A solidão no Caminho de Santiago

Museu Afro Brasil apresenta mostra de fotos contemporâneas sobre o percurso

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

16 de julho de 2008 | 00h00

Como o Brasil é o país da América Latina que mais visita o Caminho de Santiago de Compostela, o governo da província de Castilla e León da Espanha - região que abriga a maior parte do percurso religioso - propôs que se realizasse mais uma mostra no Brasil sobre esse tema - a primeira, ampla e de caráter histórico, ocorreu no ano passado na Estação Pinacoteca. Dessa maneira, foi preparada uma mostra centrada nas expressões contemporâneas, especificamente, na fotografia, como se pode ver na exposição Itinerarium, que será inaugurada hoje no Museu Afro Brasil. O tema em comum é o Caminho de Santiago de Compostela, mas o olhar contemporâneo e sensível dos fotógrafos sobre o local e sua história suscita imagens diversas e tão diferentes entre si, o que enriquece ainda mais a proposta inicial da mostra.Afinal, há fotografias que poderiam ser tiradas de qualquer lugar. ''O caminho é o da experiência humana'', diz o curador espanhol Amador Griñó, que convidou o brasileiro Wilson Lázaro (do Museu Bispo do Rosário) para ser o co-curador da exposição. Dessa maneira, a mostra reúne 60 obras de dois espanhóis - Ángel Marco e Eduardo Margareto - e de três brasileiros - Guy Veloso, Rodrigo Petrella e Vik Muniz (presente com duas imagens das catedrais de Burgos e León de sua série de chocolate). ''Queríamos promover uma troca de olhares, de duas margens diferentes, dois limites'', afirma Griñó, que no ano passado foi o curador-geral da mostra Encontro Entre Dois Mares - Bienal de São Paulo-Valência, na Espanha, proposta de evento bienal feito em parceria entre a Fundação Bienal de São Paulo e o governo valenciano que por ora está paralisado. Como o olhar contemporâneo é diferente e livre, os criadores nos apresentam outras visões dos monumentos carregados de história milenar, muitas vezes, tendo em comum não a referência a ícones religiosos, mas à questão da solidão.A começar pelas belas fotografias do espanhol Ángel Marco. O caminho, numa de suas fotos, é uma fileira de árvores. Em outra, um campo de futebol está ''deserto e florido diante de uma antiga ermida'', como caracteriza Griñó, ou, mais ainda, as ruelas das cidades estão vazias de pessoas e têm, no canto da imagem, a presença das paredes milenares dos locais já em ruínas. ''As mudanças de um lugar a outro marcam a forma do movimento da vida, quem viaja daqui para ali não é apenas um peregrino ou um viajante, mas também um alquimista que permuta os elementos, transformando-os'', nas palavras do curador. Já nas fotografias do paulistano Rodrigo Petrella a paisagem, os monumentos e seus detalhes estão em preto-e-branco.Ao mesmo tempo, Eduardo Margareto centra-se nos retratos de pessoas comuns que têm suas vidas ligadas ao Caminho de Santiago - em vídeo estão seus depoimentos - e Guy Veloso apresenta série que realizou na década de 1990 quando peregrinou pela região.Depois, no sábado, o Afro Brasil vai inaugurar a mostra A Arte dos Bijagós da Guiné-Bissau, que reúne 82 peças usadas nos rituais de iniciação dos povos do arquipélago africano. São obras raras, ornamentos e máscaras (zoomórficas), feitos em madeira e com detalhes, muitas vezes, em palha e vidros, adquiridas por cerca de 200 mil pelo museu de uma coleção portuguesa, como conta o diretor do Afro Brasil, Emanoel Araújo.Serviço Museu Afro Brasil. Av. Pedro Álvares Cabral, s/n.º, portão 10, Parque do Ibirapuera, tel. 5579-0593. 3.ª a dom., 10 h às 17 h. Grátis.Itinerarium - Pelo Caminho de Santiago em Castilla e Léon. Abertura hoje, às 13 h, para convidadosBijagós - A Arte dos Povos da Guiné-Bissau. Abertura no sábado, às 13 h, para convidados. Ambas até novembro

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