A volta de Jesse James, num western fúnebre

Brad Pitt e Casey Affleck brilham no deslumbrante faroeste em que o diretor neozelandês Andrew Dominik reavalia o mito do pistoleiro romântico

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2007 | 00h00

Em 1939, um ano mítico de Hollywood, quando foram produzidos clássicos como No Tempo das Diligências, ...E o Vento Levou e O Mágico de Oz, Henry King realizou sua célebre biografia de Jesse James, esculpindo a persona do bandido que, como Robin Hood, roubava dos ricos para dar aos pobres e mantinha a aura de um Sul aristocrático, cujos ideais defendia, a despeito da derrota na Guerra Civil. Jesse James termina com o assassinato do herói pelo covarde Robert Ford. No ano seguinte, Fritz Lang deu seqüência à saga com O Retorno de Frank James e, desde então, o cinema contou a história muitas vezes. Jesse James Contra os Daltons, A Verdadeira História de Jesse James, Jesse James e a Filha de Frankenstein - Hollywood nunca conheceu limites na exploração do mito. Mas nem o grande Nicholas Ray, ao contar a verdadeira história, foi tão denso e profético como o neozelandês Andrew Dominik em O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, que estréia hoje. Veja o trailer de O Assassinato de Jesse James...Tietes e cinéfilos vão cerrar fileiras em torno de Brad Pitt, numa interpretação tão marcante que o júri do recente Festival de Veneza, presidido por Zhang Yimou, não hesitou em lhe atribuir o prêmio de melhor ator do evento - bastante merecido, por sinal, embora o irmão de Ben Affleck, Casey, na pele do assassino covarde, esteja igualmente irrepreensível. A história começa com a solidão do herói diante do próprio mito. Jesse vive nesta pequena cidade o que parece uma existência medíocre. O mito é maior que ele, e Jesse o cultiva. Temeroso de ser morto pelos antigos integrantes do seu bando, ele se antecipa na caçada e tenta eliminá-los. Não é, nem de longe, um herói irretocável - mata, a sangue frio, o sujeito que demora para abrir um cofre, durante um assalto; tortura brutalmente uma criança que, pode-se ver, não possui a informação que ele procura.Como o título indica, Jesse será morto pelo covarde Robert Ford e a lenda celebrou o frio assassinato, cometido pelas costas. Só que a relação entre ambos é muito mais complicada do que a banal oposição entre o bem e o mal, ou entre o juiz e seu algoz. Jesse é perseguido, e morto, por ser mito. Robert Ford, ao eliminá-lo, busca virar, ele próprio, outro mito que se encarrega de também divulgar, representando, mais de 800 vezes, no teatro, a cena da morte. O que Robert não entende - e é o que faz a riqueza do filme - é como, ao eliminar o bandido, ele desperta o ódio da massa anônima que queria ver Jesse James punido.Toda a genialidade do filme de Andrew Dominik está na ligação visceral entre Jesse e Ford, entre a celebridade e o fã que termina precisando destruir o objeto de sua adoração para afirmar a própria identidade (e isso vai ocorrer com ele mesmo, como tantas vezes na crônica do ''''Wild West''''). Jesse James morreu em 1882, aos 34 anos, numa época em que a civilização começava a dar as cartas no Oeste selvagem e toda uma concepção de mundo passava a mudar. É este ato final que Dominik escolheu filmar, por ver nele uma forma, não de desmistificar o homem maior que a vida, mas de trazer para o presente do século 21 uma discussão que é hoje essencial - a da imagem, numa sociedade que a glorifica.Por conta dessa reflexão, ele deu ao filme o seu formato particular. Desde os anos 60, o western começou a mudar, graças à visão crepuscular de diretores como Sam Peckinpah, em obras de referência como Meu Ódio Será Sua Herança (The Wild Bunch) e Pat Garrett e Billy the Kid, embora um veterano como John Ford já tivesse iniciado aquela década enterrando a tradição com O Homem Que Matou o Facínora. O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford é lento até quase o limite da exasperação e ainda tem a narrativa em off - recurso quase sempre explicativo, mas que aqui fornece uma espécie de comentário, como o do coro grego, exterior (mas intrínseco) à tragédia. No centro dessa ode fúnebre, estão os atores - Brad Pitt e Casey Affleck. É um raro e grande filme.Serviço O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (160 min) - Ação.14 anos. Cotação: Ótimo

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