A vida vertiginosa de Tim Maia

Tive uma idéia luminosa na quarta-feira. Voltava para casa, do trabalho, de táxi, no começo da noite, o trânsito parado na Vila Madalena, quando resolvi pedir ao motorista que encostasse ali mesmo, que eu iria a pé. Expliquei-lhe como fazer para fugir da muvuca, paguei, dei uma gorjeta pelo tempo perdido, e saí andando pela Mourato Coelho.Em vez de ficar parado no trânsito, iria até a livraria da Vila comprar a nova biografia de Tim Maia, lançada havia pouco, lera em algum lugar, pelo Nelson Motta. Poderia passar a noite toda com ela. Era essa a idéia.Sinto-me bem mais à vontade na livraria do que no trânsito, ainda mais na da Vila, aquela antiga da Fradique Coutinho, onde trabalha a Cida e costumo cruzar com algum amigo. Naquele começo de noite não deu outra. A livraria estava movimentada, repleta de mulheres bonitas, coisa de véspera de feriado. Elas viajam bastante e levam livros, concluí, treinando minha sociologia. Enquanto esperava na fila, entrou no recinto o escritor Marcelino Freire falando ao celular com o que resta do seu sotaque de pernambucano, uma combinação de tecnologia e musicalidade que me diverte por algum motivo. Nordestino educado e doce que é, Marcelino veio me cumprimentar, na fila, durante e depois de completar a ligação. Já que o primeiro cumprimento, de celular, ''''não valeu''''.A biografia do Nelson Motta, com quem viajei de Atlanta até a terrível derrota da seleção brasileira diante da Nigéria, em algum lugar perdido no interior do Estado da Geórgia, na Olimpíada de 1996, é tudo que eu esperava e mais um pouco.Sempre gostei do texto do Nelson e, como muita gente, sou fascinado por biografias de artistas do naipe de Tim Maia, que parecem - ou tentam, ao menos - levar a vida nos seus próprios termos.Terminei o livro há pouco. É um daqueles que acabam testando a paciência da esposa um pouco. Sabe quando você não consegue parar de contar casos e ler trechos em voz alta?Cada história melhor que a outra. A mais fantástica de todas é a da ida de Tim Maia aos Estados Unidos, em 1959, aos 16 anos, com 12 dólares no bolso, sem falar inglês e sem ter aonde ficar. Ele achava que tinha, se convencera disso. Ouvira falar, no bairro da Tijuca, no Rio, onde morava, de uma tal senhora Cardoso, brasileira, que teria casado com um americano e se mudado para a cidadezinha de Tarrytown, no Estado de Nova York. Tim levava um endereço e uma carta, em inglês, pedindo abrigo. E só.Mas ninguém avisara a Senhora Cardoso, que se chamava, a essa altura do campeonato, O''''Meara, e falava português com sotaque, após 30 anos nos Estados Unidos. Só posso imaginar o que passou pela sua cabeça ao abrir a porta para um garoto brasileiro que viera ficar em sua casa, equipado com uma carta, apenas.A cultura brasileira lhe deve muito. Todo mundo, aliás, que já se deliciou com um disco de Tim Maia. Ou, vai ver, foi providência divina. Nelson Motta conta assim a história: ''''Ao mostrar seu passaporte aos O''''Meara, Tim se assustou quando eles começaram a rir, a bater palmas e gritar ''''Oh, no! I can''''t believe it! Holy Shit!'''' Todos riam muito e a mãe (Senhora O''''Meara) explicou que a data de nascimento de Tim era exatamente a mesma, dia, mês e ano, da de Douglas, o filho único do casal O''''Meara, que falava algumas palavras em português. Tim suspirou aliviado e feliz, foi recebido como um irmão, quase um gêmeo.''''Tim Maia ficaria cinco anos nos Estados Unidos, onde aprendeu inglês e conheceu a música americana, rhythm & blues e soul, sobretudo, e de onde foi deportado para o Brasil, em 1964, depois de ter sido preso por roubo de automóvel e posse de maconha.Em sua música, elaborada nas décadas seguinte, mesclaria como nenhum outro intérprete a musicalidade americana com a brasileira. (Mais até, do que a Carmen Miranda, a bossa nova, ou mesmo a Rita Lee). Sempre achei que poderia ter feito sucesso nos Estados Unidos. Pena, para os americanos, que ele não tenha tido essa oportunidade.ERRATANão foram poucos os leitores que me escreveram para apontar dois erros na minha crônica da semana passada. Como bem observaram, o personagem Spock do programa de televisão Jornada nas Estrelas nunca foi chamado de doutor, e sim, sempre, de senhor. E ele não é da raça guerreira Klingon, como escrevi, mas Vulcan. Peço desculpas pela imprecisão.

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