A soprano barroca que veio do frio

Nascida no Alasca, Vivica Genaux, em ascensão no cenário internacional, fala da carreira e das obras que canta em São Paulo

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

26 de maio de 2009 | 00h00

Ela nasceu em Fairbanks, a principal cidade do interior do Alasca; estreou como cantora na adolescência, após insistir com suas professoras que deveria cantar o papel principal de My Fair Lady numa produção da escola; e virou cantora de ópera depois de ler a biografia do barítono italiano Tito Gobbi, grande companheiro de palco de Maria Callas. Seu repertório, no entanto, nada tem a ver com o da grande diva. Figura em ascensão no cenário internacional, a soprano Vivica Genaux trocou desde cedo as grandes heroínas da ópera romântica pelos personagens do período barroco, destaque das duas apresentações que ela faz em São Paulo, hoje e amanhã, ao lado do Concerto Köln, um dos mais importantes conjuntos dedicados a este repertório.O programa é o mesmo nos dois dias. Árias de Alcina, Ariodante e Giulio Cesare, de Haendel, e da ópera Solimano, de Johann Adolf Hasse. "Os produtores me pediram que cantasse bastante Haendel, mas quis incluir Hasse, autor muito importante que, no entanto, ainda não conquistou completamente o gosto do público", diz ela ao Estado durante entrevista em que relembrou os primeiros contatos com o canto e fala com honestidade dos desafios enfrentados pelos cantores nos dias de hoje.Você poderia falar um pouco do repertório que escolheu para sua estreia no Brasil? Como essas óperas e compositores se encaixam no desenvolvimento de sua carreira?Comecei a trabalhar com a música barroca há dez anos, com a Ariodante de Haendel. Em seguida, cantei Solimano, de Hasse, com René Jacobs e o Concerto Köln. Por isso fico feliz que esses dois autores estejam no programa, são fundamentais em minha carreira. Os produtores me pediram que cantasse bastante Haendel, então procurei árias que, para mim, representam melhor o seu estilo florido e heroico, como "Cara Speme", a ária de Sesto em Giulio Cesare. Como fã da música de Hasse, sempre tento incorporar suas obras em meus concertos. Adoraria ver sua música de volta ao repertório, com a importância que teve em sua época, quando era considerado como Haendel e Haydn. A associação com o repertório barroco foi algo decidido por você desde o início ou aconteceu naturalmente? Você acredita que a especialização é importante para um cantor ?Passei meus primeiros anos como cantora interpretando Rossini em ópera como La Cenerentola, O Barbeiro de Sevilha e L?Italiana in Algeri. Depois de um tempo, comecei a me perguntar qual outro repertório eu poderia encarar e fui aconselhada a olhar a música de Hasse. Não tinha ideia de quem ele era e, pouco depois, fiz uma audição para René Jacobs, que ia produzir Solimano. As cores e agilidade dos instrumentos barrocos me encantaram e, desde então, continuei a explorar este repertório avidamente. Acredito que certo grau de especialização é importante. Vivemos em uma época na qual o cantor é obrigado a sair-se bem perante quatro séculos de repertório e estilos musicais. A ideia de que uma voz pode se prestar a tudo isso é incompreensível. Estou muito feliz no nicho Rossini-Barrocos, mas também canto papéis fora dele, apenas para ver como minha voz está se desenvolvendo. Sobre o futuro, o que posso dizer é que meu único objetivo é poder cantar pela maior quantidade de tempo possível. Como uma menina do Alasca chegou ao canto? Você disse certa vez que foi influenciada pela biografia do barítono italiano Tito Gobbi.Quando comecei a estudar seriamente o canto, fui ler todas as biografias disponíveis de cantores, pois não tinha ideia do que esperar desta carreira, quais os desafios, qual o estilo de vida. O que me encantou na biografia de Tito Gobbi foi sua sinceridade e a maneira como nos mostra que a dedicação e a concentração necessárias para um cantor não podem transformar você em um "divo", é preciso compreender que somos seres humanos comuns. O mais importante para mim tem sido sempre manter-me sincera com relação a mim mesma em vez de criar uma imagem, um personagem de "diva". Respeito muito artistas como Gobbi ou Yo-Yo Ma ou Itzhak Perlman que parecem ter encontrado o equilíbrio entre vida e arte. Gobbi também fala muito, em seu livro, do conceito de fé, algo que também tem sido muito importante para mim ao longo de minha carreira.Como você se definiria como artista? Como definir em palavras o trabalho de um cantor lírico?Acredito que, como artista, sou um pouco séria demais. Tento ser o mais disciplinada possível porque, no fundo, no fundo, sou uma pessoa muito preguiçosa. Ou o cantor é disciplinado ou tem alguém disciplinado tomando conta dele ou os dias vão passando e o trabalho não acontece. Um cantor precisa cantar todos os dias. É como um atleta treinando para uma maratona, precisando ir à academia todos os dias. Há, claro, dias em que você realmente não quer se exercitar e você precisa conhecer o seu corpo bem o suficiente para entender quando você realmente precisa de um tempo ou se é só preguiça mesmo! Se você não pratica, seus músculos ficam fora de forma, atrofiam e a voz não responde tão bem quanto nos dias em que você está bem. Ao mesmo tempo, se você trabalha duro demais, corre o risco de machucar a voz. Não é fácil, não. E tem ainda o fato de que um cantor hoje precisa ser multifuncional. Precisa saber mexer bem em computadores, ser bom com línguas, ter um bom temperamento, saber quando é preciso ceder e quando é necessário marcar uma posição. É preciso também amar o estilo de vida que vem com a profissão. A boa notícia é que hoje há muitas oportunidades para um bom cantor, seja como professor, cantor de coral, interpretando papéis pequenos ou como solistas. O truque, na verdade, é saber onde você se encaixa melhor, em termos vocais e pessoais.Você se lembra da sensação que teve na primeira vez que pisou num palco? Como essa sensação mudou com o passar do tempo?Bom, as coisas mudaram incrivelmente desde que comecei a cantar profissionalmente. Nossa, eu ficava tão nervosa nos ensaios... eu tinha medo que alguém percebesse que eu não tinha a menor ideia do que eu estava fazendo e fosse me mandar embora. Mas isso foi bom, acho, porque trabalho muito mais quando estou com medo! Hoje, sinto-me muito mais relaxada, tanto nos ensaios quanto nas apresentações. Eu costumava ser muito perfeccionista, mas agora minha preocupação maior é encontrar algo novo na musicalidade de minha performance e não apenas o apuro técnico. O que sinto agora é que minha técnica é a fundação sobre a qual eu posso criar a emoção. Gosto disso e confesso que hoje em dia me divirto muito mais do que antes. ServiçoConcerto Köln e Vivica Genaux. Sala São Paulo (1.484 lug.). Praça Júlio Prestes, 16, Centro, tel. 3223-3966. Hoje e amanhã, 21 h. R$ 70 a R$ 150

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