A poética de um homem de moral

Documentário de Ricardo Dias percorre a trajetória do zoólogo que se tornou famoso por suas incríveis letras de músicas

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

05 de junho de 2009 | 00h00

Há 13 anos, Ricardo Dias realizava No Rio das Amazonas, seu belo documentário sobre as populações ribeirinhas do grande rio. O zoólogo Paulo Vanzolini era seu companheiro de aventura. Num determinado dia, sentaram-se num bar para conversar. O diretor de fotografia Adrian Cooper observou - "Você deveria filmar esse momento; está sendo único." Dias até comentou - "Talvez um dia; agora não; nosso filme é outro." Era outro - porque chegou o dia de filmar a vida do dublê de músico e zoólogo. O filme estreia hoje. Chama-se Um Homem de Moral.Vem de Volta por Cima, uma das músicas mais famosas de Vanzolini. "Um homem de moral/ não fica no chão/ reconhece a queda/ e não desanima..." Reconhecer a queda é que faz o homem de moral que Vanzolini sempre quis ser. Desde garoto - desde sempre -, Ricardo Dias tem estado próximo de Paulo Vanzolini. Ele era amigo do pai de Ricardo, professor na Poli. Foram colegas e mais tarde Vanzolini foi estudar nos EUA. Ricardo Dias também estudou na América. Isso os aproximou mais ainda, não tanto por serem americanófilos - mas o cientista Paulo Vanzolini considera a América "um grande país" -, e sim porque ambos falam (e leem) bem inglês. A troca de livros e informações tornou-se uma prática comum. Vanzolini, mais velho, virou uma espécie de guia para Dias, quando seu pai morreu.O filme mesmo começou a nascer em 2002, quando Ricardo Dias gravou uma série de entrevistas com Vanzolini. Elas ficaram paradas até 2005, quando o lançamento do CD comemorativo do compositor desencadeou uma série de shows e homenagens. Dias foi para o estúdio com os amigos de Vanzolini, gente como um certo Chico Buarque. No intervalo, realizou outro documentário - Pixinguinha, A Velha Guarda do Samba. Um projeto alimentou o outro. Dias descobriu filmes domésticos, que Thomaz Farkas realizara com o grande compositor. Ele também descobriu fotos raras de São Paulo, que utiliza em Um Homem de Moral. "O Thomaz fez aquelas fotos para que eu as usasse 60 anos depois." A cidade - São Paulo - é importante na vida e obra de Vanzolini. É importante no filme.Ocorre, durante a entrevista, realizada na casa de Vanzolini, no Cambuci - há controvérsias se o endereço, a rua, exatamente, fica no Cambuci ou na Vila Mariana -, o que não deixa de ser um incidente divertido. A entrevista está sendo gravada pela TV Estadão. Toca o telefone, é Ancelmo Góis, do Globo, do Rio. Ele quer saber, para uma reportagem, o que Vanzolini mais deseja quando está no Rio - "Voltar para São Paulo." Todos riem da piada, mas, na verdade, não é uma piada. Vanzolini adora fazer a ronda da ?sua? São Paulo. Não vai mais fundo porque dr. Drauzio - Varela, seu médico - não deixa. Vanzolini teve três ataques do coração sucessivos - "No mesmo dia", ele acrescenta. Comprometeram seu coração. "Fiquei só com 30%." O fígado, em compensação, é o melhor do mundo, acrescenta Ricardo Dias.Autor de Ronda, um clássico, Vanzolini mantém uma relação ambivalente com sua música mais famosa. Não é que não goste dela, mas cansou. Reconhece, no entanto, que possui versos fortes - "Rolando dadinhos/ jogando bilhar" -, que definem uma personagem e uma situação. Talvez seja a influência do cientista, apaixonado pela vida animal. Um amigo disse, certa vez, que Vanzolini não era poeta, mas letrista. Até os poemas que editou - Lyra de Paulo Vanzolini - são letras à espera (ou procura) de música. Como letrista, Vanzolini não se preocupa com o tempo. É capaz de ficar anos - muitos - à espera do verso perfeito, da palavra exata, para concluir uma música. É que nunca precisou viver da sua música. Viveu da sua ciência. A música era - é - um hobby. Ricardo Dias acha que a palavra não está bem empregada. É mais do que hobby. Paixão? "De noite, eu rondo a cidade/ a te procurar..."

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