A rebelião das celebridades. Ora!

Fugi para o interior para me colocar em sossego. No que cheguei a Araraquara, li a notícia de que uma humilde escola de samba da periferia, do segundo grupo, a Acadêmicos de Vila Selmi-Dei, tinha como tema O Menino Que Vendia Palavras, meu livro infantil do ano passado. Fui sondado para saber se eu iria para a avenida com eles. Disse que iria, não acreditaram. Só na hora em que cheguei ao sambódromo viram que era verdade. Somos julgados inatingíveis, inacessíveis, nosso mundo acaba ficando distante, fora da realidade. Brinquei: um acadêmico na Acadêmicos. A escola não teve verba da prefeitura até o último instante. Quando saiu um dinheirinho, eles já tinham soltado cheques voadores para todo lado, correram atrás. Escola pequena, tem cem componentes. Um único carro, alegórico e abre-alas ao mesmo tempo, produto da criatividade, da força da imaginação. Sem dinheiro, improvisaram, usaram a base de um andaime de metal forrado com um tecido em que se via estampado o zero, homenagem a um livro meu, subi e me vi cercado por um monte de máquinas de escrever, símbolos de meu ofício e saímos. Empurrado pela garra e pelo coração da escola, senti-me na Marquês de Sapucaí. No que entramos no sambódromo - uma pista de 350 metros -, caiu um temporal violento. Ao chegarmos à apoteose, a água parou. Momento indescritível de poesia e participação nestes meus 70 anos de vida. A frase do presidente Chicão me tocou: ''''Nem que eu tivesse colocado dez mulheres nuas em cima deste carro teria feito tanto sucesso. Nosso carro parecia uma montanha no sambódromo.'''' Coisas simples podem nos arrebatar, elas possuem sua grandeza. Ao acordar em São Paulo, na quarta-feira, vi que era dia de cinzas. Na mesma hora me veio uma imagem do passado. As pessoas voltando da igreja com uma cruz de cinzas na testa. Não uma, nem duas, dezenas de pessoas, católicos que se prezavam e não tivessem cometido o pecado de participar da folia satânica iam ''''tomar cinzas'''', para redimir os próprios pecados e pedir pela redenção dos outros, os condenados. Esses condenados encontrávamos pelo caminho voltando das ''''orgias'''', na quais perdiam a alma. Isso nos excitava enormemente. Os condenados não pareciam acabados, tristes nem deprimidos. Ao contrário, vinham cantando um pierrô apaixonado, Maria escandalosa, fui às touradas de Madri, para ver Ceci (e o que Ceci, de O Guarani, fazia em Madri?) Criança ainda, percebi que no mundo havia paradoxos e contradições. O inexplicável se fazia presente. Adulto, assumi que o inexplicável faz parte da existência. Confesso que nunca me senti melhor, mais aliviado por receber aquela cruz de cinzas na testa. Até me envergonhava, mas não podia retirá-la, devia esperar que ela se fosse por conta própria, assim como não se pode cortar a fita do Bonfim, é preciso esperar que ela se desfaça e atenda aos nossos pedidos. Com as cinzas havia o pedido pela salvação dos outros, mas o que eu sempre pedia era: bom Deus, faça com que eu um dia possa ir a um baile de carnaval, possa dançar, possa sair com essas mulheres lindas, possa me perder, me entregar ao Demônio. Assim como por anos pedi a um Deus qualquer, que me possibilitasse ir à Marquês de Sapucaí, o que acabou acontecendo e foi uma noite memorável, gloriosa, até fui em quem beijou a bandeira da Liga das Escolas de Samba, para dar início ao desfile. Nesta Quarta-Feira de Cinzas saí cedinho, cheguei à igreja da Praça Benedito Calixto, queria ver se ainda veria gente com a testa marcada pela cruz. Não encontrei nada. As pessoas estava tomando ônibus, voltando ao trabalho, na padaria tomavam café como faziam todos os dias, o jornaleiro me entregou os jornais. Será que não há mais cinzas para nos salvar? Pelos jornais soube da vitória da Vai-Vai com um tema moderno, Acorda Brasil. Nada mais atual, necessário. Curioso que seja São Paulo a dar esse pulo ao futuro, aqui sempre disseram que não há samba, não há carnaval. Enquanto isso, lá no Rio continuam a homenagear a Carmen Miranda. Quando soube que o tema era baseado em Antonio Ermírio de Morais, dei um pulo de alegria, espirrei lança-perfume no ar. Um desperdício, sei, mas... Circunspecto, sóbrio, severo e irritado com a imoralidade política que assola o País, indignado com a corrupção e a dissolução dos costumes, Antonio Ermírio foi o responsável pelo levantamento do povo nas arquibancadas. Sacudir a arquibancada tudo bem, dirá o Antônio Ermírio, mas eu quero é sacudir o País. Fiquei imaginando a sessão da Academia Paulista de Letras desta semana. Antonio Ermírio, o acadêmico, deve ser homenageado. É o mínimo que se espera. Afinal, ele sacudiu a avenida. Para inveja de muitos, quem sabe a restrição de alguns. Levarei alguns confetes no bolso, se alguém se manifestar, jogarei. Acabou-se tudo, quem comeu arregalou-se, mas tenho duas observações. Fiquei feliz com a escola Unidos de Vila Maria, apesar do terceiro lugar. Desfile impecável. Merecia um empate com a campeã. Dizem que o problema esteve com a porta-bandeira, ela, com 45 quilos, foi prejudicada por um vestido que pesava 39 quilos. O peso não importa, gente! Vejam como as formigas carregam coisas com um peso absurdo em relação ao seu tamanho. Acompanho a trajetória da Vila Maria e o exuberante talento do carnavalesco Vagner, que, pouco tempo atrás, tirou água da pedra com o tema Via Dutra. Naquele ano, por ter escrito o único livro sobre a história da Via Dutra, fui convidado a desfilar na avenida em cima de um carro alegórico. Foi um êxtase, experiência incomparável. A outra observação é sobre celebridades. Parece que houve uma rebelião, decidiram cobrar cachês para participar dos camarotes, sentem-se ''''usadas'''', transformadas em garotos e garotas-propaganda. O que as celebridades querem? Vão aos camarotes, têm mordomias, privilégios, motoristas, massagistas, cabeleireiros, DJs, Sonrisal e Eno, posam para mil fotos, recheiam as páginas de todas as revistas que se alimentam de famosos, vêem suas fotos espalhadas pelo Brasil. Sabem que estão num regime de troca nessa feira das vaidades. Não estivessem no camarote, onde as celebridades, as meias-bocas celebridades, os um décimo de famosos (como os do Big Brother, esse antro da estupidez humana), estariam para serem fotografadas, se exibirem como pavões reais? Na arquibancada? No meio do povão? Na feira livre? Andando na rua? Ora, uma mão lava a outra, minha gente! Vão lá, comam seus salgadinhos, empadas, coxinhas, croquetes, salsichas empanadas, bebam seu vinho e cerveja e champanhe e até sidra, e se dêem por contentes. Ingratos!

Ignácio de Loyola Brandão, O Estadao de S.Paulo

08 Fevereiro 2008 | 00h00

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