A vida social em linguagem circense

Circo Mínimo celebra 20 anos com mostra de repertório e nova montagem baseada em conceitos do geógrafo Milton Santos

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

16 de abril de 2009 | 00h00

Soa como missão impossível a ideia do diretor Rodrigo Matheus de traduzir em linguagem circense os conceitos do geógrafo Milton Santos sobre território, globalização e fluxos, sua busca no espetáculo Nuconcreto. A montagem estreia hoje no Sesc Pompeia abrindo a mostra Circo Mínimo, As Narrativas de Imagens, que traz de volta outras seis peças do repertório dessa companhia que celebra 20 anos de existência.A dúvida sobre a sintonia entre base teórica e resultado cênico ameniza-se quando se pensa em Deadly, uma das criações desse grupo, premiada no Fringe do Festival de Edimburgo, que dava conta de narrar por meio de imagens físicas aspectos de um relacionamento amoroso. Movimentos de trapézio sugeriam ora uma transa, ora um atrito, por exemplo, entre a carência e desejo de solidão.Bem mais complexo é o ponto de partida de Nuconcreto, inspirado no livro Por Uma Outra Globalização, do Pensamento Único à Consciência Universal (Record), de Santos. "Claro que não podemos explicar os conceitos, eles servem de estímulo, mas estão presentes. Em linhas gerais, o conceito de horizontalidade diz respeito às relações que ocorrem num território e à sua Cultura sedimentada pelas trocas ao longo do tempo. O de verticalidade analisa a transformação causada por uma interferência externa poderosa, como a informatização."Matheus buscou criar imagens para tentar expressar esses conceitos agindo sobre nossa vida em sociedade. E a julgar pelos ensaios abertos, o espectador reconheceu nas barras de ferro da cena o espaço urbano em que vive e nas imagens criadas pelos atores o cotidiano da cidade, com seu trânsito, sua pressão por produtividade, seus modelos de felicidade ligados ao consumo. Numa das cenas, um ator surge contando dinheiro numa atmosfera de felicidade. Logo outros tentam imitá-lo, sem ter as condições para obter êxito. Tentam mais do que ter, ?ser? dinheiro, e para isso desdobram-se e, literalmente, ?entram pelo cano?. "Milton Santos trata a globalização primeiro como fábula, o que dizem que ela é, depois como perversidade. O espetáculo tenta o tempo todo fazer o fluxo ou o trânsito entre uma e outra visão."Fiel ao que prega, a capacidade de fazer boas parcerias é um dos pontos fortes das criações do ator e diretor Rodrigo Matheus - ele atuou na montagem original de Deadly, agora substituído por Ricardo Rodrigues. Nuconcreto tem codireção de Alexandre Roit, que também divide a autoria do roteiro com Matheus. No elenco estão Célia Borges, Felipe Chagas, Marcella Vessichio, Mariana Duarte, Ricardo Neves e Ricardo Rodrigues. A ficha técnica do espetáculo conta ainda com profissionais reconhecidos, como o iluminador Wagner Freire, a diretora de arte Luciana Bueno e o músico André Abujamra.E mais. A direção original de Deadly é de ninguém menos do que o coreógrafo Sandro Borelli. Marcelo Lazzaratto é o consultor dramatúrgico de Nuconcreto. Quixote tem texto de direção do ex-parlapatão Alexandre Roit que transformou o cavaleiro andante num morador de rua e Sancho, num gari. Ambos, Roit e Matheus, estão no elenco dessa remontagem, a única a ser apresentada grátis, na rua interna do Sesc Pompeia. Dificuldade de comunicação e desejo de ascensão são temas de Babel. Cristiane Paoli Quito dirige Prometeu, inspirada na tragédia de Ésquilo. Mário Bortolotto é o autor do texto de Gravidade Zero, escrito especialmente para Matheus, e Velma é um número de apenas sete minutos, criado pela atriz Mariana Duarte e dirigido por Érica Stoppel.PARA VER OU REVERNUCONCRETOHoje, 21h30De quinta a sábado, 21h30Domingos, 18h30Até 17 de maioQUIXOTE Dias 18 e 25, 19hDias 9 e 16 de maio, 19hAté 16 de maioDEADLYDias 23 e 24, 21h30PROMETEUDia 30, 21h30Dia 1.º, 18h30GRAVIDADE ZERODias 7 e 8, 21h30BABELDias 14 e 15 de maio, 21h30VELMA Dias 25, 15hDias 2, 9 e 16 de maio, 15hDEBATE - NARRATIVAS DE IMAGENS NUCONCRETOCom os diretores Cibele Forjaz, Marcelo Lazzaratto, Alexandre Roit e o professor Fábio Contel, especialista na obra de Milton SantosDia 12 de maio, 20hSesc Pompeia.Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700Galpão: 100 lugaresIngressos R$ 16,00De 16 de abril a 17 de maioRecomendação: 16 anosInformações: www.sescsp.org.br

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