A vez de Guarnieri

Considerado o herdeiro de Villa-Lobos, compositor tem obra revisita da em DVD e documentário que mostram sua busca por linguagem própria e pessoal

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

19 de abril de 2009 | 00h00

Herdeiro de Villa-Lobos. Braço musical da teoria nacionalista de Mário de Andrade. Professor de alguns dos maiores compositores brasileiros. As três definições usualmente aplicadas ao compositor paulista Mozart Camargo Guarnieri o colocam no epicentro da história da arte do século 20 no País. Ao mesmo tempo, porém, parecem jogá-lo sempre para um segundo plano. Artífice, incentivador: Guarnieri dialogou intensamente com seu tempo, é verdade. Mas sua música revela também personalidade forte em busca por uma linguagem própria de expressão, como mostra projeto do Centro Cultural São Paulo dedicado à sua obra, que inclui concertos, o lançamento de um documentário e a gravação de seus três concertos para violino e orquestra, em DVD.A programação da homenagem a Guarnieri tem amanhã a primeira exibição do documentário Notas Soltas Sobre Um Homem Só, de Carlos Mendes (filho do compositor Gilberto Mendes e diretor de sua cinebiografia), A Odisséia Musical de Gilberto Mendes), que traz um conjunto de relatos de familiares, musicólogos, amigos, colegas e alunos. Na quarta, o destaque é para recital com a Sonata para Violino e Piano nº 4 do compositor, com o violinista Luiz Filipe e o pianista Paulo Gori. Filipe é solista na gravação dos concertos de Guarnieri, comandada pelo maestro Lutero Rodrigues e destaque do DVD agora lançado (Lua, R$ 30). Guarnieri escreveu três peças para orquestra e violino. A primeira, dos anos 40, causou escândalo entre os críticos ao juntar a uma sinfônica instrumentos de percussão, como a cuíca e o reco-reco. Já Choro para Violino e Orquestra data de 1951 e foi escrito logo após a publicação da Carta Aberta, em que defendia a música de caráter nacionalista. Dois anos mais tarde, seria a vez da estreia do Concerto para Violino e Orquestra nº 2. Na Carta Aberta, publicada em dezembro de 1950 no jornal O Estado de S.Paulo, Guarnieri assumia claramente a divisão da música brasileira entre dois campos opostos: de um lado, estavam os nacionalistas, que tinham no folclore o substrato para a criação de uma música de caráter essencialmente brasileiro; de outro, a vanguarda, simbolizada pelo trabalho do compositor austríaco radicado no Brasil H.J. Koellreutter, que abraçava as novas técnicas trazidas da Europa, como o dodecafonismo, criando uma música que, para Guarnieri, ameaçava a identidade cultural do País.O conteúdo do manifesto de Guarnieri levava adiante a proposta iniciada por Villa-Lobos. Mas não se limitou a mera cópia. "Villa tinha uma personalidade telúrica, não se preocupava com a forma, despejava em sua música os ritmos e harmonias que encontrava no folclore, vinha daí sua genialidade", diz o compositor Almeida Prado, que foi aluno de Guarnieri e, mais tarde, rompeu com o mestre em direção ao grupo da vanguarda. "Guarnieri, no entanto, tinha uma proposta distinta da de seu mestre. Sua atenção estava voltada à substância do folclore. O desafio não era mais reproduzir o folclore, mas torná-lo seu, parte de seu inconsciente", completa. A oposição entre nacionalistas e vanguardistas ditou a produção musical no País durante décadas. Hoje, está ultrapassada. Hora, talvez, de rever a música produzida nesse período.

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