A polêmica condensação de vidas

O inglês Paul Strathern, autor de Escritores em 90 Minutos, fala de sua série, que resume (e muito) a trajetória de figuras ilustres

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

01 de agosto de 2009 | 00h00

Condensar a vida e a obra de uma figura notável (seja escritor ou cientista) em um livro cuja leitura consuma até 90 minutos é a meta de Paul Strathern, ex-professor de filosofia e matemática na Universidade de Kingston, na Inglaterra. Ele é autor de pequenos relatos que, juntos, formam séries, publicadas aqui pela Jorge Zahar Editor. Assim, depois de Filósofos em 90 Minutos e Cientistas em 90 Minutos, chegou a vez de Escritores em 90 Minutos, iniciada com quatro volumes: Jorge Luis Borges (1899-1986), Franz Kafka (1883-1924), Virginia Woolf (1882-1941) e Gabriel García Márquez (1927).A tarefa é ingrata - mesmo oferecendo um panorama geral da carreira do artista, que funciona como um aperitivo para incentivar a fome do leitor para pesquisas mais aprofundadas, o trabalho de Strathern também é alvo de críticas dos especialistas, incomodados justamente com erros de informação, ou até conceituais, e com um rebaixamento do estilo, que pressupõe um leitor nada esclarecido.A divisão de opiniões também marcou o desafio proposto pelo Estado a especialistas brasileiros na obra dos quatro autores. A cada um, foi pedida uma curtíssima resenha, inspirada no espírito da coleção, ou seja, oferecer o máximo de informação (no caso, de crítica) em um texto reduzido. O convite foi aceito pelo escritor e tradutor Eric Nepomuceno, que escreveu sobre García Márquez; Ana Cecília Olmos, professora de Literatura Hispano-Americana da USP (Borges); o tradutor Leonardo Fróes (Virgínia Woolf); e o tradutor, escritor e crítico Modesto Carone (Kafka). O resultado pode ser lido nesta página.Strathern não desconhece que trilha um caminho acidentado, mas apresenta suas justificativas. "Quando se detalham ideias filosófica ou científicas, o melhor é acrescentar um pouco de humor no texto, a fim de que o leitor não se sinta de volta à escola", afirmou ele ao Estado, em entrevista realizada por e-mail. "As pessoas querem ser entretidas enquanto aprendem e não gostam de textos escritos por idiotas pomposos que julgam saber mais do que realmente sabem."O desafio é grande, garante Strathern. Ao apresentar as ideias de Martin Heidegger (1889-1976), por exemplo, talvez o filósofo mais controverso do século 20, o ex-professor partiu do seguinte: para Heidegger, a questão que considerava fundamental (qual o significado da existência?) estava além do alcance da lógica ou da razão, e requeria uma forma inteiramente nova de filosofia. Foi assim que esse pensador dedicou sua vida a desenvolver uma tradição filosófica existencial, diametralmente oposta à análise linguística. "Busco esclarecer conceitos profundos da filosofia e complicados enunciados da ciência, mas sem provocar a ilusão de que são simples", explica Strathern. "Isso permite que os leitores possam compreender a noção geral do trabalho do escritor, cientista ou filósofo. E o efeito mais importante é despertar nesse leitor a vontade de aprofundar esse novo conhecimento." Para isso, no fim de cada volume, são oferecidas sugestões de outras leituras.O primeiro passo, essencial no entender de Paul Strathern, é controlar o ego - o biógrafo não deve dar pistas de sua presença ao leitor, buscando, ao lado da síntese, ocultar-se por completo. "O que é muito difícil para qualquer escritor, pois todos buscam um mínimo de celebridade", alfineta.A escolha dos biografados também implica uma estratégia. Strathern conta que, na filosofia, sua intenção era elencar aqueles cujo conjunto de obras cobrisse todo o pensamento ocidental. Assim, fez uma lista em que incluiu John Locke, David Hume, George Berkeley, Bertrand Russell, Jean-Paul Sartre, Michel Foucault e outros 17 nomes.A mesma estratégia foi usada na seleção dos cientistas, embora, nesse caso, Strathern conte que se concentrou nos contemporâneos, ainda que nem todos fossem de sua preferência. O objetivo, diz, é atingir um público específico: aquele com uma escassa noção da importância do biografado. "Vivemos em meio a uma rotina complicada, com muitas exigências e que não nos permite ler, como necessário, os trabalhos de Joyce ou Spinoza", explica. "Meu desejo é que os leitores utilizem esses livros como ponte para um conhecimento mais avançado até que, anos depois, ao se lembrarem da minha obra, imaginá-la como muito simples, sem perceber que secretamente modifiquei sua vida."A simplicidade, de fato, transparece em seus textos. No volume sobre Berkeley, por exemplo, o primeiro parágrafo lança uma provocação: "Berkeley é o tipo de filósofo que dá má reputação à filosofia. Quando se lê seu trabalho pela primeira vez, ele parece absurdo. E está certo, ele é. A filosofia de Berkeley nega a existência da matéria. De acordo com ele, não existe mundo material." Mais adiante, Strathern afirma que, pelo raciocínio do filósofo, quando não se vê algo, esse algo não existe. "Essa postura é adotada por crianças que tapam os olhos quando não querem comer espinafre e jiló."Como não dispõe de espaço para grandes considerações, o filósofo e matemático aposta nos assuntos que acredita serem úteis para o leitor, especialmente no seu dia a dia. Na coleção dos cientistas, um dos volumes mais interessantes conta o trabalho e a conturbada existência do matemático Alan Turing (1912-1954). Strathern procura mesclar a excentricidade de Turing (homem que não se preocupava com etiqueta social, vestindo-se mal e mantendo o hábito de fazer observações abertamente homossexuais diante dos colegas) com seu pioneiro estudo matemático, na elaboração da teoria que resultaria nos modernos computadores. O livro traz ainda a descrição da morte de Turing que, antes de dormir na noite de 7 de junho de 1954, repetiu o hábito de comer uma maçã antes de se deitar. A fruta, no entanto, fora tratada por ele com cianureto."Quando escrevo, idealizo os leitores como pessoas desejosas de expandir seu horizonte intelectual, necessidade vital em uma sociedade dividida entre o consumo e o pensamento concentrado em ganhos materiais", conta Strathern, que confessa desconhecer a quantidade de países que editam seus livros - na última contagem, sabia que era um número superior a duas dúzias de idiomas, do turco ao indonésio. "Brinco com meu agente que ele atingirá o grau máximo de eficiência quando acertar a edição dos meus livros na Mongólia."A expansão vem acompanhada também de críticas justamente ao que Strathern apregoa como sua principal qualidade: o didatismo. Ao avaliar uma citação de Descartes no livro sobre Nietzsche, por exemplo, o filósofo Olavo de Carvalho publicou uma crítica impiedosa no Jornal da Tarde, em 2000. "Seu Descartes não é o filósofo de carne e osso, autor do Discurso do Método e das Meditações", escreveu. "É uma imagem popular, colhida na cultura de almanaque e reproduzida em milhões de almanaques para a imbecilização geral dos jovens."

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