A prosa sofisticada de um livro religioso que seria pura poesia

Essa é a definição de Robert Alter para o livro sagrado, traduzido em 2 mil línguas

O Estadao de S.Paulo

23 de dezembro de 2007 | 00h00

O estudioso Robert Alter, nascido em Nova York há 72 anos, é um homem sofisticado. Já esteve no Brasil algumas vezes, a última delas há dois anos como palestrante da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Dá aulas de literatura hebraica e comparada na Universidade da Califórnia. Além disso, assinou uma biografia crítica de Stendhal e retraduziu para o inglês os livros de Samuel e dos Salmos. Em outras palavras: Alter circula entre o mundo arcaico e o moderno com tamanha liberdade que dificilmente um leitor encontrará companhia melhor para uma visita literária aos textos bíblicos. Por uma feliz coincidência, seu livro está chegando na mesma hora da ''''biografia'''' da Bíblia escrita pela inglesa Karen Armstrong , história do livro mais traduzido e publicado no mundo (mais de 6 bilhões de exemplares vendidos nos dois últimos séculos e traduzido em 2 mil idiomas).Alter fica intrigado como tão poucos se dedicam ao estudo crítico da narrativa bíblica enquanto há tantos arqueólogos atrás de pistas que confirmem as especulações dos teólogos . Claro, antes deles outros ''''escavaram'''' o material bíblico, como os respeitados Otto Eissfeldt e Edwin M. Good, mas A Arte da Narrativa Bíblica é menos reverente ao examinar certas passagens como deliberadamente criadas como prosa em substituição ao gênero épico - prosa pronta para virar poesia. Alguns de seus personagens, diz Alter, são caracterizados com tamanha economia que mais parecem criados por algum dramaturgo de gigantesca imaginação - e as histórias de Davi rivalizam em invenção literária com as contadas por escritores contemporâneos como Faulkner, um escritor essencialmente ''''bíblico'''' citado em duas passagens do livro.Karen Armstrong não chega a tanto em seu livro Bíblia - Uma Biografia, mas defende que o conhecimento religioso não pode ser comunicado pelo exame de uma página sagrada. As escrituras não se tornaram Escrituras por serem consideradas divinamente inspiradas, mas porque, segundo ela, as pessoas começaram a tratar esses documentos ''''de maneira diferente'''', guardando-os em arca, carregando-os em procissão ou cobrindo-os com incenso. A autora conta que nem todos os profetas antigos - Jeremias, entre eles - eram simpáticos à palavra escrita, preferindo que os conhecimentos religiosos fossem transmitidos de forma oral, justamente para evitar a ''''pena mentirosa dos escribas''''.A exemplo de Garry Wills, Karen Armstrong critica a indústria erudita que transformou o ''''Jesus histórico'''' numa fonte de cobiça das editoras. ''''O fato é que o único Jesus que realmente conhecemos é aquele descrito no Novo Testamento'''', diz a escritora. A Bíblia, defende, jamais estimulou o conformismo. Ao contrário. Ela concorda com Hans Frei que dizia ser o livro sagrado um ''''documento subversivo'''', desconfiado da ortodoxia desde os mais remotos tempos. ''''Donos de escravos interpretam a Bíblia de uma maneira'''', observa. ''''Os escravos, de outra muito diferente'''', conclui.

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