A síntese gráfica do texto teatral

Exposição reconstrói em maquetes e fotografias quatro décadas de carreira do cenógrafo José Dias

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

10 de setembro de 2008 | 00h00

Talvez nem chegue a uma dezena os cenógrafos brasileiros que conseguem aliar sólida formação acadêmica com longa experiência nos palcos teatrais, trajetória premiada e, sobretudo, amplo conhecimento também na área da arquitetura cênica, ou seja, saibam construir e reformar teatros. O carioca José Dias, professor titular nessa arte na Universidade do Rio (Unirio) é um deles. Ano que vem completa 40 anos de premiada carreira e parte dessa história pode ser vista em exposição que será aberta para convidados hoje à noite na Caixa Cultural da Avenida Paulista. Quem viu, por exemplo, o cenário de José Dias para O Carteiro e o Poeta dirigida por Aderbal Freire-Filho (em São Paulo ficou em cartaz no Teatro Hilton) dificilmente esquece sua impactante simplicidade. "A cenografia evoluiu ao longo dos anos dos grandes volumes e da verticalidade para a síntese", argumenta Dias. Essa transformação poderá ser percebida pelo observador atento à linha do tempo na exposição que tem 76 maquetes escolhidas entre 320 cenografias criadas para o palco - peças e óperas."Não é uma retrospectiva", afirma Diaz. "Não tenho todas as maquetes e nem haveria espaço para isso." Estão fora da mostra ainda todos os seus trabalhos para a televisão e o cinema. Também não é explorada sua atuação na área de construção e reformas de teatro. Mas essas facetas vão ser discutidas amanhã, às 17 horas, numa palestra, grátis, que Dias vai dar para aprendizes nas áreas de cinema, artes plásticas, cenografia e arquitetura. Os interessados podem se inscrever pelo telefone 3321-4000.Embora carioca de nascimento, Dias fez mestrado e doutorado na USP. Mas sua atividade docente realiza mesmo no Rio onde foi escolhido em 2000 primeiro vice-reitor da Unirio a ser nomeado a partir de consulta à comunidade acadêmica, da qual é um defensor. "A fase do empirismo já passou. Há um campo aberto, amplo e em expansão na área da cenografia, mas para atuar nesse mercado é preciso estudar." Ressalta que talento e intuição podem ser ponto de partida, mas para se manter na profissão o cenógrafo terá de saber história da arte, estudar dramaturgia, arquitetura, afinar conhecimento, aprimorar-se. "Do contrário pode até ganhar prêmio ao surgir, mas não vai muito longe."Na exposição, além das maquetes há ainda 189 imagens fotográficas flagradas nos palcos com a cenografia já "habitada" pelos atores. Pois são essas fotos as capazes de atrair até mesmo quem não tem interesse especial em cenografia. Afinal, são flagrantes em plano aberto, que propiciam imagens muito vivas do palco, com atores José Maia, Letícia Spiller ou Franscisco Cuoco captados em plena interação com o cenário. Sim, porque a primeira lição de cenografia está saber que essa arte nada tem a ver com decoração de ambientes."Eu faço parte da equipe de criação desde a primeira leitura do texto. Acompanho ensaios. Ao cenógrafo cabe uma resposta gráfica à proposta cênica da direção. Não se pode fazer cenário por vaidade, criar para o próprio umbigo. Cenografia é linguagem, não tem que ser necessariamente bela, tem que ter prática, precisa estar em sintonia com a proposta cênica e os seus outros elementos: figurinos, iluminação, dramaturgia e interpretação."Se a busca do decorativo é erro grave em cenografia, criar auditórios em vez de teatros é o equívoco mais comum na arquitetura cênica. "Dá para contar nos dedos os profissionais especializados. Por isso, ao construir um edifício teatral, o arquiteto deveria ter humildade e consultar um deles", observa Dias. Especialistas, como ele, são comumente chamados para "reformar" espaços mal planejados. "Muitas vezes já é tarde, só demolindo seria possível fazer um bom teatro. Falta urdimentos, coxias, espaço para entrar com cenário e visibilidade. E depois a cidade reclama que os artistas não passam por lá. Como, se a sala não oferece condições técnicas?" ServiçoCenografia - A Arte de José Dias. Caixa Cultural. Av. Paulista, 2.083, tel. 3321-4400. 3.ª a sáb., 9 h às 21 h; dom., 10 h às 21 h. Grátis. Até 26/10. Abertura hoje, 19h30, para convidados

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