TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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A pintora Mônica Nador cria obra coletiva sobre a Vila Itororó

Artista desenvolveu com participantes de oficina arquivo visual de elementos do histórico conjunto construído em São Paulo

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

26 de junho de 2015 | 05h00

Nos últimos três meses, a artista Mônica Nador e os participantes de uma oficina de pintura vasculharam a Vila Itororó, no bairro da Bela Vista, em São Paulo, para recolher elementos visuais do histórico conjunto formado por um estranho palacete, uma piscina e por casas nas quais famílias viveram até a desapropriação do local, finalizada em 2013.“Não dá para descartar o potencial afetivo das pessoas que moraram aqui”, afirma a pintora, entre leões de pedra, restos de ladrilhos hidráulicos e grafites contemporâneos que restaram da construção, originada na década de 1920, e que inspiraram a criação de estênceis para obras pictóricas já consideradas parte de uma arqueologia do lugar.

“A Vila Itororó foi construída para despertar a imaginação, até hoje”, diz Benjamin Seroussi, responsável pela curadoria do projeto cultural que integra o programa de restauro e “renovação” do local promovido pela Prefeitura – e que vai resultar na abertura de um centro de cultura previsto, por ora, para 2019. “A vila tem uma dimensão real, mas também uma dimensão ficcional ao redor dela”, completa o curador sobre a particularidade de um conjunto arquitetônico eclético e habitacional que começou a ser erguido em 1922 pelo português Francisco de Castro. O excêntrico fundador do lugar, por exemplo, construiu seu palacete pela sobreposição de estruturas e “puxadinhos” desde uma casa térrea e usou como adornos da residência restos do Teatro São José, antigamente abrigado no centro da cidade, mas demolido depois de um incêndio.

“Acho que temos de usar a arte e a cultura para criar espaços de sociabilidade para além do funk, das igrejas e equipamentos educativos”, considera Mônica Nador, que ministrou a oficina de estêncil na Vila Itororó para quatro participantes. “Tentamos trazer mais pessoas”, conta a artista, explicando que foi realizada uma reunião com ex-moradores do local para apresentação da proposta – deles, entretanto, apenas Camila Santana, de 29 anos, se comprometeu com a iniciativa (leia abaixo). “Difícil a gente alcançar a população”, continua a pintora, que fundou, em 2003, o Jardim Miriam Arte Clube (Jamac), projeto exemplar na periferia de São Paulo.

O trabalho, na época, teve como ponto de partida o programa Paredes Pinturas, pelo qual foram pintados muros e casas do Jardim Miriam com base em máscaras criadas com os desenhos traçados pelos habitantes da comunidade. “Não há tantos artistas que extrapolam o limite da arte”, define Benjamin Seroussi, que convidou Mônica Nador a desenvolver “um arquivo” de padrões visuais da Vila Itororó e “transformá-los em outra coisa” não apenas inspirado pela ação coletiva da criadora no Jamac, como também por sua experiência como coordenadora de ateliê na Oficina Cultural Oswald de Andrade baseado nos elementos arquitetônicos do bairro do Bom Retiro.

Agora, como conta Mônica Nador, foram detalhes dos pisos do conjunto da Bela Vista, assim como encaixes de madeiras, tijolos, tacos do chão do interior do palacete de Francisco de Castro, um gradil, ladrilhos hidráulicos, os leões decorativos de pedra e até um “puxadinho” da construção que chamaram sua atenção e de seus alunos durante o processo de captura de elementos. “Em um dos encontros, pedimos os desenhos dos moradores e um garoto de 10 anos, o Pablo, que mora na zona leste, mas sua avó vivia aqui, fez um desenho de um grafite da vila e nós o usamos”, lembra.

Os estênceis tornaram-se base para pinturas coloridas sobre as paredes do galpão que recebe os visitantes da Vila Itororó (com entrada pela Rua Pedroso, 238) e para tecidos que, a partir deste sábado, 27, serão exibidos permanentemente no espaço – os panos ficarão pendurados no teto, como uma tenda. “Gostaria de pintar aquela casa inteira (referindo-se ao palacete) com uma equipe legal, só que para isso teria de ficar por aqui pelo menos uns dois anos”, diz a pintora, que encerra agora sua oficina – por falta de recursos.

“O projeto curatorial é um experimento de centro cultural com os artistas, arquitetos, urbanistas”, diz Seroussi. O curador cita como parte deste primeiro momento de atividades a realização de trabalhos artísticos ainda por Carla Zaccagnini (ela vai escrever a história do local); Graziela Kunsch (que trabalha na equipe de formação de público do lugar e documentou, entre 2006/2007, os movimentos de luta na Vila Itororó) e o coletivo ConstructLab.

‘Nunca tinha lidado com arte antes’

Camila Santana, de 29 anos, conta que nasceu na Vila Itororó. “Primeiro, morei com minha avó, depois, levantamos uma outra casa, que foi derrubada. A última foi uma lá do fundo”, aponta. Ela foi a única ex-moradora a participar da oficina de Mônica Nador.

O que deveria ser agora a Vila Itororó?

Acho que a vila deveria ter coisas voltadas para os jovens. Esportes e cursos.

Você fez o desenho de algum estêncil?

Não, porque não deduzi que o desenho viraria (estêncil). Os meus desenhos foram mais sobre as brincadeiras que aconteciam antes, aqui.

O que é importante em um projeto como esse das pinturas?

Achei legal e também me deu uma renda. Recebo R$ 120 por dia, juntou o útil e o agradável. Também achei relaxante, do dia a dia. Trabalhei por 10 anos em um posto de saúde. Foi muito diferente.


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