A vida dilacerada do poeta pós-punk

Em dois filmes, o mitológico Ian Curtis é retratado como o emblema de um hábitat árido e cruel chamado Manchester

Crítica Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

22 de maio de 2008 | 00h00

É claro que Control e Joy Division deveriam ser lançados juntos. Afinal, ambos têm por personagem o mitológico Ian Curtis, vocalista e compositor de uma das bandas cult dos anos 70. Control é uma recriação ficcional da vida breve do roqueiro; Joy Division é um documentário, baseado principalmente em depoimentos dos integrantes da banda sobre a formação do conjunto, a música que queriam fazer, a cidade onde viviam e, sobretudo, Ian e sua personalidade atormentada e enigmática. Complementam-se. No entanto, Control estréia hoje e Joy Division - o documentário que leva o nome da banda - fica para 6 de junho. Quem vir o primeiro ficará com vontade de assistir ao outro.Em Control, o estreante holandês Anton Corbijn, fotógrafo de origem, faz sua estréia no cinema. Escolhe uma magnífica fotografia em preto-e-branco para recriar o clima de Manchester City, onde nasce a banda. Há também uma razão prática. Nos anos 70, quando chegou à Inglaterra, Corbijn fizera várias tomadas em P&B do grupo. Esse fato contribui para a escolha monocromática do projeto. Mas não se trata apenas disso. Quem a acompanhar verá que a vida de Ian Curtis parece mesmo pedir o preto-e-branco, com todas as nuances de cinza entre os dois extremos.É uma vida de artista maldito, que lembra a de um Rimbaud do rock. Ian (interpretado por Sam Riley) tem cara de anjo, mente complexa e personalidade dividida. Para completar o quadro, sofre de epilepsia. Tentando controlar a doença, o médico lhe recomenda distância de agitação, sexo demais, drogas e álcool. Não é coisa que se peça a um roqueiro, na casa dos 20 anos. Há mais: Ian é casado, mas acaba se envolvendo com uma insinuante jornalista belga, e esta passa a acompanhar o grupo em suas turnês. Surpreendentemente, levando-se em conta o estilo de vida que se atribui a um artista pós-punk, Ian mostra-se incapaz de administrar um até que convencional triângulo amoroso.Esse é o aspecto pessoal. Como artista, Ian sai bem mais do que valorizado dos dois filmes. Mesmo quem pouco o conhece, ou não aprecia sua música, passa a entender parte do seu processo de criação, que envolvia uma visão um tanto desesperada do mundo e a recriação poética dessa sensação, que não raro dialogava com a grande arte. Por exemplo, em certo momento, ele diz ter assistido a Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, e ficado impressionado com Marlon Brando recitando o seu horror, tirado de T.S. Eliot. Essa, a impressão do poeta pós-punk - a de um mundo em decomposição, uma terra devastada, na qual a palavra horror era a única ainda a fazer sentido.Por isso também seria interessante ver o documentário em conjunto com Control. Nele, Manchester é vista não como um lugar onde tudo acontece, mas como um personagem a mais - acaso o protagonista do filme. Na maneira como é apresentada a cidade industrial, árida, cruel, seca, cinza, um pouco como São Paulo, onde os sobreviventes têm de se enfurnar em garagens, espaços pequenos e esfumaçados, clubes sórdidos depois tornados românticos pelo tempo - tudo em busca de uma respiração e sobrevivência em hábitat claramente não adequado para seres humanos normais. Ian acaba se tornando a figura emblemática desse ambiente.Esse clima de estranheza percorre os dois únicos LPs do grupo, Unknown Pleasures (Prazeres Desconhecidos) e Closer (Mais Perto). Seus sons e letras estranhas, uma espécie de lamento por uma civilização moribunda, fizeram com que a banda fosse cercada até hoje por uma relação de culto e mitologia. Ian, meio caoticamente, ou de forma intuitiva, tocava em coisas que ele próprio talvez não compreendesse. E muito do que fez talvez não passasse de um humano pedido de socorro, como hoje seus colegas de banda parecem admitir.

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