A vontade de se perder no labirinto

Dora Ribeiro dá novas respostas para temas antigos em A Teoria do Jardim

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2009 | 00h00

Dora Ribeiro leva ao extremo a essência do seu ofício literário - é uma poeta em trânsito. Para ela, que mora desde 2008 na China, depois de passar mais de 20 anos em Portugal, a viagem tal como a poesia é uma experiência virtual e artificial, sempre em mutação, pois não se convence com o encontro de um lugar para o ansiado repouso. O alcance do sentido é algo provisório. "As experiências em diferentes países são poderosíssimas, porque nos levam a procurar explicações para acalmar os nossos sentidos alterados pelas mudanças", diz a poeta de 48 anos. "Isso gera respostas novas para vistas antigas."A Teoria do Jardim (96 págs., R$ 32,50), seu sexto livro de poemas, lançado pela Companhia das Letras - é a estreia em uma grande editora -, apresenta essa nova percepção: todas as coisas existentes são vistas como a trama de um movimento incansável. "pensando bem/ a vida é uma ideia mutante// disfarça-se/ em destino/ e beija a/ explicação (....)", registra o trecho de um poema sem título. À semelhança dos chineses, ela não procura solução para os erros e as incoerências. Pratica a aceitação serena das contradições, exercício que se reflete em A Teoria do Jardim. A poeta abriu mão do pensamento ocidental, obcecado pela classificação: "o traçado do teu jardim/ ignora parágrafos/ para avançar nas/ delicadezas do imprevisto/e da inexatidão// à procura do engenho do desejo/ invoco a ingenuidade do belo://deslizante caça dialética." Outra lição poética: em vez de pensar uma coisa hoje e outra amanhã, a autora pensa as coisas diferentes ao mesmo tempo. Sem o desespero que imobiliza, antes com um espanto criativo."Aqui em Pequim me descubro frequentemente oriental, porque há nesta cultura um enorme à-vontade em relação à fabricação da arte", diz Dora, que se mudou para a China há 10 meses, após casar com um diplomata. "Sempre apreciei o artificialismo das construções humanas, sobretudo das línguas", afirma. "Vivemos dentro delas, muitas vezes presos, outras vezes livres - nesse jogo é que mora a poesia."Nascida em Mato Grosso do Sul, Dora Ribeiro escreve poemas desde o início da adolescência. Nessa época, ela "roubava palavras de romances", juntamente com "promessas de emoções", para idealizar os primeiros versos. Ela descreve o instante "em que o encantamento das palavras começou a aumentar" como um fenômeno que afetou o seu corpo intensamente. Um pouco depois de envolver-se com a poesia, a escritora foi estudar nos Estados Unidos, de onde voltou para cursar Letras na PUC-Rio. Os deslocamentos físicos proporcionaram experiências que "continuam a mudar de cor, à medida que olha para elas". O contato com povos diferentes fortaleceu o seu "vício de pensar preferido - o de buscar e valorizar semelhanças entre culturas". Esse é o nervo da poética de A Teoria do Jardim, por meio da qual Dora expressa o desejo de mistura, de confusão, de alquimia. O jardim se transforma em metáfora para exibir o que é comum a indivíduos de vivências diversas: as imperfeições de sua condição e a exposição ao envelhecimento. "Olhamos para a natureza e pensamos que existe uma oposição entre o seu estado e o nosso", diz. "Mas, me parece, o que vemos é uma longa tradução dos nossos encontros e desencontros - a natureza é como um desenho exposto ao tempo e às limitações." Nos seus poemas, o corpo se metamorfoseia em jardim, fonte de inspiração a ser observada e cultivada. Um dos temas recorrentes em A Teoria do Jardim é a relação entre corpo, sexo e amor, "essa santíssima trindade profana". "É um trio que merece veneração", pois nele a autora se sente completa: "quando vamos/ ao desejo/ avançamos/ inteiros/ e sólidos."Dora Ribeiro está alegre por exercitar a difícil aceitação de que a existência lhe escapa ao domínio. Ela até deseja sinceramente que seja assim mesmo: "quero que a vida me cegue/ quero que a vida me mate// nada de escandaloso// apenas o desejo de viagens certeiras sem destino marcado (...)." Quando parecia ter desistido, Dora acabou se fortalecendo em cima da esteira móvel da sua obra, exploradora de uma "língua sem contenção/ musa de labirintos".

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