A prosa lírica dos nossos trovadores

Diretora conta como foi lidar com os célebres entrevistados de seu filme

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2009 | 00h00

Helena Solberg iniciou sua carreira de cineasta no exterior. Casada com um norte-americano, ela viveu muito tempo em Washington. Entre seus documentários ?americanos?, o mais famoso talvez seja From the Ashes... Nicaragua Today, que ganhou o Emmy. Em 1995, nas bordas da ficção e do documentário, ela fez Carmen Miranda - Banana Is My Business, ao qual se seguiram uma ficção (Vida de Menina) e outro documentário, Palavra (En)Cantada, que estreia hoje. Até por ter vivido fora, tanto tempo, o cinema de Helena é permanente indagação sobre o País, a língua. Ela observa o que lhe parece uma curiosidade e tanto."Você reparou como no ano passado surgiram diversos filmes examinando a questão da música e o processo criativo de artistas e suas vidas? Só no Festival do Rio, tivemos os documentários sobre Humberto Teixeira, parceiro de Luiz Gonzaga, o dos Titãs e o Lóki, sobre Arnaldo Batista, além do meu. É como se houvesse uma grande coincidência e os assuntos viessem à tona em sintonia. Essas questões da língua, da música, da identidade sempre foram importantes para mim, mas tenho a impressão de que são necessários um amadurecimento e um distanciamento para que possamos enxergar certos assuntos com mais rigor. Desde o momento em que Palavra (En)Cantada se impôs, fizemos, lá na Radiante Filmes, uma pesquisa que durou mais ou menos oito meses. Mergulhamos nesse universo com a equipe de pesquisadores do professor Júlio Diniz, da PUC-Rio. Que tipo de filme poderíamos fazer sobre música e poesia, sobre música e palavra? Não queria um documentário tradicional, mas uma coisa mais intimista. A pesquisa determinou um rumo, um perfil de entrevistados, num total de 18. Cada entrevista durou em média duas horas. Gravamos cerca de 40 horas de material. Todo esse material foi construído e desconstruído na montagem, que é sempre decisiva num documentário. Foi uma experiência que, na minha avaliação, deu muito certo."Não apenas na avaliação da diretora - Palavra (En)Cantada ganhou o prêmio de direção atribuído pelo júri internacional, no Festival do Rio do ano passado. Não é muito frequente que um prêmio de direção seja atribuído para um documentário, quando a maioria dos concorrentes vem da ficção. "Você acha isso errado?", pergunta a diretora, que não entende muito bem a observação do repórter. "Ah, bom." Os 18 entrevistados pertencem a diferentes universos da música e da poesia. E, como observa Helena, "entre eles havia mais critérios em comum do que diferenças." Adriana Calcanhotto abre e fecha os depoimentos de Palavra (En)Cantada. Isso revela uma preferência especial de Helena pela cantora gaúcha? "Ela é luminosa", resume a diretora, que usa como elemento recorrente a ideia dos trovadores, abordada por outros dois entrevistados, Lenine e Lirinha.Embora trabalhe nesse universo da música, da poesia, Helena sabe que fez um filme ?cabeça? (mas talvez não difícil). O ponto de partida foi seu interesse em discutir a música como ponte para a poesia e a literatura, num país de forte tradição oral, como o Brasil. O primeiro entrevistado com quem ela se encontrou foi José Miguel Wisnik. "Ele é muito claro e focado. Quando fala, trabalha com a síntese e termina apontando caminhos muito interessantes." Outros entrevistados não revelam nem um pouco desse poder de síntese. "Teve gente muito prolixa. Eu tinha de intervir para criar um foco, senão a conversa se dispersava." A experiência de Helena em seus documentários anteriores lhe facilitou o diálogo. "Tem um lado meio de psicanalista. Estava tensa antes de entrevistar Chico (Buarque), mas quando me dei conta da timidez dele relaxei e, na verdade, ambos relaxamos. Chico dá um depoimento ótimo."Com Maria Bethânia, a abordagem foi outra. À queima-roupa, Helena pediu à mana de Caetano que recitasse uma poesia. "Ela é poderosa com a palavra." Além dos depoimentos, poemas de Fernando Pessoa, João Cabral de Melo Neto , Hilda Hilst e clássicos da MPB (de Cartola, Chico/Edu Lobo, Lamartine Babo, Arnaldo Antunes, Caetano Veloso etc.) conduzem o roteiro (ou costuram a montagem) do filme. O professor Júlio Diniz trabalha num desdobramento de Palavra (En)Cantada: um livro reunindo as entrevistas. Outro produto, o CD, revelou-se inviável. "A integração entre depoimentos, músicas e poemas não conseguiu criar um produto independente do filme. Tinha também a complicação dos direitos. Terminamos desistindo." Duas frases do filme"Faço rap para cativar os moleques pra literatura. Faço um CD de rap, então em vez de letra eu meto um conto no meio, pro cara ler um conto na vida dele." FERREZ"Euclides da Cunha fala: o sertanejo gosta de prestar atenção a tudo o que acontece e, já que ele era analfabeto, o som passava a ter uma importância maior. Não é como hoje em que há uma ditadura do olho sobre o ouvido." TOM ZÉ

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