A prova do angu

Videntes antigos procuravam presságios nas vísceras dos pássaros. Os que tentam antever como será o governo Barack Obama estudam a sua escolha de secretários como se fossem tripas, pois seu gabinete tem algo de angu à baiana. Há conservadores, centristas e menos progressistas do que se esperava e sua inspiração principal parece ser o governo Clinton - ou seja, mais um passado testado do que o novo prometido. É difícil deduzir o que vem aí dessa mistura. Uma previsão é que Barack proporá outro New Deal como o do Roosevelt para enfrentar a crise econômica - o que também não deixará de ser um apelo ao passado -, mas nada de dramaticamente muito diferente em outras áreas, como a da política externa. Pelo menos baseada na aparência do angu. Na questão Israel/palestinos, as opiniões do Barack não divergem da posição da quase totalidade dos políticos americanos, de ajuda incondicional a Israel. Hillary Clinton, sua secretária de Estado, era senadora por Nova York com forte apoio do voto judaico. A única esperança de que a política americana em relação ao Oriente Médio passe a ser mais equilibrada vem de uma declaração que o Barack fez durante a campanha, segundo a qual ser a favor de Israel não significa ser necessariamente a favor do Likud, o partido de extrema direita tão intransigente nas suas pregações e ações quanto os radicais do outro lado. O implícito reconhecimento que a política expansionista e do revide desproporcional é de uma corrente política não favorece a segurança de Israel e, portanto, não merece apoio incondicional, é um vislumbre de mudança. Se o Barack não estava apenas fazendo uma frase. A mistura de conveniência política com ódios irracionais é o que tem de mais repugnante na crise crônica do Oriente Médio. Toda essa gente morrendo para que o Hamas pareça mais duro do que as outras facções palestinas contra Israel e o governo israelense pareça duro o suficiente para derrotar o ainda mais duro Bibi Netanyahu nas eleições de fevereiro. As ambições sectárias de lado a lado medidas em crianças mortas. Se você pode entender a reação de Israel diante do terror palestino, e para isso basta se imaginar vivendo entre vizinhos que simplesmente negam a sua existência, também não pode deixar de lamentar que a retribuição de Israel seja o terror no mesmo nível. Nenhuma corrente ou facção tem o direito de fazer isso com a reputação de um povo com o passado e o acervo moral do povo judeu. No Oriente Médio se tem o triste espetáculo de uma nação sacrificando sua história para garantir sua geografia. O que o governo Barack Obama fará a respeito de tudo isso? Bom, isso será a prova do angu.

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