A tortuosa relação entre o autor e seu estranho leitor

Em Jonas, o Copromanta, Patrícia Melo cria a história em que o personagem principal persegue Rubem Fonseca, em uma fábula feita de desvario e solidão

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

28 de abril de 2008 | 00h00

file://imagem/93/patricia.jpg:1.93.12.2008-04-28.25 Jonas tem um emprego modorrento (carimba papéis sem pressa em uma sala da Biblioteca Nacional, no Rio), uma vida sentimental pouco efusiva (duas colegas do trabalho revezam-se em sua cama), mas o futuro não lhe atemoriza - Jonas desenvolveu um sistema próprio de adivinhação, baseado no estudo compenetrado das formas de seu bolo fecal. É por meio do exame diário de suas fezes que ele orienta seus passos, até o dia em que se descobre plagiado. ''Eu me diverti muito ao criar essa história, soltando verdadeiras gargalhadas'', confessa a escritora Patrícia Melo sobre Jonas, o Copromanta, que ela lança hoje à noite, na Livraria da Vila da Alameda Lorena.As aparências enganam, na literatura de Patrícia Melo - seu mergulho nas raízes da violência urbana, marca definitiva de obras como O Matador e Acqua Toffana, a caracterizou erroneamente como autora de literatura policial. Afinal, solucionar crimes é menos importante para a condução de sua prosa que identificar a cicatriz fixada pelo destino na pele de seus personagens. Em Jonas, também a realidade é turva.Leitor contumaz, a ponto de se sentir confiante em apontar novas soluções para romances clássicos de Dostoievski e Nabokov, Jonas é fã de Rubem Fonseca até se surpreender com o conto Copromancia, que figura no livro Secreções, Excreções e Desatinos: o enredo, inusitado, fala de um homem obcecado em observar e catalogar diariamente as próprias fezes. Imediatamente, Jonas alimenta uma alucinação na qual seu autor favorito desenvolveu uma técnica mirabolante que lhe permite entrar em seu intelecto e se apropriar de suas idéias.''Logo depois que terminei Mundo Perdido, há dois anos, que traz uma história muito angustiada, comecei a trabalhar nessa trama e fui especialmente movida pela curiosa relação existente entre leitor e autor'', conta Patrícia que, amiga fraterna de Rubem Fonseca (juntos, já desenvolveram projetos no cinema), decidiu transformá-lo em personagem, pois o escritor passa a freqüentar a Biblioteca Nacional, despertando a ira de Jonas, que começa a persegui-lo.Para conferir mais credibilidade à narrativa, Patrícia aprendeu, embora desordenadamente, os princípios da criptologia que, ao lado dos hieróglifos e da escrita hebraica, fornecem a base do sistema desenvolvido por Jonas para decifrar as figuras formadas por suas fezes.Apesar de alterar sua rotina, transformando-o em uma pessoa perigosa por causa da sua fixação em Fonseca, a loucura é benéfica para Jonas, no entender de Patrícia. ''Apesar de sua rotina ordinária, da sua vida desprezível, ele tenta descobrir ali um sonho, uma promessa, um advento importante'', observa. ''Essa é a inversão do romance: Jonas acredita que sua vida foi subtraída por um escritor. Com isso, ele se sente vulnerável e essa vulnerabilidade é o grande trunfo de sua vida, nada mais. O resto é rotina - a única novidade é o sentimento de estar fraco.''É nesse ponto que o enredo de Jonas, o Copromanta mergulha em uma espiralada aventura de perseguição e loucura. Ciente de ser vítima de um plágio, Jonas, aos poucos, condiciona sua existência à prosa de Rubem Fonseca, acreditando que toda a obra do escritor seria uma transfiguração da sua vida. Para alimentar essa alucinação, surge Zoé, uma mulher que se aproveita da loucura daquele homem, alimentando-a ao mesmo tempo em se que aproveita material (e até sexualmente) disso. ''O final, que aparentemente é triste, revela na verdade a felicidade de um homem que se agarrou a um ideal'', comenta Patrícia.Ela se diverte ao lembrar que só avisou Fonseca que seria personagem do romance quando a obra já estava para entrar na gráfica. Não havia, no entanto, motivo para preocupação - Jonas, o Copromanta exalta a literatura de Fonseca, criando um caminho cruzado entre as obras que resulta em uma terceira, original. ''Essa sensação de que algo pode mudar é maravilhosa: a pessoa não está presa a um destino, no sentido condenatório. Nos meus romances, essa concepção de destino está sempre presente. É o caso de O Matador, no qual personagem luta contra o destino.''TrechoA sensação que no início era de vazio e perplexidade aos poucos transformou-se em expectativa e apreensão, características de momentos proféticos. De alguma forma, ainda que não pudesse explicar, os dejetos que fermentavam em meus sonhos tinham um papel central no que eu supunha ser um vislumbre do futuro. É preciso dizer ainda que naquele momento eu estava bastante envolvido com a idéia da criação de sistemas, palavras, códigos, linguagens e, principalmente, acesso a algo prodigioso e terrível. No meu subconsciente, eu já intuía estar em busca de significado.

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