A tentativa de matar Hitler para poupar vidas

Operação Valquíria traz Tom Cruise como chefe do complô contra o Fuhrer

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

13 de fevereiro de 2009 | 00h00

A chamada Operação Valquíria é um grande "se" da História. O que teria acontecido caso tivesse dado certo o atentado contra Hitler, planejado e executado por oficiais alemães descontentes com o rumo que o Fuhrer imprimia à guerra. O caso aconteceu de verdade e é mais uma daquelas histórias intrincadas da 2ª Guerra Mundial, evento que se tornou talvez o maior fornecedor de temas para livros de história, ficção, ensaios e filmes. Na trama, dirigida por Bryan Singer, Tom Cruise é o coronel Claus von Stauffenberg que, ferido numa missão na África, torna-se homem de confiança do regime na fase final da guerra. Fase ambígua: em 1944, parte do oficialato de Hitler já dava a guerra como perdida. Prolongá-la, segundo eles, seria apenas infligir mais sofrimento e morte ao povo alemão. Mas batiam-se contra um muro intransponível, a intransigência do comando nazista e do próprio Hitler. Não havia aí apenas teimosia ou afastamento da realidade por parte dos líderes. É que, acima de certa patente, só existia mesmo um caminho a seguir - vencer ou morrer, pois não seriam poupados em caso de derrota, incriminados que estavam até o pescoço. Nesse ambiente, a ideia do atentado brotou naturalmente. Com o Fuhrer morto, seria possível negociar uma rendição com os Aliados. Tom Cruise não está mal no papel do coronel Claus. Quer dizer, isso se você não exigir muito do filme nem ligar para o fato de que um alto oficial alemão se comunique com os outros em inglês. Ok, faz parte da convenção do cinema e até nos filmes da Roma antiga os centuriões comentam o resultado de uma corrida de bigas no idioma de Lord Byron. Mas isso não desculpa a falta de autenticidade de Operação Valquíria em cenas que começam em alemão (para dar o sabor...) e terminam em inglês. Ou textos que aparecem escritos em alemão e são lidos em inglês, e assim por diante. Por que não assumir de vez a fantasia? Pelo seguinte: é que o filme se quer dentro do esquadro estritamente realista e por isso tem de ser verossimilhante. O idioma entra como parte necessária dessa correspondência entre a imagem e o "real". Mas como está fora de questão fazer um filme em alemão e dublar Tom Cruise, opta-se por esse tipo de solução de compromisso. Nem cá nem lá, e assim fica o tom do filme, meio desbotado e deslocado. Filme que tem lá suas qualidades. Por exemplo, a abertura com o bombardeio do comboio alemão no qual o coronel Claus sai ferido é bastante impressionante. Nele, Claus perde um olho, uma mão e parte dos dedos da outra. É uma sequência violenta e muito bem filmada. Não falta também a Operação Valquíria aquela que talvez seja a sua maior qualidade - a capacidade de manter alta a tensão, mesmo quando o desfecho é sabido por todos que conheçam o mínimo da História Universal. Afinal de contas, todo mundo sabe de cor que Hitler morreu apenas no final da guerra, em seu bunker, quando as tropas russas já avançavam sobre Berlim. Nada disso destrói o filme como experiência de suspense. Da montagem do plano do atentado às suas complicadas condições de realização - tudo isso é bem urdido e, para usar de novo a qualificação, realizado de maneira realista e convincente. Claro, essa realização é quadrada, sem qualquer sentido de invenção. Nota-se que Valquíria é um produto que deseja sintonizar-se com o público. E os produtores (Tom Cruise aí incluído) entendem que essa sintonia passa por qualquer ausência de novidade no plano da realização técnica ou narrativa. Tudo é dito em linha reta, para que não haja qualquer dificuldade de compreensão. Resultado: o que é feito para ser fácil, termina sendo óbvio, sem nenhum sentido de mistério. Não há lacunas, não existem zonas de sombra, mas apenas a preocupação em manter aceso o interesse, pela manipulação da tensão. Ficam assim em segundo plano os aspectos humanos dos personagens. O que acontece no íntimo daquela gente que sabe estar colocando o pescoço em risco para acelerar o final de uma guerra já perdida? O que se passa com suas famílias? Tudo isso é contado ou mostrado de forma pífia, sem qualquer aprofundamento. Assim se tem um resultado pouco mais do que satisfatório para esse drama conduzido de maneira superficial. Assiste-se ao filme, e sai-se do cinema com a sensação de ter-se visto algo bem realizado... e no entanto inócuo, que não deixa vestígios ou material para reflexão. Sem se assumir como produto de entretenimento puro, Operação Valquíria acaba sendo pouco mais do que isso. Não altera em nada a nossa compreensão dos eventos a que se refere nem nos emociona com o destino dos seus personagens. Diverte-nos e nos deixa indiferentes.

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