A primeira vez a gente não esquece

Rosane Svartman volta ao tema das relações humanas em Desenrola, mas com enfoque no rito de passagem de jovens

Luiz Carlos Merten, RIO, O Estadao de S.Paulo

05 de agosto de 2009 | 00h00

Rosane Svartman tem passado os últimos dias consultando os sites de meteorologia. Nada a preocupa mais do que saber como estará o tempo no Rio. Rosane está filmando e o novo longa, Desenrola - O Filme, tem muitas externas. Na terça-feira retrasada, ela rodava uma cena importante. O filme é sobre o rito de passagem de garotos e garotas. Há este jovem que deseja ardentemente uma garota, mas ela está interessada em outro. Por um acaso, ele teve acesso ao caderno de anotações da amada, não propriamente o seu diário. Isso lhe forneceu um certo número de informações sobre o que ela mais deseja.Por exemplo - Priscila (é seu nome) tem medo de mar, mas o que mais deseja é estar numa onda. O que faz Boca (é o nome dele)? Colocado na marquise em frente do apartamento da garota, ele se vale das artimanhas do amigo Amaral, que entende de tecnologia como ninguém, e projeta essa onda na qual Priscila pode navegar, sem sair de casa. "A cena pode ser filmada com chuva ou sem chuva", observa a diretora. A chuva que cai neste momento, no Rio, é torrencial. A meteorologia previa tempo bom, mas você sabe como é... É uma ciência, mas não exata. "Agora só não pode parar de chover", diz Rosane, de olho no céu. "Se parar no meio, vai ser um problema."A cena, propriamente dita, é breve, mas prepará-la - e preparar a projeção - demanda tempo, por isso ela está tão preocupada. Os atores estão todos descontraídos. Lucas Salles faz o Boca, Olivia Torres é Priscilla e Vitor Thiré, neto de Cecil Thiré, bisneto de Tônia Carrero, é Amaral. Eles conversam com o repórter do Estado, que visita o set, no interior do apartamento que, supostamente, pertence a Priscila. Na verdade, o apartamento foi uma solução emergencial que caiu como um presente no colo da diretora Rosane Svartman e de sua parceira, a produtora Clélia Bessa. Ambas têm estado juntas desde que sua empresa, a Raccord, fez Como Ser Solteiro. Eventualmente, a Raccord faz filmes de outros diretores. Podem ser jovens (estreantes) ou veteranos como Domingos Oliveira - e o filme do segundo foi Separações, pelo qual Clélia tem um carinho todo especial.De volta ao apartamento, ele pertence à amiga de uma assistente da produção. A garota está fora, durante alguns dias, e calhou de Rosane, circulando pelo bairro de Laranjeiras, ter descoberto aquela marquise que lhe pareceu adequada. Definida a marquise, era preciso achar o apartamento. Foi tudo muito fácil, mas o interior da casa está a maior bagunça. Clélia observa - "Usar locações reais é o pesadelo de quem fornece o espaço. No fim, quando a gente sair, tudo vai ficar em ordem, mais até do que estava, mas quem entra num espaço bagunçado desses é capaz de ter um enfarte." É na cama, em meio a incontáveis cabides de roupas, que o repórter conversa com o elenco jovem.Já que se trata de um filme sobre a primeira vez, Lucas vai logo contando a sua. Ele tem 16 anos, como o Boca. O garoto é descolado. O primeiro beijo foi com uma mulher de 30 - ele tinha 12. Foi abuso? "Foi ótimo", ele diz, acrescentando que usava aparelho, mas tirou e pediu outro beijo, para testar a maciez da boca da parceira. Lucas parece ter fixação em mulheres mais velhas. A primeira vez de fato - os finalmentes - foram com uma garota de 18. A produtora entrega - "As meninas ainda são virgens". Olívia já fez teatro. Diz que a personagem tem tudo a ver com ela. Neste momento, ela está sendo maquiada. Um cuidado especial é o cabelo. "Fiz teste, mas demorou e, quando fui chamada, havia cortado o cabelo. Mais curto, fiquei com uma cara mais madura, mais mulher. O aplique me salvou. Meu cabelo não é tão longo como parece." Vitor curte a vida no set. A bisavó famosa lhe dá toda a força.Os três não poupam elogios à diretora, que os prepara pessoalmente, prescindindo dessa figura cada vez mais frequente no cinema brasileiro - o preparador (ou preparadora) de atores. "A Rosane fez um trabalho muito bacana de criação do roteiro. E o bom é que esse roteiro não é intocável. A gente tenta respeitá-lo, claro, mas tem momentos em que é preciso mudar na hora e ela é aberta a improvisações", diz Olívia. A própria Rosane esclarece. Como seus longas precedentes - Como Ser Solteiro e Mais Uma Vez Amor -, Desenrola - O Filme é sobre relacionamentos. A produção, iniciada há duas semanas - 15 de julho - tem mais duas semanas pela frente (até o dia 16). O filme tem cenas no Rio e, no fim, em Búzios.Você pode acompanhá-lo pelo site www.desenrolaofilme.com.br. O projeto já nasceu interativo e vai continuar assim. Uma música será inteiramente composta com a ajuda dos internautas, que também poderão colocar o solo de guitarra, cantar no coral por meio do Karaokê Desenrola ou fazer a música que vai para o YouTube e o cinema, tudo por meio de concurso. A interatividade não para por aí. Cartaz, trailers e virais também serão escolhidos por concurso. Estamos falando de toda uma fase ?pós?. A interatividade tem dado a tônica de Desenrola - O Filme desde ?antes?. "Tudo começou com uma pesquisa sobre sexo que deu origem à série de documentários da GNT Quando Éramos Virgens e ao livro de mesmo nome, editado pela Casa da Palavra. A pesquisa rendeu também uma web-série, Desenrola (www.desenrola.com.br)", informa a diretora. "Em todas essas etapas, nossa ideia era sempre o filme como produto final."Lançada no segundo semestre do ano passado, a web-série teve a participação direta do público jovem, por meio de blogs, fóruns, ARGs (jogos de realidade alternada), flickr, last.fm e outras redes sociais. "Toda essa participação foi importante para definir o perfil dos personagens e construir as histórias de primeira vez, que são nosso objetivo. O projeto mudou muito desde o princípio. No começo, seria nos anos 80, com um recorte mais nostálgico. A opção pela garotada atual mudou tudo e terminou ?desenrolando? o filme para o rádio, TV e escolas do eixo Rio/São Paulo", explica a diretora. Não há registro de outro filme brasileiro baseado em tamanha interatividade. "Eu nunca deixo de frequentar o site e a web. Tem umas histórias muito bacanas que geram debates muito interessantes. Tudo isso alimenta o trabalho da gente", diz Olivia Torres.Clélia tem a impressão de estar fazendo um filme para sua filha e a de Rosane - a da produtora já é uma pré-adolescente; a da diretora ainda é uma menininha. O elenco é predominantemente desconhecido, ou pouco conhecido, mas tem participações de Leticia Spiller e Marcelo Novaes como pais, e Pedro Bial como professor. O garoto, um pouco mais velho, que desperta a libido de Priscila - para desespero de Boca - é Kayky Britto. "Entrevistamos garotas de diferentes cidades e escolas, de diferentes estratos sociais, e foi a única unanimidade. Para TODAS elas, Kayky encarna o garoto gostoso", diz a diretora. No fim, a meteorologia ajuda. Para de chover em Laranjeiras e a cena pode ser filmada (e repetida) tantas vezes quantas a diretora deseja. Mas isso não tranquiliza Rosane Svartman quanto ao dia seguinte. "Este tempo instável está acabando comigo", ela diz. Clélia Bessa acrescenta - "Conosco!" O repórter viajou a convite da produção do filme

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