À venda, obras da ''tenda dos milagres'' de Jorge Amado

Herdeiros querem levantar fundos e fazer da casa do autor na Bahia um memorial; pregão, no Rio, será entre os dias 18 e 21

Roberta Pennafort, RIO, O Estadao de S.Paulo

03 de novembro de 2008 | 00h00

Muito amigo de Jorge Amado, Lasar Segall um dia o chamou para um almoço, mostrou-lhe vários quadros e pediu que ele escolhesse o que mais lhe agradava para levar de presente. O escritor optou por um, mas o pintor sugeriu outro, o qual ficou de entregar pessoalmente. Demorou até que o fizesse - o baiano nunca teve coragem de cobrá-lo. O artista então fez questão de escolher o lugar na parede de Jorge onde a imagem da mulher deitada na rede ficaria; dali por diante, brincaria que ia visitar a tela, e não seu dono. Essa e outras histórias estão no catálogo do leilão de obras de arte da coleção particular do autor, que será realizado no Rio nos dias 18, 19, 20 e 21. São cerca de 600, de um total de 1.400 que ele tinha espalhadas pelas duas residências de Salvador, o apartamento de Paris e o de Copacabana. A maior parte foi dada pelos pintores - como o painel de Djanira, de 2,5 por 2,4 metros, o item mais valioso do leilão: o lance inicial é R$ 800 mil. A aquarela presenteada por Segall está avaliada em R$ 44 mil. Djanira, como Segall, Carybé e Carlos Scliar, outros nomes da coleção, era bem próxima a Jorge. Ao longo de sua vida, foram poucos os quadros que Jorge comprou. Entre eles, um São Francisco de Volpi, também à venda. O leilão tem ainda quadros de Anita Malfatti, Pancetti, Antonio Bandeiras, Diego Rivera e Flavio de Carvalho - um retrato do escritor, estimado em R$ 740 mil. De Picasso, com quem ele conviveu na Europa, entraram uma gravura e uma peça em cerâmica, cada uma a R$ 15 mil. Os itens mais baratos são guaches do amazonense Percy Deane, a R$ 300.A escolha foi feita pelos filhos de Jorge, Paloma e João Jorge, que resolveram vender parte dos quadros do pai para levantar recursos e fazer da casa do Rio Vermelho - onde Jorge e Zélia viveram por 46 anos e em cujo jardim foram enterradas suas cinzas - um memorial. E também por considerar que elas poderiam virar alvo de assaltantes. Além de ajudar também a Fundação Casa de Jorge Amado, que guarda o acervo do escritor, os dois pretendem ainda colaborar com o Projeto Axé, que ajuda crianças de rua de Salvador - será doado o valor arrecadado com a venda de um Di Cavalcanti, de lance mínimo de R$ 450 mil (o quadro foi um presente, a propósito, que o pintor deu a Jorge em troca de um filhote de cachorro, conforme Paloma conta no catálogo).A opção pelo leilão foi feita há quatro meses. Não foi fácil. "Dá uma imensa tristeza ver peça por peça sendo tirada. Era como se a casa da minha infância estivesse se acabando, uma catarse. Ao mesmo tempo, pensava: como é que isso tudo ficou aqui esse tempo todo, correndo risco?", diz Paloma, referindo-se ao apartamento da Rua Rodolfo Dantas, em Copacabana.A catalogação de tudo havia sido realizada por Mariana, sua filha mais velha, ainda com o avô vivo. "Meu pai dizia: ?Quando eu me for, vocês que se virem!? Ele não deixou testamento; a única coisa de que fazia questão era que as cinzas ficassem no jardim da casa do Rio Vermelho, ao pé da mangueira", revela Paloma. O leilão será realizado pelo escritório de Soraia Cals, que promove exposição da coleção entre os dias 12 e 17. Ela acredita que os 584 lotes atrairão muitos colecionadores. "A procedência agrega muito valor à obra de arte. As pessoas gostam de comprar peças com história. É um processo meio antropofágico do colecionador", justifica. Soraia lembra que existe uma unidade na coleção, dada pela temática alusiva à Bahia - como os estudos para a capa do livro Capitães de Areia, assinados por Pancetti. "Tudo que davam a ele fazia a referência à Bahia, para agradá-lo."As obras de arte popular da casa do Rio Vermelho ficarão por lá, aos olhos dos freqüentadores que deverá receber quando for aberta como memorial. A intenção dos filhos de Jorge é reformar a residência (a obra está orçada em R$ 3,5 milhões) e deixá-la tal qual era quando eles estavam vivos. "Pára muita gente na porta pedindo para entrar", conta Paloma.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.