A potência criativa em duas trajetórias

Iran do Espírito Santo e Alberto Martins inauguram na Estação Pinacoteca duas mostras de destaque no cenário morno paulistano

Maria Hirszman, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2001 | 00h00

Com o lançamento de livros e um conjunto significativo de obras realizadas ao longo de um período bastante amplo, Iran do Espírito Santo e Alberto Martins inauguram hoje na Estação Pinacoteca duas exposições de destaque no cenário um tanto morno das artes visuais paulistanas. São duas mostras bastante distintas, derivadas de percursos diversos e com alguns pontos de encontro - como a quase onipresença de embalagens (caixas, latas, barris...), símbolos por excelência da mercadoria, e a transitoriedade entre os campos da abstração e da figuração -, que revelam sobretudo a singularidade e potência criativa dos dois autores.A mostra de Espírito Santo, que ganha sua versão paulistana após itinerância em museus de Roma e Dublin, propõe uma espécie de apanhado geral da produção do artista nos últimos dez anos. São mais de 50 trabalhos, em várias técnicas e materiais, nas quais o artista parece explorar uma ampla gama de investigações, testando limites e formas de representação, provocando o espectador com aparências ambíguas, conteúdos contraditórios e transição abrupta entre diferentes domínios e categorias da representação.Paradoxal, o trabalho de Iran parece escapar entre os dedos quando se tenta resumi-lo em categorias estanques. Suas peças são ao mesmo tempo secas e sedutoras. Atraem o espectador para depois frustrá-lo. Das pinturas murais que vem realizando desde 1990 adaptando a técnica do esgrafito (após recobrir a parede de nanquim, o desenho é criado a partir da raspagem da tinta com a ponta seca) ao objeto que deveria ser um copo, é idêntico a um copo, mas na verdade é uma massa única de cristal, um continente sem espaço para o seu conteúdo e que perde assim todo seu poder de uso, ele estabelece um diálogo com diversos caminhos da arte contemporânea e se apropria de estratégias minimalistas, conceituais, surrealistas... Parte de elementos do cotidiano e propõe uma reflexão sobre as noções de representação, simulacro, desvirtuamento entre função e forma.EM TRÂNSITO''''A paisagem, no mundo ou na arte, deve ser vista de perto ou de longe'''', afirma Marco Buti, no texto ao mesmo tempo reflexivo e poético que constitui a coluna vertebral do livro que Alberto Martins edita agora, por ocasião de sua retrospectiva na Pinacoteca. Trata-se de uma imagem (em palavras) que sintetiza com precisão aspectos centrais da trajetória de Martins, da mesma forma que o título da exposição. Noções de paisagem e de transitoriedade estão na essência da gravura, da escultura e da poesia produzida por Martins nos 20 anos contemplados pela mostra da Estação Pinacoteca.Barcos, recipientes, caixas, gruas apropriadas da paisagem ao mesmo tempo bruta e lírica dos portos de sua cidade natal povoam suas xilogravuras. Destaca-se uma certa ordem construtiva - como destaca Guilherme Wisnik, o outro autor do livro. Mas não se trata da ordem construtiva rigorosa e formalista, mas da concisão, do potencial intuitivo da geometria que o artista diz ter descoberto em Torres García.Sobrepostas e equilibradas de maneira completamente instável, suspensas por gruas gigantescas, as caixas e contêineres recriados por Martins não são uma citação direta, uma mera representação da realidade captada por seus olhos e reproduzidas no papel. Nascem do embate do artista com a realidade que o cerca, seja no embate físico com a madeira (que serve tanto de matriz para a gravura como matéria-prima da escultura), seja no esforço de trabalhar com o mundo real. Não como forma de ilustrar ou recriar a realidade, mas sim trabalhando plástica ou literariamente questões que estão no cerne da nossa realidade local (santista ou brasileira). Buscando a síntese na representação daquilo que Wisnik define como ''''aparições momentâneas de um comércio desterritorializado e desterritorializante''''.ServiçoAlberto Martins e Iran do Espírito Santo. Estação Pinacoteca. Largo Gal. Osório, 66, Luz, 3337-0185. 3.ª a dom., 10h às 18h. R$ 4 (sáb. grátis). Até 6/1. Abertura hoje, 11h

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