A origem dos meus sonhos

Todo mundo já viu um filme que mudou sua vida. O cinema tem essa força. Você entra na sala de um jeito e sai outra pessoa. Enxerga o mundo de forma diferente.Para meu amigo Marcão, esse filme foi Submarino Amarelo dos Beatles. Na época, fim dos anos 60, ele ainda moleque trabalhava como past-upista de jornal diário. É uma profissão que não existe mais; foi extinta pelo computador. Consistia em alinhar e colar os textos e as fotos nas páginas para serem reproduzidos na impressão. Marcão entrava no serviço ao cair da tarde e saía de madrugada, depois do fechamento.Nesse dia, resolveu pegar um cinema antes de ir para o trabalho. Mas não resistiu e ficou ali na poltrona, assistindo ao filme novamente, em seguida. Já me contou essa história diversas vezes. Ficou maravilhado com a animação pop da obra. Não desconfiava que aquilo fosse possível. Era um outro mundo. Chegou com horas de atraso ao jornal e só não foi despedido porque seu chefe, embora irritadíssimo, e com razão, diga-se de passagem, se comoveu com o entusiasmo do jovem pela obra.O filme que mudou a vida de Barack Obama, candidato à Presidência dos Estados Unidos, foi Orfeu Negro, descobri, para meu espanto (e deleite), na semana passada. Não foi a última versão do filme, a de Cacá Diegues (1999), nem a do tratamento surrealista dado ao mito grego por Jean Cocteau em O Testamento de Orfeu, mas o filme baseado na peça Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes, lançado em 1959 e dirigido pelo francês Marcel Camus.Passa-se numa favela do Rio de Janeiro durante o carnaval. Conta a história do romance de Orfeu e Eurídice. A trilha sonora, de Tom Jobim e Vinícius, lançou os clássicos da bossa nova Manhã de Carnaval e A Felicidade. Levou a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de melhor filme estrangeiro.Obama viu o filme no início dos anos 80, levado pela mãe. Na época, conta em A Origem dos Meus Sonhos, relato autobiográfico de 1995 (recém-lançado no Brasil), era um aluno meio radical e meio amargurado da Universidade Colúmbia em Nova York. Sua mãe, Ann Soetoro, era uma figura. Branca, de Kansas, no meio-oeste, uma das regiões mais caretas do mundo, casou-se com um queniano negro, se doutorou em antropologia e criou Barack no Havaí e na Indonésia.A idéia de assistir a Orfeu Negro foi dela. Viu que estava passando quando visitava Barack na universidade. Disse-lhe que fora o primeiro filme estrangeiro da sua vida, e uma das coisas mais lindas que já vira.Militante do movimento negro americano, Barack detestou o filme. Achou os negros brasileiros infantilizados. Mas quando se virou para dizer à mãe que fossem embora do cinema, que saíssem antes de o filme terminar, percebeu no seu olhar hipnotizado toda uma história de vida. ''Foi como se abrisse uma janela no seu coração'', escreve. Barack entendeu-a pela primeira vez. ''Minha mãe era a garota com aquele filme na cabeça.''A Origem dos Meus Sonhos é fascinante. Não consigo parar de ler. Obama dedica cinco páginas ao impacto do dia em que saiu para assistir a Orfeu Negro. O filme mudou sua vida e, sobretudo, a da sua mãe.Dá o que pensar. No dia 20 de janeiro de 2009, os Estados Unidos podem celebrar a posse do seu primeiro presidente negro. Se vier a acontecer, devemos essa, em parte, a Vinícius de Moraes.

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