A Rússia por trás de suas fachadas

O premiado escritor Bernardo Carvalho mostra o outro lado da turística São Petersburgo em seu décimo livro, O Filho da Mãe

Entrevista com

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

06 de março de 2009 | 00h00

Décimo livro de ficção do escritor Bernardo Carvalho, O Filho da Mãe (Companhia das Letras, 208 págs., R$ 39) tem tudo para repetir o êxito de Noves Noites (Prêmio Portugal Telecom) e Mongólia (Prêmio Jabuti). É o romance em que o autor circula pelos mesmos lugares frequentados pelos personagens de Dostoievski e Gogol, em São Petersburgo, o primeiro em que usa a terceira pessoa para criar uma obra polifônica, rapsódia sobre personagens deslocados numa cidade projetada segundo a lógica da visibilidade total, onde ninguém escapa ao controle do poder, segundo o autor - tanto que a palavra "prospekt", que define as grandes avenidas da cidade, vem do latim "perspicere" (habilidade de ver objetos a distância).Bernardo passou alguns meses em São Petersburgo para escrever o romance, segundo da série Amores Expressos, projeto em que 17 autores foram enviados a diferentes cidades do mundo para escrever uma história de amor. Ele escreveu várias, partindo da segunda guerra da Chechênia e da comemoração dos 300 anos de fundação São Petersburgo (em 2003). Fala tanto do amor materno como do desamparo de jovens recrutados pelo Exército e obrigados a se prostituir para garantir a sobrevivência da instituição. Em O Filho da Mãe, o pai é uma figura ausente num país dominado pela corrupção, pelo crime e por uma tradição militar que não admite a quebra da hierarquia. Seu livro começa mostrando o contraste entre a reconstrução física da Rússia e sua derrocada moral, contrapondo as placas de reforma que anunciam o "renascimento" de São Petersburgo à placa decrépita do Comitê das Mães dos Soldados da cidade, ou seja, revelando certa desconfiança nessa ideia de progresso. É assim que vê a Rússia atual?Antes de escrever O Filho da Mãe, li muitos livros daquela jornalista russa assassinada, Anna Politkovskaya (morta a tiros no elevador de seu prédio, em 2006, por suas denúncias políticas). Nunca tinha ouvido falar do Comitê das Mães antes de ler seus livros e fiquei impressionado com essa iniciativa, com o potencial dramático da história. Ao mesmo tempo, São Petersburgo havia comemorado 300 anos e, como é uma cidade de fachada, pensei em unir essas histórias. Havia uma coisa física que explicava muito sobre a própria Rússia, sobre aquele lugar que desmorona atrás de fachadas bonitas, uma cidade construída na época do Iluminismo e que por trás esconde coisas sujas como a convocação de jovens soldados inexperientes para a guerra da Chechênia. A violência sempre existiu nas Forças Armadas da URSS, mas, com o fim do comunismo, a instituição militar, que era um dos pilares da sociedade, entrou em colapso. O Comitê das Mães foi criado nesse exato momento em que as Forças Armadas desmoronaram moral e financeiramente.Numa passagem do romance você cita o episódio da poeta Anna Akhmátova aguardando notícias do filho, preso em Kresty durante o regime comunista, associando seu drama ao das mães que tiveram filhos sequestrados pelas milícias chechenas. Seu livro foi concebido originalmente como uma relato jornalístico adaptado para a ficção?Não conheço bem a história russa e não pretendia fazer uma reportagem ao ser convidado a escrever sobre São Petersburgo. Aliás, essa história só surgiu após a leitura de Anna Politkovskaya. Queria apenas que um dos personagens fosse uma dessas mães que defendem filhos dos outros. Lembro de ter lido sobre a prostituição de recrutas por oficiais de São Petersburgo para levantar fundos destinados a um de seus quartéis. Essas duas coisas ficaram bem marcadas na minha cabeça.No livro, a mãe, de certa maneira, surge como a causadora indireta dessa tragédia. Ao tentar proteger os filhos, ela desenvolveria um sentimento paranoico de que tudo o que está fora do núcleo familiar deve ser exterminado. Por outro lado, o pai é sempre uma figura ausente no livro. Quem, afinal, é o vilão?A opinião sobre as mães não é minha, mas de um personagem do livro, que diz terem as mães mais a ver com as guerras do que imaginam, porque têm horror a perder e são capazes de tudo para proteger os filhos, prontas para defender a prole e o clã contra tudo. Tem um paradoxo nisso, mas é bonito, especialmente quando as mulheres começam a defender os filhos dos outros. E as mulheres do comitê defendem filhos despreparados de mães muito pobres, que vêm do interior.O amor entre ruínas é uma metáfora apropriada para os jovens outsiders do romance, do recruta Andrei ao batedor de carteiras pelo qual se apaixona, passando por Ruslan e Akif, que se encontram em vagões abandonados e sempre às escondidas, obrigando o primeiro, como diz o livro, a associar sexo à trégua e amor à iminência da perda. Como é a homofobia na Rússia?As manifestações gays são reprimidas. Eles inventam o amor para poder sobreviver nesse lugar onde não existe nenhum outro tipo de esperança, nenhum outro tipo de saída. Os direitos civis na Rússia são ainda muito restritos. Os gays do livro não são apenas marginalizados, são estrangeiros, vêm de outros lugares além de São Petersburgo. Não se sentem em casa, são deslocados.Um pouco à maneira de Sebald em Vertigem, você antecipa o futuro de Nikolai (padrasto que obriga o enteado ao serviço militar) quando abre o diário que será lido um dia pela filha ao velho inválido. É uma maneira de dizer que o pai tem lá suas razões e criticar a literatura que elege o passado como meta?Há uma dimensão humana em Nikolai, uma certa fragilidade, como nos outros personagens, com exceção de Maksim, o menos complexo. Eles são amorosos, com tudo de errado que possam ter feito. Sobre a literatura estar condenada ao passado, o que tento fazer é justamente o contrário: criar uma literatura que não exista antes dela. A uma certa altura do romance, um personagem diz que as histórias de amor podem não ter futuro, mas têm sempre passado e é por isso que os livros que as pessoas leem sempre dizem respeito a esse tempo. Ninguém quer ler o que está por vir, porque ninguém vai construir uma casa à beira do abismo. A literatura de mercado, a que funciona, é a literatura da retrospectiva. Voltando a São Petersburgo, você diz que é uma cidade devassada, que ela foi construída segundo a lógica da visibilidade total, onde as avenidas são chamadas de "perspectivas" e parecem projetadas para desfiles militares. Como você se sentiu numa cidade como essa?Acho interessante quando chego num lugar e a coisa física esclarece como é o negócio ali. Talvez na minha paranoia entendi essa lógica da visibilidade absoluta como controle total do poder. Ninguém havia me dito isso, eu descobri ao chegar. O próprio nome da avenida, Prospekt, perspectiva, sugere esse controle. São Petersburgo me sugeriu a ideia de personagens em busca de um lugar para se esconder desse controle visual. Senti isso na própria pele, quando fui assaltado às seis da tarde na avenida Nevski, a principal de São Petersburgo. Todo mundo me viu sendo assaltado e ninguém fez nada, apesar de todos verem tudo.Você, que escreveu BR3 para o grupo Teatro da Vertigem, não pretende escrever outras peças?Adoro teatro. Por mim passaria o resto da vida escrevendo para Antonio Araújo, mas a experiência com os atores foi traumática. Fiquei três anos criando em estado belicoso com o elenco. Não sei administrar questões pessoais de atores. Queria mostrar que aquele texto não era deles, era meu. Ainda acredito na ideia de autoria. Não sou um mero copidesque do sentimento dos outros. TrechoAs mulheres nascem para um amor que é insustentável e que passam a vida tentando compensar com amores secundários, para não ficarem loucas. Por isso, querem mais de um filho, para que o amor de um anule o do outro. Quando começam, não podem parar. É estranho que se esqueçam tão rápido dos filhos que morreram. A morte de Chakhban me fez entender melhor as mães que matam os filhos ao nascer. É melhor não ter um filho que perdê-lo.

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