A turbulência de um eclipse africano

Às vésperas das eleições, Zimbábue passa pelas trevas no livro Quando um Crocodilo Engole o Sol, do jornalista Peter Godwin

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

23 Fevereiro 2008 | 00h00

Uma antiga crença tribal africana sustenta que o eclipse solar é fruto do voraz apetite de um réptil. A metáfora foi muito útil ao jornalista Peter Godwin ao escrever seu segundo livro de memórias, Quando um Crocodilo Engole o Sol (tradução de Lourdes Sette, 352 págs., R$ 39,90), lançado esta semana pela Editora Nova Fronteira. A tal profecia diz que o bicho consome o Sol por estar muito zangado com o comportamento do homem aqui na Terra. Pelo jeito, o Sol deve estar duplamente descontente, considerando que, na virada do milênio, dois eclipses totais foram registrados em menos de dois anos. Para piorar a situação, o Zimbábue, onde a lenda do crocodilo é temida, vai enfrentar mais uma vez, nas eleições do dia 29 de março, a fúria do dirigente da nação, Robert Mugabe, que, ao ser derrotado oito anos atrás em suas pretensões de se eternizar no poder, anulou o referendo, perseguiu opositores e instalou no país um regime violento que fez do Zimbábue o país campeão global da inflação, da fome, do desemprego e da aids (20% da população está infectada). Godwin, exilado desde 1983 por divulgar a perseguição a fazendeiros brancos, voltou ao Zimbábue anos depois para acompanhar a agonia do pai, morto em decorrência de uma doença coronária. Descobriu um segredo de família guardado por meio século: o pai não era um liberal inglês que saiu da Inglaterra em direção à África para se reinventar como administrador de uma mina de cobre. Era, sim, um judeu-polonês que trocou de nome e nunca revelou a verdadeira identidade aos filhos, temendo que fossem perseguidos. Trágica ironia: George Godwin, a quem o livro é dedicado, escapou dos nazistas escondendo o nome Kazio Goldfarb, mas foi perseguido pelo regime africano de Mugabe numa sociedade que está longe de ser multirracial. Em entrevista ao Estado, Godwin diz que não está sugerindo ser Mugabe um novo Hitler, embora o continente africano esteja, segundo ele, ''''familiarizado com o genocídio'''', citando Ruanda e outras tragédias. A seguir, a entrevista do jornalista, feita por telefone, de Perth, Austrália, onde Godwin passa uma temporada escrevendo o roteiro do filme Mukiwa, baseado na primeira parte de suas memórias, Mukiwa: A White Boy in Africa, que cobre o período compreendido entre 1964 e 1982, ou seja, sua infância e juventude. Zimbábue vai ter eleições em março. Quais são suas expectativas em relação ao pleito, você que escreveu um livro não só para contar a história de sua família como para condenar o regime de Robert Mugabe? Ao contrário do que a mídia internacional insiste em defender, Zimbábue está pronto para a democracia. É, de fato, um momento histórico. Pela primeira vez teremos eleições diretas, mas persiste o temor de que Mugabe possa repetir o que fez no passado, ou seja, quando ele, no referendo do ano 2000, tentou se eternizar no poder e o povo disse não, provocando uma reação raivosa que culminou numa onda incontrolável de invasões de fazendas e ataques aos integrantes do Movimento pela Mudança Democrática. Temo ainda que a oposição tenha dificuldades para chegar aos eleitores, como no referendo de oito anos atrás. Contudo, mesmo sem acesso à mídia eletrônica, o povo disse não. Espero que diga de novo. Um de seus comentários mais agudos sobre o processo de colonização e o pós-colonialismo na África é que, por ironia, após um século de opressão branca, os africanos de origem negra do Zimbábue oprimem brancos liberais como você, que escrevem sobre o que significa ser reprimido. Onde estão os bons escritores negros do Zimbábue para lhe defender? Jamais pretendi ser porta-voz dos negros do Zimbábue nem escrevi o livro com a intenção de me tornar interlocutor de seus habitantes. Há bons escritores negros do Zimbábue que podem fazer isso melhor do que eu, mas, infelizmente, num país com uma inflação monstruosa, não se pode pedir que as pessoas comprem livros ou que editoras levem esses autores para o leitor estrangeiro. Acontece, então, que os interlocutores dos negros africanos acabam sendo Nadine Gordimer ou Doris Lessing, que são muito boas, embora existam escritores negros emergentes e desconhecidos que poderiam ter repercussão semelhante se as condições fossem favoráveis. Seu pai escapou da barbárie nazista, mas acabou vítima da brutalidade de africanos. Você diria que o regime ditatorial de Mugabe tem algo a ver com o regime racista de Hitler? Não dá para comparar em escala, embora, no caso africano, Ruanda e Burundi detenham o triste registro histórico do maior genocídio depois da guerra. De qualquer forma, embora não se possa falar em Holocausto, há várias maneiras de matar alguém e o regime de Mugabe carrega nas costas o peso de mortes pela fome, pela falta de remédios para o tratamento de doenças como a aids e pelo avanço do desemprego, que leva as pessoas ao desespero, como os milhares de refugiados do Zimbábue que erram pela África. Quanto à intolerância dos dois regimes, o nazista e o de Mugabe, diria que as diferenças não são tantas: ambos sufocaram a oposição e alimentaram o racismo. Do lado pessoal, entendo o temor de meu pai por ter, como judeu, medo de continuar a viver na Europa depois de Hitler e de ter sido um branco na África de Mugabe. Você acha impossível construir uma sociedade multirracial no Zimbábue? Afinal, houve um tempo em que negros conviviam com brancos sem ameaçá-los com fuzis. A ironia é que Mugabe aprimorou a sociedade pós-racial: agora todos são igualmente oprimidos, independentemente da cor ou origem. Com ele no poder, os ''''wovits'''' (veteranos de guerra da Independência) sentiram-se à vontade para espancar e prender fazendeiros brancos, acirrando o ódio contra eles. Zimbábue era para ser a terra da abundância. Virou um país miserável, mergulhado no caos econômico por conta de uma elite corrupta e de seu ditador. A mídia internacional ajuda a apresentar essa crise como uma luta pela terra, mas o que está por trás dela é ainda mais sinistro. Olhando esse quadro de um país em colapso e de um indivíduo que sente o peso do exílio, como isso afeta sua identidade? Sinto uma profunda tristeza. Mesmo tendo opções, morando nos Estados Unidos e viajando muito por conta da minha profissão, Zimbábue é meu país, o lugar onde passei minha infância e onde meus pais lutaram para construir uma sociedade melhor. Não se sabe quantas pessoas saíram do país, que enfrenta uma crise nunca antes experimentada. Veja, a indústria de tabaco, que respondia por 40% da exportações, faliu por falta de pessoas qualificadas para cuidar das plantações e 60% da indústria de manufaturados já agoniza. É preciso dizer que há uma diferença muito grande entre ser um emigrante e um exilado. Como representante dos últimos, confesso que temo perder minha identidade africana . Muitas pessoas de outros continentes pensam que os problemas da África são endêmicos, frutos das distorções coloniais ou de problemas ambientais. Quais são as forças que mantêm a África como o continente esquecido? Fiz um documentário para responder a essa complexa questão. Não é o ambiente hostil nem tem a ver com distorções coloniais. Há, naturalmente, uma disputa pelo território por conta das riquezas sob o solo africano, mas não dá para carregar eternamente a culpa da herança colonialista. A Ásia e a América Latina também estão cheias de países que foram colonizados e nem por isso pararam no tempo. É preciso assumir que a história da África não é só a história do colonizador branco, mas dos negros. Eles vão ter de tomá-la nas mãos. Seu pai costumava dizer que um branco na África é como um judeu em qualquer outro lugar, sempre na expectativa de ser vítima da hostilidade. O que você sentiu quando seu pai revelou ser um judeu-polonês? Cresci como minoria branca num continente de população negra. Compreendo melhor as preocupações de meu pai, principalmente porque os antecedentes históricos não permitem nenhuma espécie de otimismo - veja os ''''pogroms'''' na Rússia, depois durante o nazismo e você vai notar que existe a repetição de um padrão. Então, diria que existem enormes razões para um branco sentir-se inseguro na África, porque as instituições são mais fracas nos países africanos. Ficamos mais vulneráveis. É só lembrar de Idi Amin, o falecido ditador de Uganda, e fazer uma analogia com o que poderia acontecer com os brancos do Zimbábue. Você acha que um dia o Zimbábue vai ser um país democrático? As pessoas dizem que nosso problema é cultural, que não estamos preparados para votar. Digo que temos pessoas bem preparadas no Zimbábue, que entendem perfeitamente o que está acontecendo. Mas democracia não é mágica. Precisa de tempo para se consolidar

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