A singular presença francesa no País

Pesquisadora examina a capacidade dos missionários de conquistar e dominar pela ''''doçura'''' os índios no período colonial

Ana Paula Torres Megiani, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2002 | 00h00

Enganam-se aqueles que imaginam que a crença no retorno do rei d. Sebastião de Portugal seja a única manifestação longínqua do messianismo régio da época colonial presente na cultura brasileira. Outros reis europeus também andaram sendo esperados por aqui, além do Encoberto português. Um desses casos é o de São Luís, santo rei da França, que deixou também suas sementes de expectativa de regresso nas partes do Maranhão, por onde andaram os padres capuchinhos franceses nos primórdios do século 17. Enviados como missionários ao novo mundo por ordem da regente da coroa real Maria de Médicis, ao lado dos conquistadores La Ravardière e Razilly, os religiosos foram responsáveis pela criação de uma nova frente de ocupação no território americano em nome da monarquia francesa e da fé católica, que teve a duração de três anos, efêmera, se comparada à secular permanência portuguesa.O tema da presença de conquistadores franceses no Norte do Brasil colonial, entre 1612 e 1615, foi pouco conhecido e estudado pela historiografia brasileira, tendo sido sempre tratado sob o título genérico de invasões francesas nos manuais de História do Brasil, e associado freqüentemente à idéia de ameaça militar, interesses econômicos e perda da soberania portuguesa nas terras americanas. Diferentemente dessas interpretações mais gerais, os episódios receberam relevante atenção de autores como Alfred Métraux, Claude Lévi-Strauss e Michel de Certeau, que se dedicaram, sobretudo, ao estudo dos relatos produzidos a partir das duas tentativas de ocupação e colonização: a França Antártica, na região do Rio de Janeiro, e a França Equinocial, na região do Maranhão.A pesquisa que a historiadora Andréa Daher transformou em livro apresenta O Brasil Francês: As Singularidades da França Equinocial (1612-1615l ) sob, no mínimo, dois pontos de vista: ''''par delà'''', isto é, a França Equinocial, e ''''par deçà'''', a França. Trata-se de importante contribuição para os estudos da história da cultura escrita e das representações européias seiscentistas acerca das experiências na América, tomando como fontes principais, a exemplo dos grandes nomes mencionados, os relatos construídos pelos freis Claude d''''Abbeville e Ives d''''Evreux sobre os nativos e a natureza, com os quais tiveram contato na etapa da ocupação do Maranhão. Ao optar por observar as experiências e a escrita missionárias sob diversos prismas, a autora explica, por um lado, o modo como os relatos e memórias elaborados pelos religiosos capuchinhos produziram um conhecimento novo e singular a partir da tentativa de conversão dos índios tupinambás, e da alteração de seus hábitos e práticas de convivência. Por outro lado, o livro permite entender que, munidas de intenso teor providencialista, as obras de D''''Abbeville e D''''Evreux tornaram-se referências fundamentais em sua época, sofrendo também elas as vicissitudes que marcaram o processo de investimentos da coroa francesa na expansão e sua disputa com as demais coroas européias pela ampliação das áreas de exploração, bem como suas relações com a Santa Sé nesses conflitos.Um episódio revelador dessas tensões ocorre após a primeira expedição, quando os conquistadores franceses decidem levar alguns índios tupinambás para a França. Chegando em dezembro de 1612, a presença desses nativos na corte de Luís XIII é analisada pela autora como instrumento de ''''propaganda'''' da facilidade de aceitação da fé desses nativos pela mão dos franceses. No intuito de instigar a necessidade de arrecadação de fundos para a construção da França Equinocial, foram celebradas cerimônias públicas de batismo solene e do reconhecimento da conversão pela Igreja. Dentre os índios levados a Paris, três adoeceram e morreram por causa do clima, outros três sobrevivem e são batizados, fazendo com que os objetivos fossem atingidos, a ponto de a rainha regente conseguir sensibilizar o papa a auxiliar a França no financiamento da nova expedição.Assim, objetivados pelo interesse primeiro de converter e civilizar os tupinambás, os padres franceses teriam principalmente lançado mão de um arcabouço constituído a partir das experiências anteriores de missionação com os camponeses do interior da própria França. Na América, contudo, acabam elaborando uma nova maneira de atuar sobre a parcela americana da humanidade por eles desconhecida, mas considerada mais pura e permeável à civilização do que os próprios franceses, rústicos e degenerados pelos vícios. Dentre os elementos mais significativos destacados pela autora nessa dinâmica relação de aprender e ensinar no novo mundo, encontra-se a idéia da ''''douce France'''', isto é, a capacidade de conquistar e dominar pela doçura, concepção que se pode, de certo modo, comparar à difundida ''''plasticidade'''' portuguesa de adaptação às adversidades das conquistas, ou a ''''violência feroz'''' dos espanhóis nos territórios coloniais. Assim, a doce conquista referida nos escritos seria aplicada como estratégia pedagógica para conversão mais eficaz.Nessa perspectiva, os relatos portugueses de Gândavo, mas sobretudo Manuel da Nóbrega, entre outros, no tocante à natureza dos índios e sua conversão são confrontados com os escritos franceses, explicitando, assim, as diferenças de posição destes em relação aos ''''doces'''' conquistadores, tratados pelos padres inimigos portugueses como hereges. Constata a autora: ''''O programa erigido por Yves d''''Evreux para a França Equinocial difere, sem contestação, qualitativa e quantitativamente, do dos missionários da Companhia dde Jesus'''', pois para o padre Claude d''''Abbeville ''''a colonização do Maranhão vem responder a um desejo das populações indígenas de submissão ao rei da França, às leis da nação francesa e à fé dos pays capuchinhos'''' (pg. 245). Enquanto para Nóbrega tratava-se de elaborar uma ''''teoria da conversão'''', para D''''Evreux e D''''Abbeville a conversão dos tupinambás era a legitimação do pertencimento desses homens aos destinos da França. Nesse confronto de visões reside o aspecto mais interessante e importante desse estudo para a história do Brasil colonial.Realizada para o desenvolvimento da tese acadêmica de doutoramento, defendida na EHESS, em Paris, sob a orientação do professor Roger Chartier - também autor do excelente prefácio desta edição -, a pesquisa prima ainda pelo sofisticado levantamento e confrontação das fontes em diversos arquivos europeus relativos ao período. Para o leitor brasileiro, contudo, o texto carece de um capítulo que tenha a função de referenciar as relações político-culturais entre a França e as coroas unidas de Espanha e Portugal, suas principais opositoras no período, especialmente por tratar-se de um estudo problematizador das singularidades da França Equinocial.

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