Daniel Piza, O Estadao de S.Paulo

23 de agosto de 2009 | 00h00

Tenho lido e ouvido muitos argumentos sobre a corrupção e desfaçatez da política brasileira que podem cair na mesma paralisia que condenam. É verdade que ver a absolvição de Sarney por seus colegas graças às manobras lulistas soa como o último prego no caixão da moribunda vida pública brasileira, além de perfurar as remanescentes alegações de que o PT é um partido com ética e programa (como tantos articulistas escreveram durante tantos anos e alguns até agora não querem enxergar ou então se comportam como traídos); e é verdade que, como eu disse recentemente, o PSDB segue nulo, sem moral nenhuma para se opor aos descalabros, porque também sempre cevou as oligarquias e porque nomes como Eduardo Azeredo, Arthur Virgilio e Yeda Crusius esbanjam semelhanças, para dizer o mínimo. Mas ignorar as perspectivas e nuances não ajuda nada. Ou sabemos o que não queremos ou nos restará assistir ao velório.O argumento mais comum, baseado nas evidências mais plausíveis, diz que todos os políticos são corruptos e, portanto, não faz diferença quem esteja lá. Em contraposição, há a frase do grande Eça de Queirós que tem circulado pelos emails: ''Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente, e pela mesma razão.'' Se essa frequência será de quatro, cinco ou seis anos, e se com uma, nenhuma ou duas chances de reeleição, cada país fará seus testes. Só não tem sentido ficar mais que meia dúzia de anos sem abrir opção real de mudança - a qual certamente não é a do plebiscito periódico que certos autoritários latino-americanos oferecem em sistema quase monopartidário. A premissa da democracia não pode ir parar na mesma vala comum da rejeição.Outro argumento vulgar é o de que ''corrupção existe em todo lugar'', inclusive nos países mais ricos como EUA e Japão. Há um desdobramento um pouco mais sofisticado que chamo de argumento ''italiano'': como na terra de Berlusconi, cujo problema não são os bacanais domésticos e sim a sacanagem que faz com as leis e os adversários, no Brasil poderíamos ter uma economia desenvolvida mesmo que a máquina pública seja instável, corroída, obscura. Bem, primeiro é preciso lembrar: o que não existe em outros lugares mais desenvolvidos é essa impunidade, essa tolerância à corrupção, essa cultura contaminada em todas as classes e regiões pela formação paternalista ou antiliberal. Aqui a corrupção não procura brechas: ela dá liga a todo o sistema. Segundo, apenas a ignorância ou a má-fé podem pôr de lado a história antiga e conflituosa da sociedade italiana - onde a cultura de mercado brotou, como mostraram autores como Tocqueville e Trevor-Roper - e seus avanços institucionais.Há um terceiro argumento, também razoável sob vários ângulos, que deriva dos dois anteriores. Diz que a sociedade brasileira não pode apontar o dedo para seus representantes porque a maioria de sua população também é dada à contravenção, muitas vezes chamada de ''jeitinho'' (os diminutivos eram indispensáveis nos costumes da casa grande) - desde a propina na porta do estádio de futebol até a sonegação assumida de empresários e latifundiários, desde a ''caixinha'' para o guarda ou fiscal até a mancomunagem na hora da licitação. Acontece que, mais uma vez, apontar o dedo para seus representantes é uma prerrogativa da sociedade democrática, por mais desigual que seja essa sociedade e por mais imatura que seja sua democracia. Afinal, eles são pagos por nós. E há muitas, muitas pessoas e empresas que são mais corretas e comprometidas do que a politicalha.Não estou falando apenas que as autoridades, sendo líderes (em tese), são obrigadas a dar o exemplo, como Creonte. Exigir moralidade não é udenismo ou pequeno-burguesismo, ou não deveria ser. É uma parte fundamental daquilo que define uma democracia republicana: a possibilidade de controlar o poder, de monitorá-lo e limitá-lo, por meio de imprensa livre, direitos de cidadania, associações e instituições independentes, e não só de escolhas eleitorais (tanto é que na maioria dos países o voto não é obrigatório). O estado precário dessa rede de vigilância se vê no debate nacional, dividido entre os ufanistas do ''país do futuro'' e os narcisistas do ''isto não tem jeito'', muitas vezes encarnados na mesma pessoa; e sobretudo na incapacidade de pressionar a sério a classe política. Pesquisa do Datafolha, realizada mais de dois meses depois das primeiras denúncias, mostrou que 74% querem que Sarney deixe o cargo; alguns protestos surgiram em ruas e internet; a OAB entrou com representação. Mas Sarney continua. Faltou alguém de dentro gritar ''Sai daí, Zé''?Outro sinal dessa precariedade está na reação à mera menção da palavra ''reforma'', especialmente a política. Sempre se invoca a ideia quando a crise está aguda, mas aí vem muita gente - inclusive os que se dizem social-democratas, conceito que implica necessariamente o de reforma - e alega que não dá para fazer tudo, que são muitas coisas e param o país, o Congresso, etc. Ok, então vamos nos concentrar em medidas pontuais que sejam, ora, pontos de virada: 1) Mudar o sistema de suplentes. Que um terço dos representantes não tenha tido votos para estar lá gera uma bagunça de dar inveja a qualquer italiano; 2) Examinar a fundo a proposta de Luiza Erundina de impedir que meios de comunicação - como os jornais regionais de famílias como Sarney, Magalhães, Collor e tantas mais - sejam dominados por políticos; 3) Criar súmula vinculante para impedir decisões de primeiras instâncias que ferem direitos constitucionais, movidas por interesses de compadrio. Com isso, e fazendo valer as regras já existentes como a proibição ao nepotismo e a fidelidade partidária, se começaria a desmontar uma estrutura arcaica. Precisamos reduzir o poder dos Sarneys e não de pessoas como Gabeira, que cometeu erros e deve pagar por eles, mas que não é um Sarney. É claro que eu, por minhas inclinações pessoais, gostaria de ir mais longe e mudar o sistema partidário, quiçá reduzindo a três legendas (para não ficar no binarismo anglo-saxão); corrigir a proporção representativa (se o Senado serve para o equilíbrio federativo, por que a Câmara privilegia tanto os estados menos desenvolvidos?); adotar o voto facultativo, cancelando também a propaganda partidária gratuita fora de período eleitoral. Mas é preciso trabalhar no terreno do possível. Ou a lama nos enterra.VALORES VIRTUAISQuem tem medo da internet? Pelo jeito, muita gente da velha guarda ainda tem. Mas penso bem no que ela nos traz, na maneira como vem cada vez mais atendendo ao que durante muito tempo sonhamos acessar, e lamento que a ênfase seja sempre no festival de boatos e grosserias que somos obrigados a testemunhar ou então no suposto fim dos livros, dos CDs, dos jornais, etc. Se a internet fosse apenas sites de pesquisa e consumo cultural como Amazon, Google e YouTube, já seria admirável. Se fosse apenas um sistema de comunicação, que me permite trocar gratuita e instantaneamente emails ou msns com pessoas em todas as partes do mundo, já seria legal. Se fosse apenas um conjunto de endereços de grandes jornais internacionais que antes só líamos pagando importadoras a peso de ouro, já daria alento. Ela é, no entanto, mais que isso. É a abertura para vozes antes sufocadas que, do interior do Maranhão ao subúrbio de Bagdá, não tinham como se manifestar. É uma chance de recuperação para um jornalismo autoral, em que as pessoas digam o que pensam sem a pressão corporativista, e para a criação de fóruns de debate. E é um meio de trabalho em equipe com pesquisadores de várias regiões e especialidades, como em tantos sites científicos. Não há uma semana em que eu não descubra um site bacana, como o da British Library (www.bl.uk) ou do Ano Internacional da Astronomia (www.astronomy2009.org). A maioria dos conteúdos e comentários da rede é de baixa qualidade? Sim. Mas a maioria de qualquer coisa é de baixa qualidade: a maioria dos jornais e livros, a maioria dos filmes e canais, a maioria dos restaurantes e marcas...Os problemas que existem na internet não são diferentes dos que existem na sociedade. Suas vantagens, porém, são novas. POR QUE NÃO ME UFANOMarina Silva deixou o PT, que passou a semana ao som de réquiem. Ela tem agenda forte, principalmente na área do meio ambiente, em que Dilma e Serra não têm boa imagem; vem ''de baixo'' como Lula e não tem o ar de doutor ou doutora (ou quase isso) de sua dupla de concorrentes; neutraliza o ''nunca antes este país teve uma mulher na presidência'' que Lula quer usar como mantra; e tem uma reputação internacional que, por exemplo, Heloisa Helena não tinha, embora não seja muito carismática, a exemplo de Serra e Dilma. Sua candidatura carece de outras coisas: base política, pluralidade temática, apelo urbano. E ela diz que é a favor do desenvolvimento sustentável, em que progresso e preservação se unam, mas suas crenças religiosas e suas posições anteriores pendem claramente para o segundo lado. De qualquer forma, é garantia de menos marasmo na campanha. Aforismos sem juízoA mais complexa constante da natureza humana é a vontade de mudança.E-mail: daniel.piza@grupoestado.com.br Site: www.danielpiza.com.br Blog: http://blog.estadao.com.br/blog/Piza

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