A voz do carrasco

Um brinde marcou a comemoração da vitória da editora Objetiva - depois de um acirrado leilão com outras quatro grandes brasileiras, a casa editorial de Roberto Feith conseguiu os direitos de publicação de As Benevolentes, romance do norte-americano Jonathan Littell que ainda naquela época, fim do ano passado, sacudia a crítica da França, onde fora originalmente editado. Motivo: o pesado volume (são mais de 900 páginas), que chega agora às livrarias sob o selo da Alfaguara, é narrado por um ex-oficial nazista que relata, sem remorsos, sua participação nas atrocidades cometidas na 2ª Guerra Mundial. Com isso, alimentou uma furiosa discussão sobre a literatura produzida do ponto de vista do algoz.A escrita do início do século 21 parece tratar dos carrascos de anos passados, antes unicamente criminosos, com um olhar mais benevolente. Afinal, na Espanha, romances trazem franquistas como personagem central, enquanto Hitler inspira uma vasta literatura e cinematografia que destacam seus aspectos frágeis. E biografias já valorizam a ''''humanidade'''' de Stalin.O tema é contraditório e também divide opiniões entre os intelectuais consultados pelo Estado. ''''Décadas atrás, André Gide disse que não se faz boa literatura com bons sentimentos'''', comenta Silviano Santiago. ''''Nas artes, a utopia do bem tem de trazer em si os seus sabotadores e a justiça, os seus transgressores.'''' Ele lembra que, ao biografar Jean Genet, Jean-Paul Sartre qualificou-o de ''''santo e mártir''''.Isabel Lustosa concorda que arte e literatura são soberanas; portanto, explorar o ponto de vista do algoz, do ditador e do terrorista é um recurso estético como outro qualquer. ''''A realidade e a história estão em muitos outros elementos que ultrapassam as modestas dimensões de um livro'''', afirma. ''''Os crimes de Hitler, Stalin e Franco estão suficientemente documentados e deixaram tantas marcas até hoje visíveis que mesmo que se escrevam obras identificando elementos de humanidade em suas personalidades, tais traços não reduzem a dimensão desumana de seus atos contra a Humanidade. Talvez mais os acentuem.''''Para Cristóvão Tezza, há dois aspectos a observar, a do narrador e a da personagem. Para ele, o romance é a linguagem que permite colocar o mundo sob o ponto de vista de um personagem, considerando todas as variáveis morais de seus atos, vistos ''''de dentro'''', por assim dizer. ''''Nesse sentido, não há nenhum problema em transformar ''''monstros morais'''' em personagens romanescos, porque todo personagem de romance (desde que bom) é uma voz ''''não autoritária'''', um ''''outro'''' com que defrontamos, podendo ou não concordar com ele. Lemos Lolita, de Nabokov, sem por isso endossarmos a validade moral do personagem central, que casa com a mãe para ficar com a filha; pelo contrário, somos obrigados a ''''responder'''' à sua voz, a contestá-la, a pesá-la, a considerá-la, a negá-la.''''O outro aspecto é mais sutil: o narrador, a linguagem ''''organizadora'''' do livro que, de certa forma respeitando a autonomia do personagem, mantém um ''''eixo de valor'''' que serve de referência ao leitor. ''''É esse ''''eixo de valor'''' narrativo que faz com que o Humbert Humbert, de Lolita, resulte em personagem substancialmente negativo para o leitor, embora seja o próprio Humbert que fale o tempo todo. Assim, o que determina a qualidade do livro é esse ''''eixo de valor narrativo'''', mais do que a qualidade moral do personagem, tomado em si mesmo.''''Para Marçal Aquino, não existem temas ou abordagens impróprios à literatura. ''''O que vai importar, como sempre acontece, são os resultados artísticos alcançados, mais do que quaisquer polêmicas que certas escolhas possam provocar'''', sustenta. ''''Até porque enxergar tudo a partir da polarização Bem-Mal pode ser de um maniqueísmo atroz, e tudo pode ser tolerado em arte, até a inocência, mas não o maniqueísmo.''''Ele gosta de se lembrar de um poema de Leonard Cohen, que fala da autópsia de Adolph Eichmann, e, diante das características normais de olhos, cabelos, altura, peso, termina por perguntar: ''''O que você esperava? Garras? Dentes descomunais? Saliva verde? Loucura?''''Pelo mesmo caminho segue Alberto Mussa, para quem a resistência a obras como As Benevolentes significa ter uma visão utilitária da literatura, pressupondo que ela deva ter uma função educativa. ''''É um equívoco - ainda que se baseie nela, a literatura não tem nada a ver com a vida.''''Milton Hatoum, por outro lado, não acredita em ''''humanidade'''' quando se trata de Hitler, Stalin, Pinochet e tantos outros comandantes de regimes totalitários. ''''O fato de terem brincado com os netinhos livra-os da monstruosidade que cometeram?'''', provoca. ''''O tema do Mal, tão explorado em Dostoievski, é inesgotável.'''' Daí sua preferência por livros como Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, em que Maria Mutema mata o marido despejando chumbo derretido em seu ouvido.Na verdade, personagens sinistros sempre foram atraentes para a literatura, como lembra o angolano José Eduardo Agualusa: pela sua complexidade, pela necessidade que temos de compreender como a maldade funciona. ''''Talvez até por um certo fascínio pelo abismo'''', propõe. ''''Pode qualquer pessoa resvalar para a maldade? A maldade é uma doença contagiosa? Na minha opinião, a perversão das ditaduras tem a ver com o fato de elas potenciarem o pior que existe em nós - o medo degrada. Tornamo-nos maus por covardia.'''' Ele confessa que gostaria de escrever sobre os últimos dias de Jonas Savimbi, o guerrilheiro louco, líder da Unita, que construiu nas matas de Angola um monstro terrível e acabou - como era de se esperar - devorado por ele.''''A desgraça é que personagens como Hitler e Stalin, mesmo tendo perpetrado todos aqueles horrores, foram, sim, seres humanos, pessoas de carne e osso'''', comenta André de Leones. ''''Logo, tentativas de aproximação de personagens desse tipo são bem-vindas na medida em que podem nos dizer muito sobre a famigerada natureza humana, mesmo em suas facetas mais terríveis.''''Assim como os demais, De Leones também guarda cenas marcantes envolvendo personagens malditos. É o caso do apavorante final de Vá e Veja, filme de Elem Klimov, em que o garoto russo, brutalizado pela guerra, envelhecido, encontra uma foto de Hitler e, cheio de ódio, começa a disparar contra ela com o seu fuzil. ''''A cada disparo, entretanto, Hitler ''''aparece'''' mais jovem, até que o garoto se depara com uma foto do ditador nazista ainda bebê, no colo da mãe. Nesse momento, ele pára de atirar.''''

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.