A terrível atualidade de Plínio Marcos

Ele se definiu como repórter de um tempo mau ao escrever Querô, que o Folias encena com 39 atores em formato de cabaré

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

29 de janeiro de 2009 | 00h00

Para chegar ao Galpão do Folias - localizado próximo ao Minhocão na altura da estação Santa Cecília do metrô e onde estreia hoje a peça Querô - Uma Reportagem Maldita, de Plínio Marcos -, o carro da reportagem do Estado faz um ziguezague pela ruas do centro no entardecer da segunda-feira. Sob a fina garoa, a paisagem humana é no mínimo aterradora e faz lembrar imagens descritas por Saramago no livro Ensaio Sobre a Cegueira. São hordas de seres humanos em trapos, famílias que se abrigam sob o viaduto, corpos sujos, olhos sem brilho, crianças que choram. Diante de um homem que se aproxima e cujo odor se pode sentir a distância, impossível não perguntar: como se chega a tal estado de degradação?Ao parar diante da porta do teatro, uma outra pergunta vem à mente: pode o teatro dar conta de refletir e agir sobre tal realidade? Plínio Marcos se dizia o repórter de um tempo mau. Nessa peça, Querô, escrita por ele em 1978 na forma de romance, e por ele mesmo adaptada para o teatro, a história é contada a um jornalista por um menino baleado, caçado pela polícia. Querô tem esse nome porque sua mãe, prostituta que insiste em ter um filho, suicida-se tomando querosene após o parto. O menino cresce em desamparo, é explorado por policiais, fracassa a cada tentativa de viver com um mínimo de dignidade, até o esperado fim trágico.Como se sabe, Plínio Marcos foi o primeiro a colocar nos palcos brasileiros - pelo menos de forma potente e a fazer ecoar - aqueles brasileiros que não poderiam ser chamados de cidadãos. Homens e mulheres abandonados pelas instituições à própria sorte, animalizados no sentido de quem vive apenas voltado para garantir a sobrevivência. Na década de 70 ainda se acreditava que a denúncia dessa situação poderia ser transformadora. Mas e agora?"Não mexemos em nada no texto, mas evidentemente há uma transformação no papel desse repórter", diz Marco Antonio Rodrigues, diretor do espetáculo que tem um elenco de 39 atores, remanescentes de um longo processo de seleção que começou com mais de 400 inscritos após uma convocação do grupo para esse trabalho. Se o enredo, infelizmente, continua atual, hoje já se sabe que não é o desconhecimento o motivo de permanência da miséria. Pelo contrário, a situação de precariedade econômica e cultural de muitos brasileiros é tema exaustivamente explorado em filmes e espetacularizado em programas televisivos."No nosso espetáculo essa história é contada na forma de um cabaré. Evitamos uma leitura fechada, direta, fazer desse repórter um desses apresentadores de programas jornalísticos no estilo exploração do mundo-cão. Preferimos uma certa delicadeza e até uma certa confusão, no sentido de deixar em aberto para a leitura do espectador", argumenta Rodrigues. Por tudo o que diz o diretor sobre o espetáculo pode-se deduzir que a contundência possível atualmente brota da ironia. "Não tivemos medo do mau gosto e acho que até está presente em alguns momentos. O repórter, como indivíduo, ainda pode ter um desejo real de interferência, mas a imprensa na qual ele está inserido não vai abrir espaço para ética, análise ou reflexão pertinentes.""Plínio Marcos sempre dizia: quem luta pela sobrevivência é náufrago. Temos de ser mais do que isso", lembra Rodrigues. O teatro pode contribuir para tal transformação? O diretor não tem dúvida da potência intrínseca à arte. "Fizemos uma mostra teatral no início do mês e Ésio Magalhães (ator do Barracão Teatro, de Campinas) apresentou seu espetáculo na rua, aqui na frente, diante do Galpão do Folias." Conta que até chorou com a reação do público, a participação, a força do trabalho. "Mas quantas pessoas viram? O teatro teria de sair do gueto e para isso as instituições teriam de atuar. O que alimenta o imaginário da maioria dos brasileiros? O Estado abriu mão do seu papel e nós permitimos isso. Nós, artistas, intelectuais, todos nós capitulamos. O que podemos fazer ainda é isso, convocar jovens, juntar pessoas, tentar refletir, buscar caminhos."Não por acaso o diretor explica que nos últimos anos o grupo Folias vem se dedicando a criar trabalhos que reflitam sobre o conceito de desterritorialização. O que vem a ser exatamente? "É o não pertencimento, a ausência de vínculo com a comunidade. Milton Santos dizia que o homem faz a cidade e a cidade faz o homem. Mas e se não há cidade? Se não há perspectiva comum, o sentimento de fazer parte, tudo fica pequeno, mesquinho, relação pessoal, inveja, ressentimento. Mesmo no teatro, as pessoas passam a fazer parte de um grupo não por ideologia, por acreditar numa forma de trabalho, mas por falta de opção. Ao primeiro convite, abandonam o coletivo. Todos os que trabalham nessa forma de produção sentem essa dificuldade. Parece que tudo isso nada tem a ver com Querô, mas tem tudo a ver. A peça trata disso."Amizade e artePARCERIA: Ambos santistas, o diretor Marco Antonio Rodrigues e o autor e ator Plínio Marcos (1935-1999) conheceram-se só em São Paulo há 30 anos. Em 1979, o Arena de Porto Alegre veio à cidade com uma peça do dramaturgo e Rodrigues foi convidado a trabalhar na produção. Pouco depois, ele já atuava numa montagem clandestina de Barrela, peça censurada, apresentada a portas fechadas no TBC aos sábados, meia-noite. Na década de 80, ele passou a integrar O Bando, grupo fundado por Plínio, cujo elenco contava com nomes como Bete Mendes, Francisco Milani e Oswaldo Mendes. Ali atuou em peças como Jesus Homem e Dois Perdidos. Como diretor, em 1997, Rodrigues criou uma encenação feérica para O Assassinato do Anão, aprovada pelo autor e amigo.ServiçoQuerô. 95 min. 14 anos. Galpão do Folias (70 lug.). R. Ana Cintra, 213, 3361-2223. 5.ª a sáb., 21 h; dom., 20 h. R$ 30 (R$ 8, moradores do bairro de Santa Cecília). Até 26/4

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