A volta ao inventor da democracia

Autora de biografia de Péricles, Claude Mossé discorda da associação entre governo ateniense e o imperialismo atual

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

31 de maio de 2008 | 00h00

O século de Péricles (ca. 495-429 a.C), que governou Atenas por mais de 30 anos, viu nascer não só a democracia como a História e o classicismo arquitetônico. O mais representativo da civilização grega antiga, o século 5º viu também nascer o teatro trágico e o teatro cômico. Da construção da Acrópole às tragédias de Ésquilo, Atenas testemunhou uma experiência singular na história da humanidade, cujo protagonista foi objeto de inúmeros estudos acadêmicos, o mais recente Péricles, O Inventor da Democracia (Estação Liberdade, tradução de Luciano Vieira Machado, 264 págs., R$ 47), de Claude Mossé, professora emérita da Universidade de Paris VIII.Claude Mossé, também autora da biografia Alexandre, o Grande (publicada há quatro anos pela estação Liberdade) não se contenta com os relatos de Plutarco e Tucídides sobre Péricles. Mergulha no teatro grego em busca de mais informações sobre a sociedade ateniense de seu tempo, dedicando um capítulo inteiro sobre a economia e a organização de Atenas, incluindo ainda a contribuição dos filósofos pré-socráticos e sofistas. De sua casa, em Paris, a professora concedeu, por telefone, uma entrevista ao Estado, em que falou sobre o "inventor da democracia", esclarecendo que não concorda em nada com a associação que fazem entre a estratégia governamental de Péricles e o imperialismo contemporâneo, disfarçado de cruzada democrática.A propósito do imperialismo ateniense, a senhora defende em seu livro que esse termo, usado pelos modernos para definir a autoridade exercida por Atenas, remete a conceitos alheios alheios à língua grega. A visão de Péricles sobre os estrangeiros corresponde hoje à visão que o Ocidente tem dos povos orientais?Não, de modo nenhum. O termo imperialismo não existe em grego. Péricles, claro, tinha consciência da importância ateniense, capaz de reunir as riquezas dos gregos e bárbaros, e das vantagens que Atenas possuía como centro do intercâmbio comercial. A autoridade de Péricles era, antes de tudo, militar, e é da natureza militar o respeito à hierarquia. Assim, uma aliança pressupõe a delegação de autoridade por parte dos subordinados, o que levou, então, os atenienses a assumir a hegemonia concedida pelos aliados. É uma forma diferente de dominação, que em nada se compara ao imperialismo moderno, porque a presença dos atenienses no território dos aliados não significava automaticamente ingerência política. Como esses aliados contribuíam para a defesa militar, os marinheiros atenienses eram pagos com o dinheiro dos aliados, que podiam ou não concordar com a contribuição. De qualquer modo, a dominação ateniense não obrigava seus aliados a adotar instituições democráticas, embora houvesse controle político sobre eles.Quando Péricles morreu, Atenas ainda era poderosa, mas ameaçada por forças externas. A senhora considera que Péricles foi inábil ao conservar alianças que tornassem mais forte a democracia ateniense ou foi o fator econômico que pesou no enfraquecimento do ideal democrático?A hegemonia marítima que assegurou a prosperidade de Atenas não foi o único fator a pesar na evolução da experiência democrática. Apesar dela, Esparta foi outro modelo sedutor com sua perfeita ordem militar e, é claro, Péricles não ignorava que a dominação ateniense era imprescindível para garantir as bases da democracia e uma proteção contra os bárbaros, capazes de ameaçá-la. No entanto, é difícil imaginar o que se passava na cabeça de Péricles ao garantir renda aos pobres ou construir todas aquelas obras monumentais, porque confiamos apenas no relato de historiadores e peças teatrais que trazem referências nem sempre elogiosas a ele. Um demagogo? A encarnação da democracia? Difícil dizer. Já concordei anteriormente com a tese de que o apogeu do século de Péricles foi seguido do declínio, mas é difícil afirmar categoricamente que o século seguinte marcou, de fato, um período de decadência dos valores cívicos.A senhora insinua que as fontes históricas são escassas para entender o século de Péricles. Qual fonte seria a mais confiável, A Vida de Péricles, de Plutarco, a narrativa histórica de Tucídides ou as peças de Aristófanes?Todas essas fontes devem ser consideradas, mas Tucídides é incomparável. Aristófanes, uma testemunha do período seguinte à morte de Péricles, tinha, no entanto, o distanciamento crítico necessário para analisar a sociedade ateniense por meio do teatro cômico, que não se submetia a uma imagem idealizada dos governantes. Por outro lado, tanto o teatro cômico como o trágico não dão conta de colocar em cena todos os conflitos da sociedade ateniense, em transição dos valores aristocráticos para os democráticos. E como ignorar Plutarco, por meio de quem o Renascimento descobriu a antiguidade clássica?Seu livro fala da mulher no século de Péricles, de como uma cidade democrática passou a conviver com ela sem discriminá-la. Há fontes confiáveis sobre o papel da mulher na sociedade ateniense?Há poucas. Não era propriamente uma sociedade ideal, mas Péricles garantiu a mesma definição de cidadania para homens e mulheres, excetuando-se as estrangeiras - e não se deve esquecer que Aspásia, mulher de Péricles, era milésia e fundou uma sociedade de cortesãs. Em todo caso, o poder estava nas mãos dos homens. Às mulheres ficavam reservados grandes papéis nas tragédias ou pequenos na cena cômica, em que apareciam sempre como subalternas. As mais bonitas e aristocráticas, como sempre, tinham mais sorte, porque as distinções presentes na sociedade dos homens eram as mesmas entre as mulheres, divididas entre livres e escravas, cidadãs e não-cidadãs. Não por acaso, Tucídides simplesmente ignora o papel de Aspásia na vida de Péricles.Péricles não era do tipo supersticioso, a confiar nas fontes históricas mais respeitadas. No entanto, pouco sabemos sobre sua crença religiosa. Ele acreditava nos deuses ou só por amor à democracia?O desenvolvimento de um pensamento racionalista no século de Péricles não significa ruptura entre sistema de governo e religião. Ambos estavam intimamente ligados na sociedade ateniense. É Plutarco que, ao se referir às lições recebidas por Péricles de Anaxágoras, diz que ele estava acima das superstições, o que, de certa maneira, é compreensível, pois ambos pertenciam a essa pequena elite familiarizada com as discussões filosóficas sobre a existência ou não de deuses. Mas, a acreditar em Tucídides, ele governou com moderação e tolerância.Sócrates, no entanto, a acreditar nos diálogos de Górgias, atribui à falsa grandeza de Atenas a origem de todos os males da cidade, que teria portos, muralhas e arsenais, mas não sabedoria e justiça. Bem, temos de acreditar nos pronunciamentos que Platão atribui ao mestre, mas, evidentemente, é a palavra de outro, não de Sócrates. Evidentemente, o filósofo era hostil à ignorância e não devia ver com bons olhos gente do povo decidindo os destinos políticos da cidade, onde pessoas cultas tinham certas reservas sobre Péricles, a despeito da democracia e do florescimento literário e artístico.Não deixa de ser uma ironia o fato de a História ter nascido na Atenas de Péricles para que se conte uma história controvertida sobre ele?Devo lembrar que Heródoto não era ateniense, mas, de fato, ele e Tucídides sentiram-se obrigados a relatar os grandes conflitos do século de Péricles. Ao contrário de Heródoto, o último não se limitou a preservar a memória das guerras. Sabia que esses relatos ajudariam as gerações futuras. Pelo menos é o que eu também espero.

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