A viagem de Lorca em busca de sua identidade perdida

No roteiro de Viaje a La Luna revelam-se obsessões sexuais do poeta, que responde com um filme à zombaria de Buñuel

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

06 de fevereiro de 2009 | 00h00

Havia mais coisas entre o pintor Salvador Dalí e o poeta Federico García Lorca do que sonhava a vã filosofia dos mexeriqueiros. Não propriamente um caso amoroso, como esses insistem, mas uma ligação surrealista que levou os dois, no mesmo ano, a trocar o pincel e a caneta pelo cinema. Em 1929, Dalí (1904-1989) lançou com Luís Buñuel (1900-1983)o filme experimental surrealista O Cão Andaluz (Un Chien Andalou). García Lorca (1898-1936), amigo íntimo e colega de escola dos dois, sentindo-se excluído do triângulo, viajou para Nova York após passar por Paris quando o filme estreou, no dia 6 de junho daquele ano. Não há documento que comprove ter Lorca visto o filme dos amigos, mas sabe-se que ficou consternado com o título. "El perro andaluz soy yo" (O cão andaluz sou eu"), teria dito o poeta, enlouquecido com a menção aos tempos em que os três viveram juntos na Residência dos Estudantes de Madri (entre 1919 e 1925). Em tempo: ?perro andaluz? era uma ofensa gravíssima aos estudantes meridionais que moravam na capital espanhola. Lorca não tardou em dar a resposta. Já instalado em Nova York , escreveu o roteiro de um filme, também surrealista, La Viaje a la Luna, com o pintor mexicano Emilio Amero (1901-1976). É essa obra rara que a editora Perspectiva lança no dia16, na Livraria da Vila da Casa do Saber.Viaje a la Luna: Uma Biografia em Projeção (216 págs., R$ 36), do professor Reto Melchior, é mais que uma simples interpretação desse roteiro que ficou perdido por anos após a morte de Lorca, até ser filmado em 1998 pelo pintor cineasta catalão Federic Amat e exibido há alguns anos pelo Itaú Cultural. Melchior, que ensina cinema na Suíça, viu o média-metragem lá e sua primeira impressão foi a de que havia entrado na sala errada, ao topar com a primeira imagem do filme, a de uma cama da qual saem números, enquanto um menino chora e aparece na tela um letreiro com as palavras "Socorro, socorro, socorro". Aos poucos, porém, as figuras mais conhecidas do repertório poético de Lorca vão surgindo, ocupando os 19 minutos do filme com mulheres enlutadas, um arlequim, um violão com as cordas cortadas e um jovem efebo desfilando sua nudez até desaparecer numa rua noturna.Não tem muito a ver com uma viagem à lua, mas tampouco Un Chien Andalou tem a ver com cães andaluzes. Em síntese: parece apenas uma obra surrealista em que imagens oníricas surgem autônomas como num sonho. Ou num pesadelo. 1929 foi um ano pesado para Lorca - e isso tem pouco a ver com o crack da Bolsa de Nova York e mais pelo fato de Dalí ter conhecido sua futura mulher Gala e Buñuel ter tornado pública a homossexualidade do poeta, além de arrasar, numa carta ao escritor José Bello, o livro mais popular de Lorca, o Romancero Gitano (de 1928) - uma obra, segundo ele, para agradar aos "poetas bichas" de Andaluzia.Buñuel foi cruel, mas deu um jeito de corrigir a injustiça ao escrever a autobiografia Meu Último Suspiro, em que define Lorca de forma um tanto suspeita para um homófobo: "Federico tinha uma atração, um magnetismo ao qual ninguém podia resistir..." Lorca não viveu para testemunhar a retratação. Morreu em 1936, aos 38 anos, no começo da Guerra Civil Espanhola, pelos fascistas que levaram Franco ao poder. De qualquer modo, seu roteiro Viaje a La Luna responde às provocações de Un Chien Andalou apropriando-se do imaginário de Dalí e Buñuel. Se Lorca não viu o filme, devia estar bem informado. Uma da cenas de Viaje a la Luna mostra uma procissão de formigas sobre um lençol, enquanto no filme da dupla Dalí/Buñuel, os mesmos insetos saem sem parar de uma onanista mão furada. Também sobre um lençol, um casal deita ao lado de um morto, no qual pintam um bigode igualzinho ao de Dalí. Freud explica. Ou deveria explicar.Por que Lorca pensava no filme de Buñuel e Dalí em Nova York? O autor do livro, Reto Melchior, arrisca um palpite. Até 1929, o poeta andaluz nunca tinha saído da Espanha e, embora não se sentisse particularmente atraído pela cultura norte-americana, era a sua maneira de empreender uma "viagem à Lua" enquanto seus amigos tentavam conquistar Paris. Lorca, ao menos, seria aplaudido como o "poeta em Nova York", distanciando-se da própria produção artística espanhola em busca de sua identidade sexual. Anônimo numa metrópole e em contato com novas estéticas, Lorca estava livre para explorar um de seus temas mais caros, a androginia. O resultado, para quem se interessar, está no livro. Ou no YouTube, que exibe excertos do filme catalão de Federic Amat.

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