro Antônio Fernando dos Santos evoca esse outro vaqueiro com quem trabalhou nas duras lides do campo e era, na verdade, uma mulher. É como se ele estivesse falando de Diadorim, personagem mítica do grande sertão de Guimarães Rosa. São oito vaqueiros, no total, cantando seus aboios, e o filme inclui entrevistas feitas com músicos como Naná Vasconcelos, Elomar e Lira Paes, do grupo pernambucano Cordel do Fogo Encantado, que trabalha num registro de world music, mesclando folclore (e cordel) com sofisticadas pesquisas de ritmo.Guimarães Rosa fazia o equivalente disso na literatura. Marília faz agora no cinema. Aboio terminou sendo o cartão de apresentação de uma empresa produtora de Minas, a Teia, que abriga um grupo de amigos que trabalham nos registros do documentário e da ficção, unidos pelo desejo de fazer cinema independente e autoral. Há críticos que vinculam não só a Teia, mas o documentário mineiro - a ''''escola de Minas'''', como é chamada - à videoarte, mais que ao cinema. A linguagem de Aboio é poética, o filme faz experimentação de imagem e som, mas, como diz Marília, o próprio tema possibilitava esse exercício. Ela temia pela exibição de Aboio no projeto Cinema no Rio, para populações ribeirinhas do São Francisco. Descobriu que as pessoas de lá tinham outra visão. O que o público urbano recebia como videoarte, para elas era a própria vida.ServiçoAboio (Brasil/2005, 73 min.) - Documentário. Dir. Marília Rocha. Livre. Cotação: Bom

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