A saga do Indiana Jones da Amazônia

Z, A Cidade Perdida mostra a obsessão de Percy Fawcett pelo Eldorado brasileiro

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

22 de agosto de 2009 | 00h00

O coronel britânico Percy Harrison Fawcett era considerado o último dos exploradores individualistas, aqueles que só se interessavam por lugares que literalmente não estavam no mapa. Em 1925, quando estava com 57 anos de idade e depois de várias expedições, ele empreendeu a que considerava o ápice de suas pesquisas: descobrir Z, povoado antigo e altamente desenvolvido que Fawcett acreditava existir na Amazônia brasileira, uma civilização tão sofisticada que mudaria para sempre a visão ocidental das Américas."Depois de enviar notícias durante cinco meses, Fawcett simplesmente silenciou. E, desde então, a busca de seu paradeiro se tornou uma obsessão dos exploradores modernos", conta o escritor americano David Grann que, também enfeitiçado, buscou repetir os mesmos passos do britânico na Amazônia, aventura que resultou no romance Z, A Cidade Perdida (tradução de Claudio Carina, 408 páginas, R$ 49), que a Companhia das Letras lança na quarta-feira. Ele é um dos convidados da Bienal do Livro do Rio, que ocorre em setembro (leia abaixo).O mistério ganha mais contorno pelo fato de Fawcett ser um homem da ciência, que passara anos reunindo evidências para provar sua proposta. E, por quase 20 anos, suas aventuras com tribos hostis e lutas contra morcegos e cobras alimentaram a imaginação de um público que ainda via a Amazônia como um lugar tão misterioso como a face escura da Lua. Uma figura tão fascinante que inspirou Arthur Conan Doyle a escrever seu O Mundo Perdido, além de fornecer o perfil ideal do personagem Indiana Jones, dos filmes dirigidos por Steven Spielberg - o livro de Grann, aliás, já foi adaptado para o cinema, com Brad Pitt no papel e estreia prevista ainda para este ano."Seu desaparecimento, portanto, deixou o mundo chocado", atesta Grann. "Fawcett ganhou seu lugar nos anais da exploração, não pelo que revelou ao mundo, mas pelo que escondera." Para os cientistas, o fim misterioso do pesquisador britânico marcou o encerramento de uma era, tornando-o o último dos exploradores individualistas. Sobre o assunto, Grann conversou com o Estado, por e-mail.Por que você decidiu aventurar-se na Amazônia para traçar o perfil do coronel Fawcett?Descobri que a história era muito inspiradora para um romance. No início, planejava escrever apenas sobre Fawcett e as pessoas que morreram ao buscar a cidade perdida na Amazônia. Mas, ao me deparar com os diários de Fawcett, descobri pistas sobre a localização da Cidade Z, o que me deixou envolvido pelo mistério. Assim, a despeito dos alertas de amigos, eu me aventurei pela floresta.Você acredita que a era das explorações realmente terminou?Depende de como se define essa era. Claro que ainda existem áreas relativamente inexploradas - o governo brasileiro estima a existência de tribos amazônicas que nunca foram contatadas pela civilização. Sidney Possuelo, encarregado do departamento de proteção dos índios, disse que "não se sabe quem eles são, onde estão, quantos são e quais línguas falam". Os oceanos também continuam enormemente desconhecidos. Mas acredito que Fawcett marcou o fim de uma exploração em larga escala, quando os mapas apontavam regiões com espaços em branco e os exploradores preferiam se aventurar nessas regiões a ficar com um compasso na mão.O que foi mais útil em sua pesquisa?O livro se baseia principalmente em pesquisa própria e em material inédito. Algo como a correspondência e os diários de diversos membros da família Fawcett e de amigos, além de companheiros de outras expedições. Uma das fontes mais preciosas foram as cartas escritas por Raleigh Rimell, que desapareceu com Fawcett na expedição de 1925. Os textos que enviou para casa não estavam em museus ou bibliotecas e consumi três anos de busca. Finalmente, eu as encontrei na casa de uma prima de Raleigh na Inglaterra que já estava com mais de 80 anos e as mantinha guardadas no sótão. O material mais importante, no entanto, surgiu quando segui as pistas da neta de Fawcett que, em sua casa no País de Gales, me mostrou uma arca na qual estavam alguns livros antigos, danificados e cobertos de poeira. Perguntei o que eram e ela me disse que eram os diários pessoais e os diários de bordo de Fawcett. Esse material foi precioso ao fornecer novas pistas sobre seu destino e sobre o paradeiro de Z.O que mais o surpreendeu na viagem à Amazônia?Muitas coisas: a beleza, a sinuosidade. O que mais me interessou, na verdade, eram as pessoas que lá viveram e as recentes descobertas arqueológicas que derrubavam velhas suposições sobre como era a natureza amazônica antes da chegada de Cristóvão Colombo. Alguns acompanhantes de Fawcett enlouqueceram, graças às dificuldades de se viver na selva. Por conta disso, seus relatos eram realmente confiáveis?Eis uma boa questão. Ler esse material é uma das mais atraentes e desconcertantes experiências. Jamais havia lido sobre um terror tão visceral. Normalmente, os homens executavam tarefas racionais, de acordo com suas obrigações mas, à medida que a expedição avançava, demonstravam sinais de insanidade. Nesses casos, baseei-me em diversas fontes o que me permitiu comparar as versões de cada um. E, mesmo quando um diário revelava elementos delirantes, também mostravam o grau de loucura, desespero e horror pelos quais aqueles homens estavam passando.Por que os homens vivem fascinados por lugares como Z?Isso parece eterno. Acredito ser um desejo sem-fim por lugares mais ricos e mais fabulosos que os nossos. Em 1928, depois que milhares de pessoas se voluntariaram a encontrar Fawcett, um jornal americano admirou-se: " Talvez se houvesse um número suficiente de florestas disponíveis e suficientes expedições, veríamos o espetáculo de toda uma população marchando em busca de exploradores perdidos, civilizações antigas, e algo que vagamente sentiam falta em sua vida."

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