A relação de Rodin com a fotografia

Mostra em Minas coloca lado a lado esculturas do francês e registros fotográficos que ele encomendava para divulgar sua obra

Eduardo Kattah, BELO HORIZONTE, O Estadao de S.Paulo

14 de agosto de 2009 | 00h00

O francês Auguste Rodin (1840-1917) e a fotografia são contemporâneos. Ambos nasceram na primeira metade do século 19. Embora ainda incipiente, foi por meio da técnica que o escultor decidiu registrar as etapas de seu lento processo criativo e direcionar o olhar do espectador sobre suas obras. Com o passar do tempo, o próprio artista se surpreenderia com as interpretações que seu trabalho ganhou a partir das lentes dos chamados pictorialistas, representantes de uma corrente fotográfica que naquela época pretendia "rivalizar" com a pintura.Na exposição Rodin: do Ateliê ao Museu - Fotografias e Esculturas, que acaba de ser inaugurada na Casa Fiat de Cultura, em Nova Lima, na divisa com Belo Horizonte, as imagens dialogam com a força das obras. A mostra reúne 22 esculturas, com destaque para peças de grande porte como os bronzes As Três Sombras, que foi retirada do jardim do Museu Rodin, em Paris, e pela primeira vez é exposta fora da capital francesa; e A Eterna Primavera; além de As Bênçãos, única obra em mármore, também nunca antes exibida fora do museu dedicado ao artista. A maior novidade, porém, está no conjunto de 194 fotografias originais, que retratam período de quatro décadas da produção do francês - de 1877 a 1917 -, inéditas para o público brasileiro.O acervo fotográfico que margeia as esculturas trata, de forma cronológica, das etapas transitórias da criação de Rodin. A partir do momento em que começou a adquirir reconhecimento, escultor passa a se utilizar da técnica como instrumento de registro e divulgação. A primeira parte da exposição contempla as maquetes da concepção de uma encomenda desafiadora para o artista: a escultura A Porta do Inferno, por volta de 1880.As imagens revelam a técnica de Rodin, baseada em moldes de argila e gesso. Também desnuda a intimidade de seu ateliê. O escultor contava com uma equipe de ajudantes, mas quando retratado no seu local de trabalho, aparecia como única figura humana. A presença dos assistentes pode ser notada pelos chapéus e roupas ao fundo, ou numa imagem de 1898, em que um auxiliar trabalha na obra Monumento a Victor Hugo, enquanto Rodin posa para a foto.Na fase inicial, a maioria das fotografias é feita por anônimos. "A gente não sabe por que foram escolhidos, mas provavelmente eram fotógrafos de bairro, que não eram muito caros", observa Hélène Pinet, chefe da área de fotografia do Museu Rodin, que divide com o diretor da instituição, Dominique Viéville, a curadoria da mostra. Em muitas fotos, o escultor deixou anotações, títulos e rabiscos, também como parte de seu modo criativo. "Dá para perceber que o processo de criação é muito lento, muito devagar, mas ele vai documentando o testemunho de cada rastro dessa criação". Na última década do século 19, Rodin chegou a eleger o dono de um café que frequentava, Eugène Druet, como seu fotógrafo preferido. "Ele sempre pensou que podia dirigir mais um fotógrafo amador do que um profissional", salienta Hélène. Druet dava seus primeiros passos no universo da fotografia e durante anos trabalhou de graça para o famoso escultor. Seu principal objetivo era fazer parte do meio artístico parisiense, tanto que em 1903 ele inaugurou uma galeria de arte na capital francesa.Nos primeiros anos do século passado, porém, a fotografia já havia ganhado importância no conjunto da obra de Rodin. Em alguns casos, as imagens deixam de ser apenas um elemento de divulgação de seu trabalho na imprensa. Na exposição, há fotos em que constam os preços das obras retratadas. "Servem também como um catálogo para vender as esculturas", diz a curadora.Embora tivesse se mostrado sempre muito afirmativo com os fotógrafos que trabalhavam oficialmente para ele, o escultor se rende ao trabalho ousado de jovens pictorialistas, como Stephen Haweis, Henry Coles, Jean Limet e Edward Steichen. Rodin dá liberdade total aos jovens, que imprimem uma nova estética às suas obras. Na parte final da exposição, ganham destaque as imagens noturnas feitas em 1908 por Steichen de uma maquete em gesso do escritor Balzac.A exposição, que integra as celebrações do ano da França no Brasil, vai até o dia 13 de outubro na Casa Fiat de Cultura (Rua Jornalista Djalma Andrade, 1.250, Belvedere, Nova Lima), com entrada franca. Depois, segue na íntegra para o Museu de Arte de São Paulo (Masp). De acordo com os organizadores, após a exibição no Brasil, o acervo com os originais fotográficos precisará ser mantido em reserva técnica durante cinco anos para conservação.

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