A perda da inocência e as formas de ser rude

Quando a escritora norueguesa Linn Ullmann era pequena, passava o verão na ilha de Faro, na costa da Suécia. A casa de praia era o refúgio do pai, o cineasta Ingmar Bergman, que ali viveu até a morte, em 2007. Linn é filha de Bergman com Liv Ullmann, musa de clássicos como Cenas de um Casamento e Persona, e parceira do diretor entre 1966 e 1971. Aquele lugar remoto deixou profundas impressões na garotinha, que adorava correr sozinha pelas praias à beira do Báltico. Há muito de Faro na paisagem de Hammarso, a ilha em que três irmãs se reúnem para as férias, no livro Uma Criança Abençoada (Cia. das Letras, 360 págs., R$ 49). Neste que é seu quarto romance, Linn resgata sensações do passado para moldar uma narrativa impetuosa e impregnada de traços autobiográficos. Assim como a autora - caçula dos nove rebentos que Bergman teve com seis mulheres -, Erika, Laura e Molly são irmãs por parte do pai, Isak, um renomado ginecologista. Homem de temperamento explosivo, ele alterna momentos de fúria e extrema ternura. Uma personalidade que intriga não só as filhas, mas Ragnar, um menino de pernas finas e calombo na testa, que tem um enigmático fascínio por Isak. Ragnar é o excluído da turma da praia. Desprezado, se refugia em uma cabana na floresta, onde se encontra em segredo com Erika.Houve então o verão de 1979. Erika prestes a completar 14 anos (mesma idade da escritora na época), Laura aos 12 e Molly com 4. Para as duas primeiras, fase de hormônios pululantes. A sensualidade brota violenta e a tensão natural da idade culmina em um trágico episódio. Vinte e cinco anos depois, as três decidem voltar à Hammarso para visitar o pai, que ameaça cometer suicídio. Passado e presente formam um fascinante mosaico nessa trama sobre o fim da inocência, em que a autora examina a violência inerente ao ser humano. É verdade que escreveu Uma Criança Abençoada a partir da imagem de um garoto correndo? Sim, a partir de uma imagem imaginária e de outra real. Por anos carreguei a visão de alguém a correr através da floresta e pela charneca, em direção ao mar. Devo ter corrido assim quando era pequena e passava temporadas na ilha de Faro. Aquela paisagem árida e desolada era tão bela quanto assustadora. Sentia-me livre sozinha na praia, mas havia a sensação do perigo. De certa forma, o menino do livro sou eu, exceto (e isso é importante) pelo fato de nunca ter sido perseguida como ele. Mas há também a imagem real de um garoto correndo que me impressionou. Anos atrás, um norueguês foi caçado até a morte por rivais de classe. Ele era maltratado pela cor da pele, por ser diferente. Foi perseguido por esse grupo que iria espancá-lo e se afogou no mar. Uma Criança Abençoada é sobre as diferentes faces da violência. Isak é uma mescla de fúria e meiguice. Assim como Ragnar, provoca fascínio e aversão. Como foi a criação desses personagens? Isak e Ragnar têm muito em comum. Isak parece forte enquanto Ragnar tem uma figura frágil. Mas o contrário é verdadeiro. Eles são reflexos um do outro. São meigos e furiosos ao extremo. Pensei em A Tempestade, de Shakespeare. Isak é meu Próspero: mago, rei e pai. Ragnar é tanto o jovem príncipe quanto o monstro, Caliban. Caliban me intriga: é rejeitado por ser diferente e feio, mas é também sensível e eloquente. Esse é um conto violento e sensual sobre o fim da inocência. Sexo, amor, violência e família são temas primordiais para você?Para toda a literatura. Não consigo pensar em um romance que não aborde o amor (ou a falta de) e a violência (em qualquer forma). Família também é um ótimo pano de fundo para se explorar a natureza humana. Uma Criança Abençoada é sobre a perda da inocência. As protagonistas são crianças prestes a se tornar adultas. Queria examinar o exato momento em que algo divertido e ingênuo se torna violento. Erika, Molly e Laura têm vozes distintas e isso se acentua nas passagens em primeira pessoa, que expõem intimidade. Por exemplo, quando Erika dialoga com o filho que leva no ventre. Sempre tive a intenção de que partes da trama, em especial as que lidam com as irmãs já adultas, abordassem vivências femininas muito específicas, como a gravidez, a amamentação e a depressão pós-parto. Pretendo ir além com esses temas em novos livros. Diga um romance que trate o parto com honestidade, poesia e até com um pouco de filosofia. Tanto na literatura clássica quanto no cinema, tudo o que se explora acerca de um parto é sua dor, barulho e riscos - penso na cena da parteira aos berros por mais toalhas e água quente (por que afinal tantas toalhas e água?). Autores de ambos os sexos escrevem com eloquência sobre a morte, então por que não buscar essa desenvoltura para falar de gravidez, do parto e do pós-parto? São experiências existenciais e não o tipo de vivência que se limita aos romances "de mulherzinha". Presente e passado estão em fusão na narrativa. Por outro lado, o ponto de vista de cada protagonista ganha um capítulo separado.É verdade. Embora no momento mais dramático - a tragédia - as vozes se misturem e formem coro. Sempre associo passado e presente, sonho e realidade, noite e dia, memória e ficção. Assim funciona a mente moderna, a narrativa moderna. Poderia comentar o título do livro? Tenho essa ideia de que toda vez que nasce uma criança, alguém lhe deseja o bem. Pode ser a mãe, a parteira, o médico, um estranho. Assim, todas as crianças são abençoadas, embora isso não impeça que sofram crueldades ou injustiças. Cantigas de ninar me inspiraram. Elas têm ritmo e letras que sugerem o duplo sentido. Por um lado: vou cuidar de você pequenino, durma bem, nada vai lhe acontecer. Por outro: O mundo está um caos, somos vulneráveis, não importa o quanto eu tente protegê-lo. Você passava muito tempo com sua avó materna, enquanto seus pais estavam em locação. O fato de ela trabalhar em uma livraria a aproximou das letras e a afastou do cinema? Esse primeiro contato com a literatura foi fundamental para que me tornasse escritora. Nunca foi uma questão de entrar ou não no mundo do cinema porque nunca estive interessada. Minha avó era rigorosa, inteligente, independente, culta, ligeiramente maluca.Ela me ensinou tudo o que valia a pena - preparar uma boa sopa, apreciar uma luta de boxe, expressar opiniões com clareza, respeitar os mais velhos e ler.

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