A quebra de fronteiras em Londrina

Filo 2009, que vai até o dia 21, explora o silêncio e uma possível língua universal

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

16 de junho de 2009 | 00h00

O importante debate sobre acessibilidade para a democratização da cultura, que tomou parte de toda a tarde e início da noite na última quinta-feira, estendeu-se para os palcos de Londrina, por uma feliz coincidência. E a acessibilidade, nesse caso, viu-se obrigada a expor suas mais diversas acepções que insistem em se manter escondidos em algum lugar entre a acessão e o acessório, no dicionário. No feriado de Corpus Christi, o que se pôde constatar na segunda maior cidade paranaense foi o início de um trabalho árduo de destruição de fronteiras não só físicas, mas também linguísticas. O silêncio que fala pelos cotovelos e a assimilação de uma língua universal.A reportagem do Estado acompanhou o ensaio do Ballet de Londrina no sábado, cuja estreia se dará amanhã no Teatro Ouro Verde. Para Acordar os Homens e Adormecer as Crianças carrega no título e nos corpos dos expressivos bailarinos a força capaz de atenuar o efeito dessa dor que não se sabe de onde vem, mas se sente brutal e constantemente. "Pensei em cerca de cinco nomes para o espetáculo. A primeira palavra que me veio foi oco, um ?entre? coisas. A segunda foi lisérgico, um remédio para dor que, na precariedade da arte, possibilitasse embarcar em uma viagem. A terceira foi anódino, um calmante, mas que em espanhol descobri tratar-se de algo banal. Então decidi fechar com o último verso do poema de Drummond, Canção Amiga, que carrega uma esperança de se dissipar as angústias dos dias de hoje", detalha o diretor da companhia e atual secretário Municipal de Cultura de Londrina, Leonardo Ramos.Por ora, o efeito pode parecer pretensioso, mas tem o poder de uma hipnose que leva ao alívio instantâneo de um peso de origem desconhecida. A trilha, composta por músicas do movimento pós-rock, foi encontrada no 9º volume de uma série de discos distribuídos pela revista The Silent Ballet, de Columbia, nos Estados Unidos. A dramaturgia que só existe nos movimentos é tecida por intermédio de um integrante maduro, Marciano Boletti, de 38 anos, e um garoto Vitor Rodrigues, de 13 anos. O restante dos bailarinos, talentosos jovens, formam um único corpo responsável tanto pela obstrução, quanto pelo suporte na travessia não-literal, que procura e encontra outras formas de se locomover através de eixos de equilíbrio nada convencionais. Não perca: o Ballet de Londrina passará por São Paulo entre 1 e 4 de outubro, no Teatro de Dança (Av. Ipiranga, 344, subsolo do Edifício Itália).A capacidade de se comunicar plenamente, fazendo uso do silêncio e de outras línguas que não fossem a nossa materna, foi efetiva em outros dois espetáculos apresentados na noite de domingo. Fragmentos de Vidas Divididas, dirigido e atuado por Norberto Presta, do Centro de Produção Teatral Via Rosse, da Itália, fala sobre a tênue linha que separa o ?eu? do ?outro?, a partir de uma figura aparentemente perturbada que não consegue reconhecer sua imagem no espelho. Presta, nascido na Argentina, expõe parte de sua biografia como imigrante na Europa e divaga sobre memórias expostas em espanhol e em italiano. É aí que sua alma se acalma, mãos, pés e tronco relaxam (também com a ajuda de uma garrafa inteira de champanhe, ingerida ao longo do espetáculo) e a tradução, totalmente inteligível, acontece.Fenômeno similar foi alcançado pelo italiano Matteo Belli e a visita guiada ao seu Inferno de Dante. A primeira parte da Divina Comédia, de Dante Alighieri, vestiu-se apenas de calça social e camisa polo - de mangas compridas e arregaçadas - e foi capaz de dar vozes tenebrosas aos corpos de avarentos e agiotas, interceptados por Dante. Apresentado no italiano arcaico original, sem auxílio de legenda, Belli adiantava momentos antes de cada ciclo o que se veria interpretado por ele mesmo no palco - só que em espanhol. A interpretação impecável se sobrepôs a quaisquer ausências: de cenário, de trilha sonora, de desenho de luz por vezes falho. Tanto, a ponto de ficar a dúvida se este seria mais um trabalho de puro exibicionismo técnico. O público londrinense foi convidado ao desafio e aprovou o resultado, numa explosão de aplausos após a travessia do inferno que durou instigantes 60 minutos. O riso fácil e bobo também teve vez com os russos do Teatr Licedei e colabora no incessante trabalho de formação de público, que ocorre há pelo menos 41 anos em Londrina, quando nasceu o Festival Internacional. Mas a edição de 2009, definitivamente, já aponta um outro caminho. Que sabe silenciar e falar uma única língua. A repórter viajou a convite da organização do festival

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